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29 março, 2020

Acto de Deus e um vírus

Deus vaga entre a matéria negra, as velas do destino inchadas pelo vento estrelar, mais rápido que a luz que criou do choque do branco com o negro.

Deus forte, obtuso, rígido no Seu desígnio, predestinado, que não move um milímetro na decisão da rota que para Si traçou.

Deus numa viagem infinita, que percorre o Seu Universo de ponta a ponta, só porque sim, porque é Seu e depois volta para se aconchegar no seu berço e nos olhar com curiosidade.

Deus sem fim à vista, omnipotente quando nos comanda  como marionetas ou brinca e nos deixa nadar para longe das águas calmas e em braçadas suadas sair das águas de tempestade .

Deus que na Sua suprema vontade nos põe à prova e dizemos porque nos trazes tanta dor e sem se justificar, porque é Deus, abre-nos os olhos e vemos que de entre nós se levantam alguns, são heróis que se superam no combate e generosos com a sua vida travam batalhas e batalhas pelos outros, até vencer a vontade de Deus, que entretanto sempre soube a resposta à nossa pergunta: porque confio em vós. 

E assim se passam os dias sem história que não existem, mas acontecem, que são os dias em que Deus navega à velocidade de anos luz pelo seu Universo.

Foto: Gripe espanhola 1919/ NSW State Archives / Tara Majoor

22 março, 2020

O meu coração lateja


O meu coração lateja,
Bomba sangue desenfreado,
A aorta potente,
As veias inchadas,
As artérias impacientes. 

Rios de sangue correm e enchem recantos escondidos, jorrando entre aurículas e ventrículos.
O meu coração bate e o eco é melodia. 

Anseio por luzes sempre acesas e portas sempre abertas. 
Diz-me e enfrento dias de brasa e chuva sem dó, 
Trouxeste-me do vácuo branco,
Não me deixes ficar baço,
quando em ti renasci brilhante.

17 março, 2020

Universus Infinitus


No ponto azul do Big Bang da Criação, enroscados num sofá, passo-te os dedos no pescoço e sei que gostas porque te encostas mais a mim. Relaxados e felizes, naquele momento o nosso amor é universal. 

Penso, estarão os físicos teóricos certos? Existirão universos paralelos infinitos, cheios de repetições e contradições? Pois se neste parti, então num outro fiquei e porque não, ele há tanto por saber. Mas acrescento em abstracto, se neles, universos, se moldam acções, porque não então emoções? Exemplifico:

Noutro sítio o Big Bang foi descoberta e no seu ponto azul somos adolescentes a quem passou o tempo do só dizer, e ao cruzar um páteo rebenta um primeiro beijo e damos as mãos. Nervosos e felizes, naquele momento o nosso amor é universal. 

Mais ao lado, noutro ponto azul explodido de um Big Bang sedutor, envolvidos nos nossos sucos cavalgamos as coxas em sincronia e os teus peitos eriçados pedem-me sempre mais fundo, mais fundo e talvez seja este o universo total pois juntos somos um só. Amantes doidos naquele momento o nosso amor é universal. 

Mesmo ao centro, num Big Bang que não terminou ainda, num ponto azul sempre em mudança, sorrimos porque o nosso filho nasceu e a ansiedade deu lugar à felicidade e o nosso amor abriu-se a uma vida a três. Naquele momento em que todas as cabeças se tocam e dois de nós choramos de felicidade e o terceiro porque existe, o nosso amor é universal. 

Tao difícil é o infinito que para quem nele pensa parece ter fim. 

E nos confins de uma nebulosa tão fria que faz duvidar do seu Big Bang, num ponto cinzento à sua sombra, sinto as tuas lágrimas a tombar na minha campa e naquele momento o teu amor condói o universo e morto, choro em sintonia.

23 fevereiro, 2020

Há ouro no Tejo


Digo que o Tejo é rico em ouro, mas antevejo  algumas reticências sendo nós portugueses deveras crentes e desconfiados.

