18 de maio de 2019

De frente para o Passado e de costas para o Futuro

Vivemos de costas para o Futuro e de frente para o Passado. De frente para o que conhecemos, de costas para o que desconhecemos. A teoria não é minha, mas até faz sentido. Vou aqui aplicá-la àqueles ditos que gostamos de atirar uns aos outros. Perdoem desde já a confusão do texto, porque nem eu percebo muito bem o que estou a escrever. É um raciocínio fútil num papel digital.

"Tens o Futuro todo à tua frente".
Isto é dito e sublinhado ao jovem e impede-o de viver plenamente o Presente, que é o único espaço em que o Passado e o Futuro se confundem. Na verdade, o que se está a dizer é para se viver o Presente, quando se tiver mais Passado. Mas se o fizermos, só estaremos a acumular Passado irrelevante à nossa frente. Porquê? Tirania inconsequente.

“Ainda tens o Futuro à tua frente”.
Do nada, esta aparece pela boca de alguém e aceitamo-la, porque estamos moldados mentalmente para que o futuro esteja à nossa frente, embora para efeitos deste texto seja o contrário. A adição da palavra "ainda" tem várias implicações. A primeira é que algo falhou no passado e é necessário acreditar que, algo que desconhecemos e para o qual estamos de costas, a irá resolver. A segunda poderá ser condescendência, mas pensem vocês nisso.

"Tens todo um Passado atrás de ti".
Mais uma incorretice pois vivemos virados para ele. É uma frase de reforço de auto-estima e de orgulho, por vezes soberba ou ironia, mas é inócua, é apenas uma mentira banal. Estamos virados para o Passado, por isso sabemos bem o que ele foi, o que não sabemos é o que está nas nossas costas, o Futuro. A verdade é que andamos para trás para o Futuro, que só então nos aparece à frente como Passado...

Por último, chega-nos “Põe o Passado para trás das costas" ou "Esquece o Passado".
A primeira, no sentido literal corrente, nem sequer faz sentido, porque já é crença que o Passado está atrás das costas, embora não o esteja, ou então, indo à outra, como podemos esquecer algo que está à nossa frente em prol de algo desconhecido para onde andamos às arrecuas?

Viver de costas para o Passado é como apagar a luz, não há redenção. Viver de frente para o Futuro, é andar com um véu opaco.

Andamos a enganar-nos no Presente....

16 de maio de 2019

Lembras-te?

Lembras-te do longo abraço que partilhámos quando cheguei à estação? Quando o mundo todo parou nesse momento, só para podermos partilhar saudade, amizade, amor e calor? De quando nos conhecemos e entrelaçámos as mãos?

Lembras-te de quando tivemos que abandonar esses momentos de fantasia e voltar para a vida real? Que voltaste comigo no comboio só para podermos partilhar mais um efémero momento de inocente paixão?

Lembras-te de quando te disse até breve? Do que sentiste quando não foi breve? De quando esse até breve se tornou em nunca mais?

Lembras-te de ver a tua vida passar, e passar a tua vida a ver esses momentos na tua cabeça? Lembras-te do arrependimento que sentiste perder todas e mais uma oportunidade de conseguir voltar-te a ver?

Lembras-te da angústia que sentiste por todos os erros que cometeste na tua vida, que impossibilitaram o reencontro? Da eterna busca que fizeste para voltar a encontrar um calor igual ao que sentiste quando nos unimos? Do que sofreste por nunca mais nos podermos tocar?

Eu lembro-me…

Foste testemunha e cúmplice.
Foste quem sofri sem sequer saberes.
Foste quem do meu lado negro protegi.
Foste o maior erro que nunca cometi.

14 de maio de 2019

Filosofia F**K THEM

O que andamos por aqui a fazer... Ora bem, esta é a pergunta primeira de qualquer filosofia que se preze. Para mim, talvez fosse mais importante o que fazemos enquanto cá andamos, vincando o "talvez".

No fundo acredito que nada é importante. Nada interessa. Se temos muito, se temos pouco, se fazemos por isso ou não, se não limpamos a boca ao guardanapo, se comemos o frango com o mindinho esticado para cima, se gostamos de música pimba e de piqueniques do Modelo, ou se vamos ao Lux, ou a festivais de Verão. És assim, gostas e ages, dá-te prazer. Não incomodas os outros. Acabou. O resto não interessa. Para nada. 

