Havia já uns dias que o
pesado portão de ferro do jardim se encontrava fechado. Uma questão de força maior ao que diziam. Por entre as grades de metal, espreitava o silêncio
sepulcral da natureza em sossego. Tentara subir o portão, mas era alto demais,
não havia como saltar lá para dentro. Respondendo ao apelo da sua teimosia,
insistira várias vezes, mas apenas conseguira uns valentes arranhões nas pernas
e algum sangue à mistura. Sentia na pele o chamamento das violetas e dos lírios
do vale que continuavam a crescer na sua ausência. Num desespero descontrolado,
dava a volta ao jardim só para poder espreitar as flores, encostava a cabeça às grades para ao longe sentir-lhes
a vida por entre as mãos. Amava tanto as flores quanto amava o seu homem. Fora
naquele jardim que o vira pela primeira vez num tempo em que os dias eram mais
longos, num entardecer de brisa e de sol. Gostara dos seus lábios finos que ansiava
tocar de novo, assim como precisava desesperadamente de acariciar as suas
flores.Em tempos,entrara no jardim, roubara as flores e fugira para as amar num lugar seguro. Em tempos, os seus lábios tocaram os do homem amado num beijo também ele roubado com sabor a violetas e lírios do vale. Na ausência do toque suave das flores e da pele, revia imagens suas para acalmar a dor. Sentia-as com prazer e apertava-as junto ao coração, desejando as
flores e o homem amado que presos, cada um no seu jardim, quais espinhos ameaçadores, a feriam de saudade.
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01 abril, 2020
20 março, 2020
As flores
Roubava as flores do jardim, violetas e lírios-do-vale e fugia a correr. Roubava-lhes também o aroma e, assim, castigava as flores apoderando-se da sua essência.Quase conseguia ouvir o seu pranto e ver as cores a desmaiarem de desgosto. Colhia-as com muito cuidado e logo que encontrava um lugar seguro, depositava-as no colo. Demorava-se a olhá-las e acariciava-as suavemente com a ponta dos dedos. Depois, pegava em cada uma delas e absorvia-as longamente até que o seu perfume penetrasse nas narinas e tomasse conta do seu ser. Terminado aquele ritual olfativo e em estado de extâse, estrafegava as flores violentamente num abraço e assim deixava-se ficar deitada no musgo fresco do jardim até que o sono a levasse, apertando as cores e os aromas roubados das flores que tanto amava.
19 fevereiro, 2020
Assalto ao Pedro Nunes - Lisboa, anos 80
Aviso: Esta é uma história amoral, mas tudo aconteceu na mais perfeita inocência de uma juventude irrequieta.
Estávamos no snack do Migas a combinar os planos para a noite, porque as noites eram sempre poucas e tínhamos que as aproveitar todas e também porque era sábado e estávamos a bombar adrenalina.
O Puto lembrou-se "hoje há festa no Pedro Nunes" e eu disse "é só betinhos" . O pessoal do Pedro Nunes tinha a fama de betoso e era. No meu liceu também eram todos, menos eu, mas como não faziam festas a questão não se punha nesses termos. "Arroz Doce, bute aí, deixa-te de cenas, eu sei uma entrada secreta" e eu disse "então vamos" e fomos.
O Pedro Nunes ficava ali ao pé do Jardim da Estrela onde ainda fica e claro os gajos da associação à porta tiraram-nos a pinta de proto-punques-alucinados e cortaram-nos a entrada. O Puto começou logo ali a dar estrilho, "somos rapazes honrados, não nos vamos fazer às miúdas", o que por acaso era mentira, porque era sempre essa a intenção. Começaram a sair mais grunhos lá de dentro, uma segunda linha de defesa/ataque e pelo sim pelo não fomos andando.
É claro que eu disse logo, "então como é que é a treta da entrada secreta?" E ele respondeu "vamos ver dessa merda, disseram-me que é numa janela lá para trás", "então não sabes onde é", "não" e eu "Ok". O pior que podia acontecer era aparecerem a PSP, a GNR e os Bombeiros, mas que se lixe, as betinhas tinham um apelo interessante.
Demos a volta ao edifício a olhar para cima e nada e só à terceira vez reparámos numa janela ao nível do chão. Devia dar para a cave, tinha luz acesa e ouvia-se a música. Mas não se via nada lá para dentro.
"Fogo, deve ser aqui" disse o Puto e eu concordei. Com um empurrão abrimos uma das bandas da janela, mas a outra estava trancada e só por ali não dava para passar. Era um sítio estranho, via-se um corredor com várias portas. Estavam lá duas garinas bem curtidas e o Puto fez o choradinho para abrirem o outro lado da janela e nesta altura já lá estávamos os dois com a cabeça entalada e elas riram-se, o que é sempre meio caminho andado. Uma estava receosa, mas a outra avançou, abriu o raio da outra banda da janela e o Puto despencou por ali abaixo e eu caí-lhe nos costados. "Foda-se Arroz Doce", e eu "cala-te meu, olha as garinas".
Só então conseguimos ver o outro lado, que estava meio tapado por uma parede pequenita. Tinha espelhos e lavatórios e nesse mesmo instante saiu uma rapariga de uma das portas e começou aos berros "Ó socorro, estão aqui dois pervertidos". Pervertidos nós, que tínhamos acabado de perder a virgindade, enfim. Mas ela continuava, "Ó da guarda!" As garinas desapareceram e nós saímos e vimos cá fora na parede um boneco de uma menina de saias sentada num penico. Caraças tínhamos entrado pela casa de banho das miúdas.
Mas já estávamos no meio da pista a tocar guitarras a fingir e a abanar a carola e depois a dançar ska, que era um pé para a frente e outro para atrás, tipo os Specials. Entretanto os namorados ajuramentados das betas não estavam a achar piada e foram chamar os gajos da porta e no meio de uma confusão que só nos deixou mal vistos, eu ainda gritei "esta música é uma merda", e o Puto queria avançar, tinha vindo d'África e tinha a mania que era guerreiro. Tivemos sorte em não levar um enxerto, mas demos com os beiços na calçada.
As duas garinas da janela estavam cá fora encostadas ao gradeamento a fumar um cigarro e parece que à nossa espera. Eram mesmo baris, fomos fumar uma ao jardim e acabámos a noite no Jamaica a curtir bués.
Ele há males que vêm por bem.
17 fevereiro, 2020
Morfeu
O que será viver uma vida de sonho?
Será o tornar desejos realidade e fazê-los parte da nossa vida?
Será o descobrir que quando crescemos os sonhos mudam? Descobrir que temos tudo o que precisamos?
Ou será paralisia? Ver vultos e sombras, dúvidas que se aproximam no escuro no momento que nos sentimos mais seguros?
Um pesadelo acordado? O que acontece quando não conseguimos voltar a sonhar?
Vivemos em duas fases na vida:
Quando adormecemos para sonhar, e quando sonhamos em adormecer.
11 fevereiro, 2020
As conversas parvas
Gosto de conversas parvas entre amigos. São as melhores do mundo.