Diz-nos frei Nicolau de Oliveira, no Livro das Grandezas de Lisboa, datado de 1620:

 “(...) A segunda excelência [do Tejo] é de suas areias de ouro, de que, como acima fica dito, é mais abundante que abundante que todos os outros, como se vê em Plínio, livro terceiro, capítulo quarto, e não há que espantar que ainda hoje vemos resplandecer em suas areias muitas arestas e folhinhas de ouro, e tão fino, e tão puro que, querendo el-rei D. João o terceiro lhe fizessem um ceptro, mandou que lhe buscassem o ouro nas areias do Tejo, do qual se fez um, que os reis têm agora na mão, quando os coroam, ou fazem Cortes, e se guarda em o tesouro de Lisboa."

Plínio, o Jovem, filho de Plínio, o Velho, ficou para a história devido às mais de 700 epístolas que enviou ao Imperador Trajano  (séculos I e II da nossa era), curiosamente nascido na província romana da Hispânia Bética, cuja fronteira ladeava o nosso Guadiana.  As cartas, posteriormente agrupadas em livros, relatavam o quotidiano das gentes de Império e nelas se fez menção, pela primeira vez, ao emergente Cristianismo. 

Ora acreditamos que a riqueza de ouro no Tejo terá despertado a curiosidade do Imperador. Também despertou a dos Mouros que o exploraram, mas tal era a sua abundância que no século XVI, El-Rei D. João III, o Piedoso, fez moldar das folhas puras das minas de Almada, topónimo que significa "a mina, mineral ou metal", um ceptro real.

Situadas algures nas antigas terras da Adiça, Fonte da Telha, só fecharam as portas no século XIX,  não por falta do metal precioso, mas por falta de financiamento para uma escavação mais intensiva. O ouro anda por lá.

Não nado no Tejo nem por ele navego, mas nos dias de Sol, talvez a bordo de um cacilheiro, irei estar atento ao brilhar do ouro, num rio que sempre pensei ser de prata.

14 fevereiro, 2020

A que sabem os teus lábios?


Na primavera os frutos encarnam nos botões dos ramos em flor. O renascer do tempo e os primeiros calores tentam poetas e amantes. O sol brilha entre as folhas e sentado à tua espera na esplanada junto ao lago aguardo que me perturbes e por dentro bato assustado quando entrevejo os teus lábios brilhantes. 

Vem o verão e os frutos empurram as pétalas,  crescem das flores fecundas e o doce derrete-se nas polpas. A terra quente e o mar dócil saúdam os corpos acobreados que flutuam na areia. O teu perfume estonteia-me ao fluir-te na pele e a imagem viva dos teus lábios, que não provei, é a ponta insana do universo.

Chega o outono, colhem-se os frutos a explodir de carnudos e solta-se a folha. Confundido com todo este estonteamento de estação pós estação preciso de provar que resta querer no mundo, mas sucumbo cansado ao desejo negado de sentir a que sabem os teus lábios. 

Cai o inverno e os frutos são memórias que sobrevivem em  potes e as árvores ramos despojados. O frio invadiu os teus lábios desmaiados e estranho como ignoram o calor dos meus, quando todos sabem que por químicas desconhecidas dois lábios gelados ardem em contacto.

Encosto-me às raízes junto ao lago e qual pensador de Rodin busco o porquê das coisas e nada faz sentido enquanto não souber a que sabem os teus lábios molhados.

04 fevereiro, 2020

Quero-te minha outra vez


Olho-te do outro lado, camuflado numa coluna. Sempre à mesma hora, em plataformas trocadas. Faz tempo que viajamos em sentidos contrários, como se os relógios rodassem inversos recomendando a mesma hora.

Que aperto no peito sinto quando te vejo de manhã e que raiva quando te revejo à tarde, uma visão tão improvável, mas sempre tão certa. Para onde vais? Como pode ele amar-te mais e melhor do que eu? Como pode ele tocar-te quando jurámos ser só dois? 