Não andamos cá para provar nada a ninguém. Quero lá saber se me dizem que devia fazer isto ou não fazer aquilo, ser mais isto ou ser menos aquilo.  Sorrir ou chorar.  Trabalhar ou mendigar. Correr ou parar. Santo António ou Marquês de Sade. Que se lixe, isso são intromissões e eu não ando cá para viver pelas medidas dos outros. F**K THEM. Faço assim, ou não faço e acabou, porque gosto de o fazer assim, quero-o fazer assim e posso-o fazer assim. É isto que me dá prazer. 

Uma questão se impõe. Seria mais feliz se a minha vida fosse diferente? O segredo é este: a felicidade não existe, ninguém é feliz sempre e quem o diz mente. A felicidade, como um todo, é sobrevalorizada e é uma mentira. Existem curtos momentos de felicidade, a que não damos valor, pois naquele momento parecem a regra e não a excepção, mas é só isso que existe e quanto mais depressa o aceitarmos melhor. Aproveitemos-los e façamos o que nos dá prazer, ou se não pudermos, tiremos algum prazer do que fazemos. Ponto final parágrafo. 

12 de maio de 2019

O coreto da Casa Grande

Quando o primeiro Senhor da Casa Grande, que tinha esmagado a Revolta do Sangue dos Húngaros, perguntou à Senhora o que faltava fazer no jardim, ela respondeu, um lago com cisnes, um labirinto de sebes floridas e um coreto. E assim se fez.

A Casa Grande era firme, parecia um castelo de pedra preso nos cordames de trepadeiras, trazidos das terras da Alsácia, tão grossos que a Norte não se viam as paredes. Tinha dezasseis quartos, oito salões, duas salas de fumo, duas salas de leitura, duas cozinhas e duas casas de banho, uma delas com duas banheiras. A casa era fértil, todos os seus amos tiveram descendência. Ao fundo do jardim perdiam-se de vista as terras do Senhor da Casa Grande.

O coreto era branco, com um gradeamento arredondado na esquadria e pássaros pintados de azevinho nas bordaduras da cobertura, que parecia um suspiro apoiado em cinco colunas de ferro, entrançadas em si próprias. O piso era de madeira alisada à mão e a cave da base era a serventia do jardim. Duas escadinhas de ferro, curvadas num V que parecia um coração, davam acesso ao coreto. Não era grande, apenas o suficiente para dez casais dançarem a valsa.

No tempo do segundo Senhor da Casa Grande, que saíra vencedor da Guerra da Brasa dos Ferros, o coreto fora pátio de casamentos. Num dia de muita alegria celebrava-se o casamento da filha mais nova das doze filhas dos Senhores, quando caiu uma chuva forte, seguida de bolas de granizo. O padre abençoou os noivos e fugiu do coreto, atrás dos outros convidados que se refugiaram na casa. Um serviçal foi enviado para socorrer os noivos, mas ficou ignorado junto à escada a ensopar-se, estoicamente de braço esticado a segurar o guarda-chuva, à espera que no coreto acabassem a primeira dança.

Um jovem das Terras, a mando da Senhora do terceiro Senhor da Casa Grande, que derrotara os Hunos da Peste numa guerra sem quartel, ia lá tocar violino uma vez por semana. Sozinho no coreto, embalava os presentes até o General da Guerra dos Apeninos acordar, e com voz militar soltar um firme Bravo! O jovem deixou de ir quando a Guerra Maior rebentou, mas foi substituído pelo filho do Senhor, que não tinha talento para a música, mas que fazia soltar muitos Bravos por baixo do coreto, quando por ali rebolava na palha com alguma rapariga da casa, que por essa altura tinha 40 serviçais.

Anos passados, os dois filhos mais novos do quarto Senhor da Casa Grande, que arrasara com crueldade o motim dos Lobos Negros, pegaram numa lata com um resto da tinta amarela que servira para pintar três tectos em dois quartos, e rodaram os pincéis pelas paredes do coreto, enquanto os jardineiros sorriam das traquinices dos jovens Senhores. Depressa os moços se cansaram e o coreto ficou durante meses meio amarelo, até que um infeliz jardineiro levou com o pingalim do Senhor e o seu filho acabou de pintar o coreto.