Não, não são aquelas de circunstância que se têm para preencher silêncios, remendar desconfortos ou para não ficarmos mal após séculos de ausência.
Essas não, não interessam. As conversas parvas são aquelas em que não nos preocupamos se é preciso termos juízo ou não, se temos idade para dizer isto ou para dizer aquilo.
São aquelas em que trocamos a idade por sorrisos, caretas e gargalhadas a explodir. São trocas de palavras confortáveis sem preocupação com a entoação, a sintaxe, a semântica e o politicamente correto.
São fáceis, prazerosas, sabem a fim de tarde, a sol, a ar fresco. São bolinhas de sabão leves e coloridas, aviões e barquinhos de papel.
São balões a subir pelo céu azul.
Sabem a imperial fresca, algodão doce, caramelos de fruta. Dentro da sua leveza e simplicidade são as mais sérias do mundo.
Pensando agora com seriedade, porque se diz que são parvas se não verdade não são? Não têm nada de desadequado ou de inconveniente, de tonto ou de desinteressante.
São felizes, simplesmente.
São festivais de interrogações . O que é que foi? O que é que foi o quê? Eu é que pergunto o que é que foi? Porque me perguntas isso? Sei lá, estás a olhar para mim… assim. Assim como? Estou a olhar para ti normalmente, porquê não posso? Podes, claro que podes. Também estás a olhar para mim. Pois estou. E então porque fazes essa pergunta? Não sei. (E seguem-se gargalhadas terapêuticas.)
São repetições de rábulas humorísticas , canções partilhadas a ver quem imita melhor o original (ou quem pior se aproxima do melhor!). São desenhos em guardanapos de papel, bonecada em toalhas de restaurante .
São brincadeiras de quem não tem vergonha, de quem não teme o cabelo em desalinho, a roupa amassada, o ridículo.
Há conversas parvas que nos salvam o dia e às vezes até a vida. É verdade é.
A conversa mais séria que tive foi uma dessas… parvas. Acabou num abraço e salvou-me a vida.
06 fevereiro, 2020
Confissão
É assim que vivo, um dia de cada vez, no incógnito, numa espécie de anonimato voluntário.
Evito interrogações, poupo-me a respostas, torturo-me com fantasmas e dúvidas.
Escolhi assim, sigo o meu caminho. Certa ou errada, é a minha escolha.
Perco ainda muito tempo a ter medo do que poderá acontecer amanhã, ainda sabendo que é uma preocupação estéril, vazia. É espontâneo, é natural, mas é tempo perdido. E o tempo é um tesouro, perder tempo é perder tudo. Paga-se caro o desperdício. Ainda agora abri os olhos e já é hora de os fechar de novo. O dia inteiro cabe numa conversa de café, nas páginas de um livro ou numa melodia. Cada vez mais depressa chega o fim. Enquanto entidade abstrata e intangível , é estranho o tempo, não fosse ele impossível de definir. Cada um sabe o que faz com ele. Ele sabe o que com cada um de nós faz.
Dói-me até dizer chega senti-lo a escapar-me por entre os dedos, ao perceber os sinais que me vai deixando de que tudo é efémero, de que tudo finda.
O tempo é como o amor, fodido. Pisca-nos o olho, seduz-nos, atordoa-nos, engole-nos , tritura-nos e rouba-nos a vida.
É uma flor, é um espinho.
Ainda há quem diga que devemos dar tempo ao tempo. Tretas! O tempo não nos pergunta nada, dá-nos o que bem entende. E nós bem mandados, aceitamos sem condições. Entre o primeiro choro e o último suspiro, existimos.
Cada dia que passa é uma dádiva. Cada dia que passa é uma morte. No meio disto tudo, acontece a alegria da surpresa, do inesperado, o tempero da vida, o antidoto para a disrupção.
Tenho pavor do obsoleto, do ultrapassado, de não fazer mais parte…do vazio em geral.
Alimento-me de brisa, de sol, de vozes e de movimento.
Dependo de presenças, de barulho e de palavras. Muito. Muito mesmo.
Perco-me com muita facilidade, demoro a encontrar a saída.
Falo mal do tempo, mas agarro-me a ele com todas as forças. Desconfio do amor, no entanto não equaciono não o ter comigo.
Conforta-me o calor do raio de sol que me ilumina, apazigua-me a doçura de um eco ao longe.
Revigoram-me os sorrisos pueris, os olhos curiosos, a ingenuidade de palmo e meio, a irreverência dos heróis de capa e espada, a rebeldia em processo.
Retempera-me o ritmo pelo corpo adentro, os movimentos desenfreados, a vida a pulsar, a catarse.
Doem as ausências definitivas,as prolongadas, as curtas. Doem-me as ausências, ponto.
Aterroriza-me ainda a morte. Estou a aprender a pronunciar-lhe o nome, a falar sobre ela, a encará-la. Têm-me ensinado.
Preciso do choque frontal para perceber as coisas com clareza, para alterar, para reaver o equilíbrio, seguir em frente.
Amo incondicionalmente, do ódio não sei.
Sou um paradoxo, uma contradição...aparente simplicidade num novelo de complexidade.
E mais não digo.
Contei-lhe tudo à espera de uma resposta, mas ela limitou-se a olhar para mim.
26 janeiro, 2020
Ando com um anjo às costas (para Terry Jones)
Ando com um anjo às costas. Levei tempo a perceber porquê, na verdade foi uma odisseia, mas as coisas quer nos façam sentido quer não, têm sempre uma razão. Começou assim:
A primeira vez que me dei conta foi num dia normal. Uns rapazitos riam-se atrás de mim e percebi que o tema da risota era eu. Virei-me. Um disse "até tem cara de tótó." Caraças, o raio do puto! Corri e apanhei-o pelo cocuruto enquanto os outros debandavam. "Deixe-me ir.", "O que se passa pá?", "Você anda com uma mochila de anjinho, se fosse lá na escola andava sempre a levar calduços.", "O que é que estás para aí a dizer?" Estiquei o braço para trás e senti uma cabeleira. Assustei-me. "Tira uma foto, rápido." O miúdo pegou-me no telemóvel e tirou a foto e fugiu a gritar "é verdadeiro e fui eu que gamei a bicicleta do Migas!".
Fiquei nem sei bem... Lá estava na foto, costas com costas, um anjinho de asinhas e bracinhos abertos, com um cabelinho aos caracolinhos, umas vestezinhas muito branquinhas e um sorrisinho divinalzinho, além das bochechinhas rechonchudinhas. Tinha uma harpazinha a tiracolo. De onde viera? Andaria a chover anjos? Não se via mais nenhum por ali.
Entrei numa pastelaria para um café e pastel de nata. Recostei-me na cadeira e ouvi um guincho. Cheguei-me à frente para não calcar o anjo. O empregado disse "devia tomar banho. O que deseja senhor?" E eu "hã?" E ele "o que deseja senhor?" Não valia a pena estar com coisas e pedi "um café e nata sffv. Quanto é?", "0,60€ e não o vou registar na caixa porque sempre que posso roubo nos impostos.".