Ouves música, será que ainda ouves a nossa música ou também isso mudou? Conheço esse teu gesto, o cabelo curto roça os ombros e os brincos, sempre diferentes, surgem quando com o dedo seguras o cabelo atrás da orelha. Tão sensual, disse-to tanto, já não ouvias. Ficou-te porquê? Conheço todos os teus gestos.

Hoje vestes o casaco vermelho com dois botões. Sinto nos dedos o toque aveludado e o perfume misturado contigo, com o teu cheiro, que me transtornava quando abria os armários. Os lenços... Observo melhor, tanta coisa nova em ti e esse brilho nos olhos que tinhas perdido no nosso caminho. Já se esfumam na memória as curvas do teu corpo que tanto desejei e que agora são doutro. Canalha.

Um dia chamarei a tua atenção e o teu desdém sacrificará os restos do meu amor por ti. Mas não hoje, não ainda. Vou subindo as escadas cabisbaixo por dentro e rude por fora e enfrento mais uma manhã e à tarde vejo-te cansada e maldigo este final que me deixou do lado errado do cais. O teu mundo já não é o meu, mas como todas as pessoas que nos rodeiam aí e aqui, eles cruzam-se e confundem-se.

E porque quando a meu lado libertavas o teu corpo e te vestias suave para dormir, quando te chegavas ao meu ombro e sentia o teu tremor, o meu pensamento em ti era o melhor momento do meu dia?

Aguardando a vida, afago recordações em gargalos de cheiro a uvas ferrais e valdosas...

26 janeiro, 2020

Ando com um anjo às costas (para Terry Jones)

Ando com um anjo às costas. Levei tempo a perceber porquê, na verdade foi uma odisseia, mas as coisas quer nos façam sentido quer não, têm sempre uma razão. Começou assim:

A primeira vez que me dei conta foi num dia normal. Uns rapazitos riam-se atrás de mim e percebi que o tema da risota era eu. Virei-me. Um disse "até tem cara de tótó." Caraças, o raio do puto! Corri e apanhei-o pelo cocuruto enquanto os outros debandavam. "Deixe-me ir.", "O que se passa pá?", "Você anda com uma mochila de anjinho, se fosse lá na escola andava sempre a levar calduços.", "O que é que estás para aí a dizer?" Estiquei o braço para trás e senti uma cabeleira. Assustei-me. "Tira uma foto, rápido." O miúdo pegou-me no telemóvel e tirou a foto e fugiu a gritar "é verdadeiro e fui eu que gamei a bicicleta do Migas!".

Fiquei nem sei bem... Lá estava na foto, costas com costas, um anjinho de asinhas e bracinhos abertos, com um cabelinho aos caracolinhos, umas vestezinhas muito branquinhas e um sorrisinho divinalzinho, além das bochechinhas rechonchudinhas. Tinha uma harpazinha a tiracolo. De onde viera? Andaria a chover anjos? Não se via mais nenhum por ali.

Entrei numa pastelaria para um café e pastel de nata. Recostei-me na cadeira e ouvi um guincho. Cheguei-me à frente para não calcar o anjo. O empregado disse "devia tomar banho. O que deseja senhor?" E eu "hã?" E ele "o que deseja senhor?" Não valia a pena estar com coisas e pedi "um café e nata sffv. Quanto é?", "0,60€ e não o vou registar na caixa porque sempre que posso roubo nos impostos.".

Olhei-o estranhamente e saí. "Tem um anjo às costas, é bonito mas já não é Natal." Outro idiota. Fui para casa e tentei perceber o que se passava, mas nada fazia sentido. Perguntei "ó anjo, o que fazes aí atrás?" Não obtive resposta ou então obtive mas não estava sintonizado. Estava cansado. Deitei-me de lado para não esmagar o anjo e de vez em quando acordava com um zunido, era ele a avisar que o estava a moer. Levantei-me e gritei para as costas "diz-me o que queres!" Néstes. Mal sabia o que ainda me esperava. 

