15 de dezembro de 2018

Olhos de céu e arco-íris

Gostava de me sentar ao teu lado no muro de pedra a fumar cigarros roubados do maço que o teu pai deixava um pouco por toda a casa.
Era bom estar ali contigo sem relógios, nem regras. Adorava aquela desorganização toda!
Havia pouco que fazer naquela casa enorme no meio do mato, mas inventávamos tantas coisas.
Até tínhamos feito um pacto: seríamos inseparáveis.
Mas… falhaste-me.
Ficaram-me os teus olhos cheios de céu e um sabor a água de menta e arco-íris.


12 de dezembro de 2018

A discoteca, as ninfas e o castigo dos céus


Algures no West End londrino (zona de turistas e portugas à aventura), entrámos numa discoteca (Heaven/Hell, é escolher). Eu andava atrelado a uma mulher que gostava de mim (depois fiz merda (não fosse eu o Arroz Doce)).

A música da época (Rick Astley e Kylie Minogue e esses) convidava à dança (aquilo era uma discoteca!). A pista estava cheia (turistas e estrangeirados como eu). Dançávamos em roda (aquela treta dos amigos), e eu (Arroz Doce), sem me aperceber (já bezano), fui-me afastando para norte (atracão magnética).

Quatro adolescentes (de idade feita ok (não são essas da foto)) da terra do sol (cabelos louros, olhos azuis), com o calor e as feromonas que emanavam dos corpos suados e sensuais que me atingiam como cometas e a frescura dos lábios entreabertos de desejo (fogo) dançavam e eu fui parar ao meio delas (rimo-nos muito) e estava afogueado e a escaldar com aquelas peles a rodarem efervescentes a centímetros da minha (feliz).

Assim fiquei (pois), extasiado (confesso que também bastante túrgido), quando numa missão de resgate (sem aviso), entrou no círculo a minha monitora (benza-a Deus), que me sorriu (fiquei apavorado), e numa dança frenética e robótica distribuiu em cada passo cotoveladas e caneladas às deusas nórdicas (Foda-se, larguem o meu homem!) que se foram diluindo na multidão (trinta segundos tinham-se pirado).

Andei uns dias a pão e água (calha a todos), mas em retrospectiva foi engraçado (esqueço-me de tudo mas não me esqueci desta).

11 de dezembro de 2018

Uma nota só



Gostava de ser música, só isso.
Uma nota só, um sol, um dó, um si bemol.
Guitarra ou piano tanto fazia, trompete, melodia, distorção com mel ou limão.
Uma nota fecundada ao ritmo dos flancos, das coxas rasgada.
Uma nota franca, transparente, que fizesse tossir de encanto, por vezes de espanto.
E claro, com muita sensibilidade e alguma verdade.


7 de dezembro de 2018

Improviso



Incorrigível indiligente...Imensurável imobilidade...
Invejável inércia!
Haja incumprimento, indisciplina... o ideal!
Imagens imutáveis. Inquietude.
Invisível imunidade à insanidade.
Idílio com a indolência.
Que indelicadeza toda esta ironia! Indispensável,contudo.
Impaciente ilusionista a quem a imperfeição e o infernal impasse incomodam!
Impulsividade...intrepidez!

In ativo , afinal!

5 de dezembro de 2018

O encanto da Sofia

A Sofia era única, a Sofia era um feitiço. Eu gostava da Sofia. 

A Sofia não dava beijinhos. Chegava com um high five e um "Tudo bem?". Eu detestava aquilo, queria abraça-la e beijá-la, mas também detestava o ritual beijoqueiro e então gostava daquilo, era ela. Lembro-me da constante que era o seu sorriso e de como dizia "Ganda maluco!!!!! Atina", e ria, ria sempre, quando o nosso tino se desatinava um pouco mais. 

A Sofia tinha o cabelo comprido, aos caracóis, muitos caracóis, que prendia atrás e por vezes, sem querer, deixava correr pelo ombro até ao seu decote bordado. Tinha um colete preto e um pescoço esguio e na curva do queixo tocavam as missangas dos seus brincos. Sempre vi luz nos olhos da Sofia e mesmo acompanhado esperava a sua voz. Gostava de a ter por perto, era bom. Segurava-me a alma.

A Sofia tinha umas sapatilhas pretas com bordados e flores e saias rodadas, com aqueles espelhinhos que brilhavam e com mais rendas e bordados de cores fortes e escuras, porque afinal éramos diferentes e até vestir o vermelho, ou o preto, era um desafio ao marasmo do Portugal em que vivíamos.

Eu gostava das meninas com saias rodadas e lenços da Palestina ao pescoço, como a Sofia.

A Sofia era perfeita, quase perfeita. Eu gostava da Sofia, a Sofia gostava de outro...

3 de dezembro de 2018

A Inteligência e as suas aplicações práticas


O Dilbert vai no corredor e passa por alguém a varrer o chão.

A pessoa vira-se para ele e pergunta - Ouvi dizer que tem um QI altíssimo, não quer fazer parte da Mensa?

Da Mensa? - responde o Dilbert - Mas a Mensa não é aquela associação de pessoas altamente inteligentes?

Responde o outro - É, eu sou o presidente!

Pergunta o Dilbert - Então se é o presidente da Mensa como acabou aqui a varrer o chão?

Ao que o outro responde - A inteligência tem menos aplicações práticas do que se pensa...

E eu sigo o meu dia...