Olhei-o estranhamente e saí. "Tem um anjo às costas, é bonito mas já não é Natal." Outro idiota. Fui para casa e tentei perceber o que se passava, mas nada fazia sentido. Perguntei "ó anjo, o que fazes aí atrás?" Não obtive resposta ou então obtive mas não estava sintonizado. Estava cansado. Deitei-me de lado para não esmagar o anjo e de vez em quando acordava com um zunido, era ele a avisar que o estava a moer. Levantei-me e gritei para as costas "diz-me o que queres!" Néstes. Mal sabia o que ainda me esperava.
Fui trabalhar. O patrão disse "está com uma cara de merda. O cliente está a chegar, apagou os quilómetros ao carro?", "Ainda não", "Então despache-se." Passados trinta segundos chamou-me "ó Miranda que se passa, acordou mal da cabeça? Você tem uma coisa nas costas.", "Sim é um anjo.", "Um anjo? Você está-me a gozar?", "Não apareceu-me ontem.", "Chegue cá. Pois é um anjo com penas e tudo." Ouvi um grrrr. "Olha e não tem sexo, é mesmo um anjo." O gajo levantara-lhe as vestes. "Vá para casa e trate-se homem, não o quero assim a atender clientes, bem sei que já o podia ter aumentado mas sou viciado no jogo."
Rilhei os dentes e saí. Bem, fui ao médico de família. "O que o trás por cá, seu enfezado, a micose do costume?" Comecei a não dar ouvidos aos insultos, para quê? "Não doutor, tenho aqui uma coisa nas costas.", "Vire-se sffv! O senhor tem um anjo nas costas.", "Sim eu sei.", "E em que posso ajudá-lo?" Fiquei a olhar para ele. "Não pode fazer nada?", "Sobre o quê?", "Sobre o anjo.", "É bonito, incomoda-o?", "Nem por isso, só tenho que ter atenção quando me encosto ou durmo.", "Então e da micose, anda bem?", "Bem, mas não vai fazer nada sobre o anjo?", "Tenho que consultar os manuais, mas tome um benuron de manhã e outro à noite, que se não fizer bem também não faz mal. Parabéns, é a primeira pessoa que vejo com um anjo às costas e olhe, gosto de tocar às campainhas e fugir."
Pensei que devia estar a sonhar, mas não, na rua estava fresco. Abanei-me mas o anjo não caiu e começou a cantarolar uma música dos anos 20. As pessoas passavam por mim e ouviam a cantarolice. Ouvi umas senhoras dizer "olha deve ser ventríloquo", "mas isso já nem se usa", " usa, usa, que estive no outro dia com um que me gemia numa orelha e eu ouvia na outra." Depois viam o anjo e pensavam que eu era pedófilo ou do circo. Outras pensavam que era blasfémia.
Chamaram um polícia que ia a passar e que perguntou "que anda você a fazer com uma criança pendurada as costas?" Eu estava já meio passado. "É um anjo e não me larga.", "Isso é o que vamos a ver" disse a autoridade. Puxou-o pelas asas, mas o anjo não desgrudava. Pôs a patorra no meu rabo a fazer de alavanca e com as mãos puxou o anjo pelo pescoço. Baralhou-me a coluna, mas nada. O anjo ria-se. "Ele não o larga. Hoje mandei parar um carro porque me apeteceu e fiquei com o dinheiro da multa." Foi-se e eu abestalhado sem acreditar que aquilo se estava a passar.
Entrei num restaurante, estava com fome. O dono ao balcão disse "você tem uma penca do caraças" e começou a chorar quando viu o anjo "eu sou um pecador, roubei uma borracha quando era pequeno e infernizo a vida aos meus empregados." O empregado disse "eu como bifes às escondidas" e agarrou-se ao patrão e ainda outro disse "eu cuspo-lhe na sopa e engano a minha mulher." Era só baba e ranho. Saí a correr e com mais fome.
Voltei a esquina e vi um letreiro, Dr. Armando Pinho, psicólogo. Pensei que devia estar maluco por isso entrei. A recepcionista disse "o Dr. não está a fazer nada é como você, passa o dia a ver porno, mas vou ver se o atende." Passados dez segundos voltou "Pode entrar! Aí que anjo bonito que tem nas costas. É de peluche? Sabe, roubo comprimidos ao doutor para o meu filho que é tóxico independente." Entrei na sala e o psicólogo mandou-me sentar. Era selecto, sofás de cabedal, uma estante cheia de livros que dava a volta à sala e uma mesa de mogno. Fumava cachimbo. "O que o trás por cá, pila de amendoim?" Pensei, insulto bem adequado de um psicólogo. "Tenho um anjo nas costas." Olhou-me e perguntou "e o que sente relativamente a isso?", "Sinto que não é normal.", "Porque sente que não é normal?", "Porque tenho um anjo agarrado às costas." Levantou-se e andou pela sala meditativo. "Parece grave, a sua mãe não o amamentou em bebé pois não, o que sente sobre isso?" O anjo fazia-me cócegas. "O que tem uma coisa a ver com a outra?", "E o que acha sobre isso?", "Não acho nada, é uma parvoíce.", "Já pensou que era altura de o aceitar?", "O anjo?", "Não, a sua mãe!" Saí dali de gatas e ele gritou "sabe, os sofás são de napa e os livros são só lombadas de cartão e também não gosto de caracóis, como mas é um frete." Eu estava a ficar aluado. Paguei e a senhora disse "também tenho um em casa.", "Um quê?", "Um anjo pendurado no meio das relíquias." Os meus olhos estavam raiados e ela ficou receosa "não é a mesma coisa, sei bem. Às vezes minto, aprendi com o doutor."
Desci as escadas e resolvi ir a algum sítio pensar. Apanhei um táxi. "Esse cabelo deve estar cheio de piolhos! Para onde vamos? Para onde vamos? Olhe que não pode fumar e ponha o cinto. Não pago multas nenhumas.", "Leve-me ao Príncipe Real." Não podia encostar-me por causa do anjo e o taxista olhava-me com desconfiança. Saí e ele disse "costumo roubar aos estrangeiros e às vezes aos portugueses, é só merdas de viagens" e quando segui gritou "tem um anjo nas costas". Virei-me e benzia-se.
Isto deu-me uma ideia que devia ter sido a primeira de todas o que só demonstrava que a padeira tinha razão quando disse que eu era um idiota antes de me vender três carcaças e confessar que às vezes misturava as farinhas do pão novo e do antigo e de começar a fungar quando viu o anjo nas minhas costas. Em casa pus manteiga no pão, bebi um copo de leite e tomei um benuron, mal não fazia.