Fui trabalhar. O patrão disse "está com uma cara de merda. O cliente está a chegar, apagou os quilómetros ao carro?", "Ainda não", "Então despache-se." Passados trinta segundos chamou-me "ó Miranda que se passa, acordou mal da cabeça? Você tem uma coisa nas costas.", "Sim é um anjo.", "Um anjo? Você está-me a gozar?", "Não apareceu-me ontem.", "Chegue cá. Pois é um anjo com penas e tudo." Ouvi um grrrr. "Olha e não tem sexo, é mesmo um anjo." O gajo levantara-lhe as vestes. "Vá para casa e trate-se homem, não o quero assim a atender clientes, bem sei que já o podia ter aumentado mas sou viciado no jogo." 

Rilhei os dentes e saí. Bem, fui ao médico de família. "O que o trás por cá, seu enfezado, a micose do costume?" Comecei a não dar ouvidos aos insultos, para quê? "Não doutor, tenho aqui uma coisa nas costas.", "Vire-se sffv! O senhor tem um anjo nas costas.", "Sim eu sei.", "E em que posso ajudá-lo?" Fiquei a olhar para ele. "Não pode fazer nada?", "Sobre o quê?", "Sobre o anjo.", "É bonito, incomoda-o?", "Nem por isso, só tenho que ter atenção quando me encosto ou durmo.", "Então e da micose, anda bem?", "Bem, mas não vai fazer nada sobre o anjo?", "Tenho que consultar os manuais, mas tome um benuron de manhã e outro à noite, que se não fizer bem também não faz mal. Parabéns, é a primeira pessoa que vejo com um anjo às costas e olhe, gosto de tocar às campainhas e fugir."

Pensei que devia estar a sonhar, mas não, na rua estava fresco. Abanei-me mas o anjo não caiu e começou a cantarolar uma música dos anos 20. As pessoas passavam por mim e ouviam a cantarolice. Ouvi umas senhoras dizer "olha deve ser ventríloquo", "mas isso já nem se usa", " usa, usa, que estive no outro dia com um que me gemia numa orelha e eu ouvia na outra." Depois viam o anjo e pensavam que eu era pedófilo ou do circo. Outras pensavam que era blasfémia.

Chamaram um polícia que ia a passar e que perguntou "que anda você a fazer com uma criança pendurada as costas?" Eu estava já meio passado. "É um anjo e não me larga.", "Isso é o que vamos a ver" disse a autoridade. Puxou-o pelas asas, mas o anjo não desgrudava. Pôs a patorra no meu rabo a fazer de alavanca e com as mãos puxou o anjo pelo pescoço. Baralhou-me a coluna, mas nada. O anjo ria-se. "Ele não o larga. Hoje mandei parar um carro porque me apeteceu e fiquei com o dinheiro da multa." Foi-se e eu abestalhado sem acreditar que aquilo se estava a passar. 

Entrei num restaurante, estava com fome. O dono ao balcão disse "você tem uma penca do caraças" e começou a chorar quando viu o anjo "eu sou um pecador, roubei uma borracha quando era pequeno e infernizo a vida aos meus empregados." O empregado disse "eu como bifes às escondidas" e agarrou-se ao patrão e ainda outro disse "eu cuspo-lhe na sopa e engano a minha mulher." Era só baba e ranho. Saí a correr e com mais fome.