Um dia, uma banda dos terrenos búlgaros veio tocar no jardim do quinto Senhor da Casa Grande, que os conquistara na Guerra das Sardenhas, mas o coreto era pequeno e os pífaros, que ficaram de fora, não se faziam ouvir porque as tubas e os tambores, lá de cima ribombavam tanto que abanavam as árvores. O Senhor, furioso, só lhes pagou metade do acordado e ameaçou largar-lhes os cães.

Também por lá passou, pela casa dos cordames, uma geração de sonhadores. A Senhora e o sexto Senhor da Casa Grande, que fora herói ao espezinhar a Revolta dos Cepos, deram ordens para se pôr bancos de jardim no coreto e ali ficavam perdidos a olhar o céu, à noite, e a ensinar aos pequenos o nome das estrelas. A única luz que se via era a cigarrete do Senhor, que luzia no escuro. No verão ouviam-se as rãs do lago e nas noites escuras de inverno, os veados que andavam pelos campos da Casa Grande e de dia enfrentavam as balas, eram atraídos pelo fumo, mas só deixavam ouvir os cascos no saibro do caminho.

Outro ano ainda, o doutor, homem pacato que nunca guerreara, mas que cortejava a herdeira da casa há dois anos, numa noite iluminada ajoelhou-se no coreto e pediu-a em casamento. A menina gritou sim e puxou-o, agarrou-o e beijou-o com força, enquanto lhe apertava as nádegas. O doutor, habituado a só ver eczemas, inventou uma viagem súbita e fugiu. O sétimo Senhor da Casa Grande, que vencera com glória a Guerra da Mão Beijada, ficou feliz por ver desaparecer tal cobarde. O homem não voltou às Terras. A menina chorou dias a fio, até que um primo lhe deu um colar de ouro, pilhado na Guerra do Sul, e enquanto cheirava rapé africano lhe mostrou que havia quem gostasse de moças fogosas. Partiu para o Equador para combater na Guerra Menor, mas regressou sem glória à Casa Grande, sem ter lutado uma única batalha. A herdeira já casara e o casamento fora no coreto.

O coreto deixou de ter serventia quando morreu de parto a Senhora do oitavo Senhor da Casa Grande, que o deixou com oito filhos, uma melancolia crónica e uma guerra interior. Um jardineiro cortava as ervas que iam crescendo, mas o chão de madeira estava corroído do bicho e nas ferragens brancas viam-se manchas vermelhas, onde a ferrugem rasgava a tinta.


10 de maio de 2019

As paredes também falam


Faz tempo que não durmo como deve ser. Entre um pensamento e outro, somam-se as noites mal dormidas. Os olhos fecham-se, a cabeça, essa, não para. As paredes que me cercam têm assistido a este desatino. Há já alguns dias que estou instalado num canto deste prédio devoluto, palco de prazeres clandestinos e testemunha de atos proibidos. Sinto-me bem aqui, gosto de me sentar na escada em caracol durante longos períodos a olhar para as paredes que me cercam. À minha frente, desfilam desenhos de cores berrantes, mensagens de amor, rabiscos e  alguns impropérios na língua de sua Majestade.

Desde a imagem de um Pessoa com óculos tridimensionais a VOTA PCP, passando por FUCKING ASSHOLE! Tudo aqui é permitido. Parece que até o Ribas sorri já numa das paredes da cidade. Nem esquecido, nem censurado!

Gosto desta linguagem intencional com aroma de transgressão, destas manifestações artísticas a que chamam arte urbana e que fazem da cidade uma galeria a céu aberto.
No meio de toda aquela explosão de cores e significados, destaca-se um miúdo de boné enfiado nos olhos que segura um cartaz onde se pode ler Quando for grande quero ser feliz.

Quem não?