Saí. No elevador entrou uma vizinha. "Nunca lhe disse mas você com essa barriga parece um bidon, bom dia vizinho.", "Bom dia vizinha.", "O que tem nas costas?" O anjo estava calcado na parede, tinha-me esquecido dele. Mostrei-lhe. "Mas você tem um anjo às costas!", "Pois é.", "Onde o arranjou?", "Acho que me escolheu." E veio a conversa do costume "vamos lá acima que não está ninguém em casa, só a senhora dos rissóis, mas é surda e eu vou fazendo os meus engates, espero que não seja pecado." Interessante, foi a primeira vez que ouvi a palavra, pecado.
Mas calhava bem porque decidira ir à igreja falar com o padre, que devia ter sido a primeira coisa a fazer. Entretanto, os comentários na rua sucediam-se "olha tem um anjo às costas, é ladrão, deve-o ter roubado nalgum poial" etc.. E o anjo que não dizia nada para me ajudar. Mais à frente uma voz berrava "arrependam-se pecadores, o dia do Juízo Final está perto!" e alguém perguntou "está a falar do quê?" e o outro mais calmo "do fim do mundo, vem aí o fim do mundo", "OK, e ainda dá tempo para ir beber um café?", "Acho que sim.", "Então até já." O homem recomeçou com a história do fim do mundo. Eu passara despercebido, mas quando viu o anjo gritou "sou viciado em sexo!"
Entretanto cheguei à igreja. O padre estava sentado nas escadas a fumar um cigarro. "Você deve andar metido na droga" disse antes de perguntar "o que o trás à Casa de Deus meu irmão?", "Preciso de si senhor padre, tenho um anjo às costas.", "Vamos já ver isso meu irmão." Entrámos e sentámo-nos no banco corrido. A Virgem, o Menino e uma variedade de santos olhavam-nos. "Deixe ver. Pois é verdade, tem um anjo às costas, mas olhe este não reconheço, deve ser um novo.", "E pode-me ajudar senhor padre?", "Em quê?" Irra já parecia o médico e o psicólogo. "Com o anjo que tenho às costas!", "À sim, já vi, você foi escolhido, para quê, não sei bem, é o primeiro caso que vejo." Eu estava baralhado e o anjo tocava a harpa. "Quer-se confessar?", "Está bem." Depois de contar a história da minha vida reparei que ele dormitava. Bati na madeira e ele deu um salto. "Muito bem, não lhe vou dar penitências, o anjo saberá melhor o que fazer consigo, mas acredite, como já disse foi escolhido.", "Para quê senhor padre?", "Olhe não sei bem, mas vá passando por cá. Tem telemóvel? Vou ligar ao Vaticano, pode ser que eles saibam e depois ligo-lhe, mas têm tanto que fazer, não é como eu aqui desterrado, isto é uma seca se não fosse o vinho da sacristia e a sra. Alberta que vem cá limpar as teias de aranha." Despediu-me com duas palmadas nas costas, provavelmente na testa do anjo, mas talvez fossem amigos agora.
Saí da igreja e sentei-me num banco de jardim. Que fazer da vida? E o anjo que continuava calado. Um indigente veio pedir um cigarro e sentou-se ao meu lado. "Tem um anjo às costas.", "Eu sei, só não sei o que fazer.", "Também já tive um." Olhei para o homem, não acreditava no que tinha ouvido. "A sério?", "Acha que ia brincar com uma coisa destas!", "E o que fez? Ajude-me por favor, estou perdido e desesperado." O anjo começou a cantarolar. "Olhe, deixe andar, há coisas na vida que ninguém consegue explicar. Eu andei obcecado e acabei por largar tudo, e agora estou mais feliz que nunca e não dou ouvidos a ninguém." Pensei se haveria ali alguma mensagem sublimar. "E o anjo?", "Um dia destes vai-se embora, veio só matar saudades.", "Do quê, das minhas costas?", "Não, das dele!"
Dei-lhe o maço de tabaco, agradeci e levantei-me.
Saíra-me um peso das costas.
22 janeiro, 2020
Brincar com o fogo
Queimou-se tudo, não restou nada que se aproveitasse. Teria sido do calor intenso ou do tempo decorrido? A suspeita veio à tona, mas não restaram dúvidas.
O desastre iniciara-se algumas semanas antes, quando o José, apesar da sua frustrante timidez, arranjara coragem de puxar a Maria para um vão de escada e beijá-la. Foi o momento em que se ateou a ocorrência.
Mais decidida do que ele e liberta dos pruridos da obrigatória iniciativa masculina e também por estar cansada daquela relação tão promissora se estar a esvair no tempo, a Maria agarrou José, abraçou-o com fervor e deixou-se levar, afogueada pelo encanto dos sentidos.
A partir desse dia eram unha com dedo. Juntavam-se em qualquer oportunidade, antes, durante e após os estudos e também ao fim de semana. Afastados, não se passava um minuto em que não pensassem um no outro e quando juntos repetiam-se esses pensamentos coloridos e ardentes, onde a cinza e o negro não encontravam lugar.
Começaram a faltar à escola e os impulsos juvenis flamejavam entre jardins e lugares incertos. Sabendo do caso, os pais dela, um casal de espírito aberto, abriram-lhes as portas para o namoro. Lembravam-se bem das ardências da juventude e tinham reparado que a filha acalmara com aquele namoro intenso mas sensato. Do outro lado os pais dele notaram que a chama do rapaz espevitara e deram também mais liberdade à ligação.
Ela repetia 'amo-te' e ele respondia 'por ti vou ao inferno e volto'. Era retórica, frase de apaixonado e ela gostava. Naquela idade a paixão era lume e como disse o Camões "amor é fogo que arde sem se ver".
Naquele fim de semana os pais da Maria foram para fora e fizeram o voto de confiança de deixar a rapariga sozinha em casa, pedindo para se comportar e atender o telefone sempre que ligassem. Não deixaram de falar do José e o rapaz sem saber da conversa sentiu as orelhas em brasa.
Mas rapidamente percebeu o que se passava quando a Maria, a arder de paixão, lhe ligou naquela sexta à tarde e fogosa e afogueada lhe disse 'anda ter comigo a minha casa, vou-te tratar como um homem e serei tua. Além disso terás uma surpresa que te mostrará como o meu amor se consome por ti'.
José correu desaustinado. Ela abriu a porta e com as faces coradas agarrou-se ao seu pescoço e com um salto abraçou-o entre as pernas. A voz entre-cortada sussurrou-lhe ao ouvido 'os meus pais não estão no fim de semana' e continuou 'estou em brasa José, ardo por ti'. Coisas que ouvira na Internet. O rapaz sentia o mesmo, parecia um vulcão prestes a explodir.
Tropeçaram emaranhados e ferventes caíram no sofá e arrancaram a roupa um ao outro sofregamente. Os beijos e os sentires da pele repetiam-se e os seus membros do amor faziam faísca quando se tocavam e logo ali se consumiu o primeiro desejo. Rebolaram pelo chão, sem se largarem e o suar escorria vapor. Chegaram à cama e amaram-se desenfreados e a agitação era tal que num oceano de lavas incandescentes um pontão abria e teimava em mergulhar numa fenda alagada, onda após onda. Era bonito.