8 de maio de 2019

Os riscos do disco no gira-discos

Os discos giravam no gira-discos, os discos tinham riscos, era um gira-discos, uma aparelhagem, o gira-discos tinha um braço, o braço tinha uma agulha, tirava música dos discos, giravam no gira-discos, uma aparelhagem, fazia riscos, era aquela música do disco, do álbum, hoje é vinil, pouco se usa, o disco riscado pela agulha do gira-discos, a agulha era fina, era aquela música do disco, nem sempre era a música, eram três notas que arrepiavam, duas palavras cantadas, e eu levantava o braço do gira-discos, apontava a agulha aquele risco do disco, o risco de onde saia a música, aquela música, aquelas notas, aquelas palavras, valiam mais um risco no disco que girava no gira-discos, largava a agulha, o disco reclamava, não tinha pontaria, dzzzzzzzzzzz, mais um risco a juntar aos do disco, o disco girava, quando as guitarras disparavam, sempre a subir, a subir como deve ser, aquela parte que vocês sabem, voltava atrás e para a frente, no disco, repetia mil riscos, saltava no quarto, partia o candeeiro do tecto, a música, sempre a música, cinco segundos só, tantos riscos no disco do gira-discos, havia sempre aquela música, começava num risco, aquela nota em cada música, a voz, a alma, onde deixava cair a agulha, no sítio onde via o risco, que tocava o disco, o disco reclamava, fazia dzzzzzzzzzzzz, não era ali, eram três milímetros à frente, três segundos atrás, levantava a agulha do gira-discos onde tocavam os riscos do disco, mais um risco, era ali, o prazer do risco mil vezes, o momento, o prazer associado ao risco, um excesso de riscos, riscava a alma do disco, mas quando era a Patti Smith, mas quando era o Horses, mas quando a Patti Smith girava na agulha do disco que girava no gira-discos, mas quando o gira-discos rodava o disco da Patti Smith, cheio de riscos, mas quando chegava ao "Land" no disco riscado, a agulha mergulhava, gastava-se de girar, voltar a girar, sempre a girar, eu sonhava sonhos longínquos, eu sonhava sonhos inquietos, a agulha riscava o disco no gira-discos.
Era um pesadelo acordar do sonho, 9:26 depois, para ir fazer outro risco, no disco que girava no gira-discos.
"go Rimbaud, go Rimbaud, go Rimbaud"




6 de maio de 2019

Algodão doce e shots de vodka


Embora me tivesse confessado Um dia, hei de escrever-me, não o fez. Eu sabia que queria muito, mas as palavras às vezes são difíceis e teimam em não sair. Tomei então a decisão de ser eu a fazê-lo, mas não lhe disse nada, é um segredo.
Alguém disse um dia (já não me lembro quem) que as raparigas demasiado bonitas causam tristezas. Devia saber o que estava a dizer. Aqui não era o caso. A rapariga sobre quem escrevo tem aquilo a que se chama uma beleza selvagem e a mim só me trouxe alegria.
É uma alma sensível e rebelde ao mesmo tempo. A irreverência e a cortesia num mesmo ser. Um festival de antagonismos!
Usa o cabelo escuro num corte irregular. Gosta de o prender com um lápis de uma forma desarrumada. Os olhos castanhos esverdeados adquirem uma tonalidade mais clara nos dias de sol como que a querer celebrar a luz. É uma rapariga de sorriso fácil. Diz-me muitas vezes que, numa mulher, o sorriso é tão ou mais importante do que a maquilhagem. E é bem mais saudável. Quando não sorri, o que é raro, a sua tez torna-se opaca e adquire uma lividez assustadora. É sinal de tristeza ou de adversidade. Transfigura-se. Quem a está a ver, percebe logo que há ali algo de errado, ainda que não a conheça no absoluto.
Gosta de falar, mas precisa de momentos de silêncios. Muitos, mas curtos. Depois desse intervalo, retoma a habitual tagarelice e tudo volta à normalidade.
Teima em não largar os jeitos de miúda apesar da idade já ter manifestado os seus sinais. Não tenho medo de envelhecer diz tenho é medo de morrer. À velhice dá-se lhe a volta. Quanto à morte, essa é que nos dá a volta a nós. Sem lugar para reclamações! End of story!
Jeans rasgados e ténis num dia, vestido mais formal no outro. A roupagem escolhida fica por conta do estado de espírito.
Se gosta, gosta muito. Se não gosta, não odeia; ignora.
Passam pessoas por mim, mas nunca ficam por muito tempo. Esta entrou na minha vida há muito e não quero que saía dela enquanto quiser cá ficar.
Lembro-me de lhe perguntar uma vez Quem és tu quando ninguém está a ver?
Na altura, riu-se e respondeu-me Não sei, diz-me tu! Quem está a ver é que saberá responder!