Finalmente consolados, ela reclinara-se no peito e brincava com o umbigo dele, que lentamente acariciava e sentia o calor das suas costas. E foi então que tudo descambou e o inferno instalou-se no apartamento.
Ele foi o primeiro a sentir, 'não te cheira a fumo' e ela 'sim um pouco, o que será?' E ele 'não sei, não deve ser nada, senão ouviam-se os bombeiros'. Inocência. Fecharam os olhos e aconchegaram-se, a humidade descia pelos seus peitos e eriçava-lhes os mamilos.
Ela abriu os olhos e tornou 'parece que está mesmo fumo', e ele, 'sim, cheira a queimado, é melhor ir ver o que é'. Ia a pôr o pé no chão, mas ela ultrapassou-o num salto a gritar 'ai a surpresa'. Correu para a cozinha apalpando as paredes entre a fumaça, abriu o forno e do arroz de pato restavam apenas uns torresmos em brasa. Teve que ser de exaustor e extintor.
O amor não se apagou e na verdade a investigação como se previa foi curta e levou a sorrisos e risos. A culpa fora do calor e do tempo, mas do calor do forno dela e do tempo que o facho dele o mantivera aceso.
Queimou-se o pato, foram ao chinês.
14 janeiro, 2020
Punkitos no varão - Londres, anos 80, à tardinha
Aquilo era um varão onde toda a gente se agarrava para subir ou descer consoante as suas circunstâncias. Eu e ela seguíamos do trabalho para casa num double decker, aqueles autocarros vermelhos de dois pisos que não tinham portas. Subimos ao andar de cima por umas escadas tipo caracol que também tinham um varão ao meio. Gostávamos de ir ali a apreciar a vista.
Um pica corria os corredores com uma máquina redonda que parecia um barrilzinho com aguardente, daqueles que levavam os são bernardo para salvar gajos da neve, mas donde inteligentemente saíam uns papelinhos que eram os bilhetes e ele fazia os trocos e metia os penis no bolso.
Uma paragem à frente subiu um grupo de punks e punkitas, dos normais, não daqueles de moicanas todas às cores para cobrar o retrato ou vender balões lá no Hyde Park. Os putos tinham pinta, despenteados, com blusões de cabedal e meio esfarrapados. Deviam ser squatters e estavam a parvalhar, mas na boa. Tinham aquela pele branquinha que o meu amigo Li dizia, cara que inveja, parece que estão sempre lavadinhos. Pelo sim pelo não, o pica não apareceu.
Nós observávamos a cena. Era bom que não viessem embirrar que esta gente tinha a mania de embirrar com qualquer coisa. Só para verem, um dia à saída do metro atirei uma beata para o lado, assim como se faz no jogo do berlinde, e foi logo cair na bota de um skinhead, que fez birra mais os outros nazis que estavam com ele e vieram para me matar aos berros de you fucking spanish, os gajos sabiam como ofender. O Boris avançou e falou com o gajo da beata e bazamos sem estrilho nem sangue. Fogo, o Boris era o maior. Disse-me ainda, falas sempre só com um, sempre o mesmo. Se for o gajo errado you're fucked, se for algum que não queira levar nos cornos you're safe. Pelos vistos aquele era como eu, não queria levar nos cornos salvo seja. Tava sempre a aprender.
Lá íamos no bus. A nossa paragem era junto a um 7-Eleven, que eram umas lojas que estavam abertas sempre ou quase e pareciam um aquário, tinham umas vidraças enormes a toda a volta.
Isto que vou contar passou-se em dez segundos.
Varão após varão descemos mesmo em frente à montra e um punkito saiu lá de dentro a correr e mandou uma pedra que estava ali à mão à vidraça que se partiu com um grande estrondo em mil vidrinhos e o rapaz entrou a saltar no autocarro e subiu as escadas três a três lá para cima e os empregados do 7-Eleven a barafustar a subir atrás dele e logo a descer, pareciam uns bombeiros agarrados aos varões, com o grupo dos doidos que lá estavam atrás deles e a fecharem-se dentro da loja, o que era parvo porque a vidraça mesmo ao lado estava toda escavacada, e os outros cá fora a fazerem desordem lá para dentro e aos pontapés na porta, o que era parvo porque a vidraça mesmo ao lado estava toda escavacada, e a sirene da polícia ao longe e o autocarro a bazar acelerado e os putos a correr atrás e alguns ainda se fizeram ao varão e apanharam o autocarro e os que não conseguiram fugiram pelas ruas e a polícia a chegar e a interrogar o dono da loja porque os empregados tinham desaparecido, deviam ser todos ilegais, e o dono a dizer que se não fosse a mulher e os filhos tinha-os matado a todos e estou a inventar porque o homem falava hindu ou isso e eu e ela encostados à paragem porque ver uma cena daquelas cansa a adrenalina e no fundo o que ali se passou não interessava a ninguém e seguimos caminho.
Eram tempos selvagens.
06 janeiro, 2020
Como será o mar sem os meus olhos
Ando destruído num inverno sem vento de ranger arrastado. A penumbra embala o dia como um frasco de mel escorre líquido virginal por uma colina sem tom. O verde do meu pecado armadilhou-se e então, assim penetra fundo no meu olhar seguindo a fenda do Olimpo. Naufrago nas nuvens corretas. Incenso. Onda após onda, queimo corações como um fio de navalha.
Sem fim, que existirá se não penso na fome traiçoeira do peixe engalanado. Serão só escamas de prazer? Deitada ao meu lado vi-te sofrer, mas sou eu que te consumo no meu dia de dobrar de espinha em equilíbrio numa foice que evitou a morte. Frugal.
Antes o ramo que flutua sorridente entre os dentes sem cor do que o ser que mergulha pés em sal e água. Sigo o caminho que arde de novo nas unhas retorcidas do fogo baço do céu em flor. Então, amemos-nos sem fim, porque na vida cegam gaivotas de sono sem se despedirem do astro.
Sem querer a fome do medo que junta as faces coradas e deixa entreabertos os lábios vermelhos do teu sangue, exangue, parto para o fim, para a alcateia que uiva na espuma.
Frase do título: O Anjo Mudo, Al Berto
30 dezembro, 2019
Ano Novo, vida nova OK
Olha o estouro, será que já estão a abrir o champanhe? Era falso alarme, ainda faltavam uns minutos para o final do ano. O estouro foi um mistério logo esquecido. A sala parecia uma carga de índios, o andar fora alugado só para aquilo e era longe, nos Algarves. A festa começara na véspera da véspera e àquela hora já estavam todos avariados. O Doc levara uma aparelhagem portátil e a música era pesada, durante o dia rock e à noite electrónica e pimba a partir a cabeça nossa e dos vizinhos.
Faltavam poucos minutos para abraçar o Ano Novo. A meio da sala estava uma mesa larga cheia de doces, bolos e alguns croquetes que tinham sobrado e garrafas de bebida a meio ou vazias, até uma de água ainda por abrir. Os únicos copos limpos eram os cálices do champanhe, embora um já tivesse batom, vai-se lá saber porquê.
Faltavam poucos minutos para abraçar o Ano Novo. A meio da sala estava uma mesa larga cheia de doces, bolos e alguns croquetes que tinham sobrado e garrafas de bebida a meio ou vazias, até uma de água ainda por abrir. Os únicos copos limpos eram os cálices do champanhe, embora um já tivesse batom, vai-se lá saber porquê.
A Maria fazia montinhos de passas. Também era boa nos cocktails, fizera uns mojitos que tinham tudo, limão, açúcar, o indispensável hortelã e rum do amarelo que era o melhor. Só faltara a gasosa e aquilo felizmente caiu no molhado porque o pessoal tinha acabado a janta, mas deu um andamento do caraças para aguentar a noite.
O Ginjas dançava abraçado a uma garrafa de brandy e os outros saltavam e gritavam e empurravam-se, e iam à mesa petiscar e beber quase esquecidos do que estavam à espera.
Não havia televisão, cada um estava a contar o tempo pelos seus relógios. Tão bem o contaram que se festejou a passagem do ano três vezes, com duas contagens decrescentes, a segunda por teima de bêbados, porque parece que há sempre relógios mais certos que os outros e a terceira porque ao longe se ouviu uma grande algazarra. Os abraços, beijinhos e votos repetiam-se e depois foi o pessoal todo para a varanda bater com tachos e o que havia. De repente lembraram-se do champanhe e voltaram a correr.
O Quico agarrava a garrafa e a Maria distribuía as passas e os cálices. Vá lá abre essa cena, começaram a gritar. Com pressa rasgou a cobertura prateada, depois desapertou o arame e muito lentamente, com os dois polegares foi empurrando a rolha para fora do gargalo para o champanhe não transbordar, mas a meio, quando sentiu a rolha a fugir, abanou aquilo e ouviu-se o estouro e o líquido jorrou alegremente. Aproximaram-se todos de cálice estendido e ao mesmo tempo ouviu-se uma explosão. O candeeiro do tecto, um candelabro de fancaria tristemente baleado pela rolha, caíra em cima da mesa e escavacara tudo. Safaram-se as bebidas que estavam numa ponta e uma travessa de arroz doce que estava na outra ponta.
O Quico riu-se e fez-se o brinde, viva o Ano Novo.
20 dezembro, 2019
Verde, código, verde
Boa tarde, precisa de sacos? Tem cartão da
loja? Cupões de desconto? Vai pagar com
cartão? Já pode, verde, código, verde. Quer fatura com contribuinte? É o que
está associado ao cartão? Não quer levar a nossa revista? Ou uma caixinha de
bombons? Faz coleção das vinhetas para os copos? Já tem a caderneta para os colar? Isto hoje está um inferno,
ainda nem almocei e estou cá com uma dor de cabeça!
Boa tarde, sim, tenho cartão da loja, não tenho
talões de desconto e vou pagar com cartão. A fatura é com o contribuinte que
está associado ao cartão. Não, não quero a vossa revista, tenho muitas em casa e nem
lhes toco. Bonbons também não quero, já estou servida, obrigada. Faço coleção das
vinhetas sim, já estou a acabar a caderneta. De facto sim, está um inferno
quero ver se não volto cá tão cedo. Eu também ainda não almocei, mas nem fome
tenho. Se quiser um comprimido, tenho aqui.
Obrigada, vou aceitar.
Aqui está, fique com dois.
Muito obrigada, Feliz Natal e Boas Festas.
Igualmente para si e as melhoras!
Agora e sempre importa não descurarmos o contacto humano e a comunicação. Seja de que forma for!
Boas festas!
11 dezembro, 2019
A preguiça
A preguiça… a mácula do não faz nenhum. Fica para amanhã ou depois. Agora não que ainda há muito tempo. Inércia é a palavra de ordem. Procrastinação… Ó delícia! Ó prazer!
Nada disso! Há que ser sério porque o trabalho dignifica o Homem e quem quer comer, que transpire. E mais, quem não trabalha, torna-se apático e pode dar em maluco e isso é uma carga de trabalhos!! Trabalho! Trabalho! Trabalho! O antídoto para a preguiça. E isso já não é de hoje, essa ideia já vem da Grécia antiga. Vendo todos aqueles gregos gordos deitados de volta das mesas dos intermináveis banquetes, Esopo teve uma ideia (quase) genial ao escrever A cigarra e a formiga, como que a querer dizer “ Não mexam esses rabos gordos daí não, que depois choram a quererem ser uns Apolos” mas também “ Deixem-se estar aí a enfardar seus alarves, quando não houver mais nada que comer, toquem a lira e encham a barriga de doces melodias.” Mas adiantou alguma coisa? Nada! Sim, porque os gregos eram sábios, filósofos de primeira e sempre quiseram ser visionários e estar à frente (PRO) do amanhã (CRASTINUS). Por isso, quem somos nós para pôr em causa esta gente e querer transformar todos em laboriosas formigas?
Cigarra, continuar a cantar e a tocar a tua lira porque o trabalho mais duro do mundo é não fazer nada!
Imagem: A preguiça, Hieronymus Bosch
Início dos Tempos: Isso não, é pecado
Pecado mortal 1/7: O orgulho
Pecado mortal 1/7: O orgulho
09 dezembro, 2019
Compras de Natal. Corta e siga o filme
O Natal vinha aí acelerado, ou era véspera ou era um dia antes da véspera, para a história tanto faz. Tínhamos que comprar aquelas coisas que faltava comprar, no nosso caso tudo ou quase, só tínhamos uns ferrero em casa, mas eram do ano passado, já deviam estar escangalhados e estavam esquecidos dentro de uma almofada não sei porquê, e cheirava-me a chocolate todas as noites e eu pensava que era a minha anja da guarda e um dia enganei-me na almofada e acordei com uma dor de pescoço do caraças.
Bem, faltava-nos sabonetes, porque ir bem cheiroso para as festas de família era básico e então Natal caraças fogo, e chouriças e queijos e vinhaça, que já havia quem levasse pasteis de bacalhau, bolo rei e arroz doce, e eram as prendas, um carro e uma boneca para os filhos dos primos, uns putos ranhosos e chatos que limpavam as mãos aos sofás e vinham para as minhas calças e segurava-os com a mão na testa e eles depois corriam pela casa a fazer de camião dos bombeiros. Aturava-os porque a mãe sorria e era uma alegria na festa, não vou dizer porquê, imaginem, é Natal, imaginem à vontade, que se lixe. Por mim tinha levado uns xanax aos putos, mas ainda não fabricavam.
Havia ainda só um ou dois hipermercados e era um de Alfragide, acho que era Pão de Açucar que é um nome parvo, imaginem um pão de açúcar, mais valia chamar arrufada ou bola de berlim, mas assim se calhar tinham que pagar direitos de patentes e assim não, mas não deixa de ser uma porcaria de nome, por isso foi-se. Continente e Jumbo ainda lá vai, mas Pingo Doce é o máximo, faz-me lembrar doces de ovos e a mercearia do Sr. Manuel que nesta época só vendia bacalhau ás postas e Vinho do Porto martelado, mas do bom.
Toda a gente ia ali e era meio dia. Andámos uma hora para estacionar, ao sol. Imaginem sol no Natal, o Menino Jesus estava contra nós. Também só vi uma vez neve nesta terra e foi uns mijinhos que aquilo não era nada, uma lamazita, preferi ver uma vez um granizo, que aquilo sim, até dava para fazer gelados daqueles d'água, mas também andava tudo constipado e aquilo derreteu e ninguém aproveitou nada.
Não havia carrinhos à entrada, só gente e mais gente e estivemos à espera que alguém largasse um e depois foi tipo uma corrida, a parceira disse vai Arroz Doce, apanha. E fui e apanhei e depois fugi, porque veio um matulão atrás de mim que devia saber karaté, mas tropeçou nela e lixou-se e eu entretanto já tinha passado pelo meio da multidão enfurecida.
Atenção, aquilo ainda não era hiper ou essas porras das grandezas, era só super, isto era uma tristeza de terra banhada pelo sol e praia, quem me dera já o verão, e estava cheio de gente e de carrinhos, mas lá íamos andando com muita calma a empurrar o nosso. Virámos uma quina e entrámos no corredor central e pensámos vai-se andando, ela vai buscar as tretas e comida e eu a bebida e fica sempre um no carro, aquelas coisas de casais coordenados que parece que têm antenas como as abelhinhas e os zangões. O corredor estava apinhado e fomos e ao fim de dez metros parámos o carrinho e toda a gente parou. Tudo parado, tudo travado.
Bolas era um super-engarrafamento. Só vi um igual na última noite da Expo, que ninguém punha os pés no chão, o pessoal era uma mole humana que se mexia por inércia. Estas palavras aprendi nas legendas duns desenhos animados que passavam quando era puto, com um velho de barbas brancas, que explicava o mundo e não sei se aquilo era francês, mas que sabiam muita coisa sabiam, agora são os ingleses e os americas que sabem, só não sabem encontrar a saída para o buraco em que se meteram e vêm para aqui beber jolas e vinho tinto para esquecer.
Ninguém andava. Tudo parvo a controlar os outros ou a assobiar. Um maluco começou com com licença, com licença e ficou tudo a olhar para ele como se fosse maluco, então aquilo era carro encostado a carro e pessoas já dentro dos carros e uns abanavam uma bandeira de Portugal, como se estivessem perdidos no Oceano e nós ali à meia hora a olhar um para o outro e eu disse isto está uma merda não anda e ela disse vamos bazar vimos amanhã e eu disse que sim e deixámos o carrinho lá no meio e tinha no bolso uma campainha de bicicleta e lá conseguimos saltar por cima das caixas e sair e estava a chover. É claro que os putos levaram com os chocolates e agora já tão grandes, façam-se à vida.
Escrevi isto para que vos sirva de exemplo para não deixarem as coisas para a última, que eu aprendi com a idade e já combinei comprar as coisas no dia 22, que até dá jeito porque é domingo, e vou ao Colombo pela tardinha, com calma e faço as minhas compras. Quem vos avisa amigo é.
30 novembro, 2019
Elegia do medo
O medo vai subindo a escada degrau a degrau. Lento. Tem tempo.
Aumentam os batimentos cardíacos. Acelera a respiração. Suam
as mãos.
Do estado de alerta caminha para o sobressalto, experimenta o
temor, a ansiedade. Conhece-se o sabor do terror. Amargo de boca.
A folha branca na ânsia de ser desflorada permanece intacta.
Nada se move em cima dela.
A febre vai subindo, toma conta do corpo.
As sílabas cativas no arrepio gélido da espinha.
O terror que as palavras se tornem gastas… obsoletas…
enjauladas.
O medo que a língua seja travada, a voz rouca… calada, as
mãos sem vida.
Falta de ar…Sufoco. Pânico.
O esquecimento...a ruptura.
Receio de não saber construir enquanto outros manejam o
verbo com mestria e eloquência.
...
Nem o ar fresco da noite desperta os sentidos. Tudo se desvanece sob o manto negro de pontos luminosos.
O grito insistente de uma gaivota parece anunciar uma
tempestade.
As mãos tremem.
O medo continua a sua odisseia.Lento.
Tem tempo.
os poemas adormeceram no desassossego da idade.
fulguram na perturbação de um tempo cada dia mais
curto e, por vezes, ouço-os no transe da noite. assolam-me
as imagens, rasgam-me as metáforas insidiosas, porcas...e
nada escrevo.
o regresso à escrita terminou. a vida toda fodid@ – e
a alma esburacada por uma agonia tamanho deste mar.
a dor de todas as ruas vazias.
Al Berto, Horto de incêndio
28 novembro, 2019
A ira
Intenso e descontrolado sentimento de raiva, a ira é sem dúvida o pecado do conflito. Forte desejo de exteriorizar a insatisfação, a mágoa ou outras contrariedades é a mácula da erupção explosiva. Para os mais contidos e diplomatas uma erupção palavrosa mais ou menos pejorativa, para as gentes mais impulsivas, de pavio curto e com o diabo no corpo, o verbo poderá vir acompanhado de algumas manifestações de confronto físico, vulgo porrada. Quem nunca experimentou o sentimento da explosão que atire a primeira pedra (pensando bem, é melhor não para não dar mais intensidade à coisa e não incitar à violência!). Afinal, quem não sente não é filho de boa gente!
Por isso, em pleno século XXI, era da velocidade e do stress esmagador, não guardemos nada cá dentro e libertemos as más energias porque como diz o ditado “Depois da tempestade, vem a bonança”. Sem dúvida, uma excelente terapia para as novas doenças do novo milénio.
Imagem: La colère divine, Rembrandt
Início dos Tempos: Isso não, é pecado
Pecado mortal 1/7: O orgulho
Pecado mortal 1/7: O orgulho
25 novembro, 2019
Coisas de gente que escreve...
Embora haja sempre tanto para dizer,nem sempre a Musa se digna a brindar-nos com a sua visita.Ainda assim,é importante dar voz às palavras mesmo sendo pelas mãos de outros...
Esqueço-me de tudo, por isso escrevo, longe do terror ao sismo inesperado das estrelas,
escrevo com a certeza de que tudo o que escrevo se apagará do papel no momento da
minha morte (…) definha-se texto a texto, e nunca se consegue escrever o livro desejado. Morre-se
com uma overdose de palavras, e nunca se escreve a não ser que se esteja viciado.
morre-se, quando já não é necessário escrever seja o que for, mas o vício de escrever
é ainda tão forte que o facto de já não escrever nos mantém vivos.(…)
Al Berto, O Medo
22 novembro, 2019
Route 66, Arizona, costa alentejana, meados de 80
Arroz Doce, só arranjas cenas destas, fogo. Ela estava lixada e eu também. Mandava vir, mas os olhos azuis completavam o céu e eu aparava os golpes todos. Deixa-te disso, estás a gastar o oxigénio, disse eu. Fuzilou-me com o olhar. Pensei, para rebolar uma hora no pinhal, tudo bem, mas cinco minutos a caminhar e já está em brasa. Ela disse não penses que por pararmos cinco minutos no pinhal te safas, a culpa é tua de andarmos aqui à uma hora a caminhar. Era muito vocal.
Íamos para uma festa de música numa praia alentejana e o ferry para a Troia fora-se antes do nosso tempo. Depois foi a vez do vai-vem para a festa que só vinha e ia uma vez. Eu disse logo, vamos à boleia, e ali estávamos de dedo esticado a caminho do mais para sul. O plano era sempre o mesmo. Se alguém parasse eu fingia que não existia e ela depois chamava-me e o pessoal do carro ficava entalado, ou levava dois no lugar de um ou bazava. Devia ser por eu não usar gravata. Naquela tarde ninguém passava, quer dizer, passou um Ford Cortina amarelo com um casal de velhos, deviam ter mais de 35. A mulher olhou para nós e pensou, deve andar fugido de Pinheiro da Cruz e ela é refém ou cúmplice. Continuaram. Depois passou uma carrinha cheia de porcos. Parou e fizemos de conta que não a víamos. Estamos lixados, pensei eu e ela disse estamos lixados, devíamos ter ido com os porcos. Ela era mais vocal.
Bem, começámos a ouvir um zumbido, depois um ronco e depois um trovão e começou tudo a tremer. Uma nuvem de pó vinha na nossa direcção. Grande azar chiça, tínhamos que levar com uma manada de búfalos. A ela passou-lhe a zanga e agarrou-se a mim. Uma sombra passou, ouvimos um chiar de travões e pneus. Parada mais a frente estava uma bomba. O condutor pôs a mão de fora a chamar-nos.
People, o carro era uma loucura, ocupava a estrada toda, era vermelho, com uma lista preta a subir do capot até à bagageira, jantes do aço a brilhar por baixo do pó, todo artilhado. Roncava, ele ia carregando no acelerador, impaciente. Querem boleia? perguntou e eu pensei sim claro, caraças, andávamos aqui a apanhar sol, e disse sim senhor. Ao fundo daquele capot que nunca mais acabava estava um cavalo prateado. Era um Mustang daqueles dos filmes americanos, estávamos na Route 66. O man era ruivo, forrado a couro tal era o bronze que comia as sardas. Tinha um rabo de cavalo e os dedos cheios de anéis e uma camisola de alças com o Rato Mickey.
O tecto estava forrado de fotos de raparigas. Achei aquilo estranho, mas não era nada de pornos, só sorrisos e pernas bonitas, e dava bom ambiente. Uma foto em branco tinha uma faca do mato espetada que pendia do tecto. Devia ser para estar sempre à mão. No banco atrás estava uma espingarda mesmo ao lado da garina. O gajo pouco falava e ela perguntou és caçador? e ele respondeu caçador, que merd@ é essa? e ela disse tens aqui uma espingarda, e ele respondeu que espingarda fod@-se? Percebi logo tudo, era um serial killer, mas parecia estar em negação. Do mal o menos. Fiquei a pensar que era o primeiro que conhecia pessoalmente. Fixe. Carregou no acelerador, o carro parecia um leão. Levantou a embraiagem e o carro saltou e o mundo passou a correr ao nosso lado.
De repente disse segura aqui o volante e largou-o e eu todo deitado, quase sem ver a estrada, fiz o que pude a 160 à hora. Olhei para trás, ela estava branca, mas riu-se, era só adrenalina, Route 66 e tal. O pintas enrolou uma e disse acende aí. Aquilo começou a rodar e passados dois minutos estava tudo estalado a rir e ele carregou no acelerador e a faca do tecto caiu e ficou espetada na cabeceira do meu assento.
Tudo isto durou cinco minutos, o Mustang voava. Mais uma travagem acelerada e saltámos do carro. Sigam por aquele caminho, a praia é sempre em frente, disse o gajo. Um trovão e o carro já nem se via, só se sentia a roncar do escape e a deslocação do ar. A miúda disse o gajo tem pancada nos cornos e eu pensei mas o produto era bom e ela disse mas o produto era bom. Ela era mais vocal. Um cenóide do caraças, ninguém ia acreditar.
De repente estávamos no deserto do Arizona. Eram só cactos e mato. Um sinal cheio de chumbo apontava a praia. Um calor do caraças. A boca estava seca e já não ríamos. Cada passo era um esforço. Ninguém passava. Andávamos, não havia sombra e eu pensei já bebia uma fresquinha, e ela disse bebia agora uma fresquinha. Já referi, ela era mais vocal e acho que lia os meus pensamentos, fogo, tinha que me por a pau. Por outro lado era fixe, nem precisava de falar.
À beira do caminho estava uma casa, uma miragem. Uma tábua dizia "vinho". Ficámos a olhar um para o outro. Vamos lá Arroz Doce, ela era decidida. Bati à porta e apareceu um homem de barba negra de dois dias e de boina, o que me pôs de pé atrás. Devia já ser paranóia. Vão para a festa? perguntou. Vamos, disse eu, mas estamos com uma sede, já vimos a pé desde Troia. Eu falava pouco, mas gostava de exagerar. Entrem para provar do vinho, disse ele. Entrámos. A sala era fresca com naperons e bibelots por todo o lado, devia haver por ali uma mão de mulher. Encostada à parede uma espingarda. O homem trouxe uma garrafa de branco e começou a despejar nos copos.
Ela era curiosa e perguntou a sua mulher não está? O homem respondeu bem falta me fazia, as últimas morreram dumas cáries. Eu olhava com ar de estronço e ia dando na vinhaça e ela não parava, é caçador? Caçador, porra, eu não a matei, não mato nada, e franziu mais o sobrolho e ela continuava, tem ali uma bela espingarda e ele, qual espingarda fod@-se? Boa, outro assassino em série em negação. No mesmo dia apanhámos dois, devia ser um recorde. A miúda riu-se, já estávamos todos toscos, queria lá saber e eu continuava a olhar feito estronço. O homem começou a contar histórias de cabritos e da cor da uva, mas tínhamos que ir andando que se fazia tarde e ele deu uma garrafa a cada um da zurrapa do quintal. A praia é já ali, disse. Fomos a beber pelo caminho, ríamos e uivava-mos e seguíamos aos saltinhos. Vimos o acampamento e o azul do mar atrás das dunas.
Que cena marada, em vinte quilómetros tínhamos passado pela Route 66, o deserto do Arizona, tínhamos conhecido e sobrevivido a dois assassinos em série e eu estava com tanta, tanta sede, que só me apetecia beber a água do mar.
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