Voltei a esquina e vi um letreiro, Dr. Armando Pinho, psicólogo. Pensei que devia estar maluco por isso entrei. A recepcionista disse "o Dr. não está a fazer nada é como você, passa o dia a ver porno, mas vou ver se o atende." Passados dez segundos voltou "Pode entrar! Aí que anjo bonito que tem nas costas. É de peluche? Sabe, roubo comprimidos ao doutor para o meu filho que é tóxico independente." Entrei na sala e o psicólogo mandou-me sentar. Era selecto, sofás de cabedal, uma estante cheia de livros que dava a volta à sala e uma mesa de mogno. Fumava cachimbo. "O que o trás por cá, pila de amendoim?" Pensei, insulto bem adequado de um psicólogo. "Tenho um anjo nas costas." Olhou-me e perguntou "e o que sente relativamente a isso?", "Sinto que não é normal.", "Porque sente que não é normal?", "Porque tenho um anjo agarrado às costas." Levantou-se e andou pela sala meditativo. "Parece grave, a sua mãe não o amamentou em bebé pois não, o que sente sobre isso?" O anjo fazia-me cócegas. "O que tem uma coisa a ver com a outra?", "E o que acha sobre isso?", "Não acho nada, é uma parvoíce.", "Já pensou que era altura de o aceitar?", "O anjo?", "Não, a sua mãe!" Saí dali de gatas e ele gritou "sabe, os sofás são de napa e os livros são só lombadas de cartão e também não gosto de caracóis, como mas é um frete." Eu estava a ficar aluado. Paguei e a senhora disse "também tenho um em casa.", "Um quê?", "Um anjo pendurado no meio das relíquias." Os meus olhos estavam raiados e ela ficou receosa "não é a mesma coisa, sei bem. Às vezes minto, aprendi com o doutor."

Desci as escadas e resolvi ir a algum sítio pensar. Apanhei um táxi. "Esse cabelo deve estar cheio de piolhos! Para onde vamos? Para onde vamos? Olhe que não pode fumar e ponha o cinto. Não pago multas nenhumas.", "Leve-me ao Príncipe Real." Não podia encostar-me por causa do anjo e o taxista olhava-me com desconfiança. Saí e ele disse "costumo roubar aos estrangeiros e às vezes aos portugueses, é só merdas de viagens" e quando segui gritou "tem um anjo nas costas". Virei-me e benzia-se.

Isto deu-me uma ideia que devia ter sido a primeira de todas o que só demonstrava que a padeira tinha razão quando disse que eu era um idiota antes de me vender três carcaças e confessar que às vezes misturava as farinhas do pão novo e do antigo e de começar a fungar quando viu o anjo nas minhas costas. Em casa pus manteiga no pão, bebi um copo de leite e tomei um benuron, mal não fazia. 

Saí. No elevador entrou uma vizinha. "Nunca lhe disse mas você com essa barriga parece um bidon, bom dia vizinho.", "Bom dia vizinha.", "O que tem nas costas?" O anjo estava calcado na parede, tinha-me esquecido dele. Mostrei-lhe. "Mas você tem um anjo às costas!", "Pois é.", "Onde o arranjou?", "Acho que me escolheu." E veio a conversa do costume "vamos lá acima que não está ninguém em casa, só a senhora dos rissóis, mas é surda e eu vou fazendo os meus engates, espero que não seja pecado." Interessante, foi a primeira vez que ouvi a palavra, pecado.

Mas calhava bem porque decidira ir à igreja falar com o padre, que devia ter sido a primeira coisa a fazer. Entretanto, os comentários na rua sucediam-se "olha tem um anjo às costas, é ladrão, deve-o ter roubado nalgum poial" etc.. E o anjo que não dizia nada para me ajudar. Mais à frente uma voz berrava "arrependam-se pecadores, o dia do Juízo Final está perto!" e alguém perguntou "está a falar do quê?" e o outro mais calmo "do fim do mundo, vem aí o fim do mundo", "OK, e ainda dá tempo para ir beber um café?", "Acho que sim.", "Então até já." O homem recomeçou com a história do fim do mundo. Eu passara despercebido, mas quando viu o anjo gritou "sou viciado em sexo!"

Entretanto cheguei à igreja. O padre estava sentado nas escadas a fumar um cigarro. "Você deve andar metido na droga" disse antes de perguntar "o que o trás à Casa de Deus meu irmão?", "Preciso de si senhor padre, tenho um anjo às costas.", "Vamos já ver isso meu irmão." Entrámos e sentámo-nos no banco corrido. A Virgem, o Menino e uma variedade de santos olhavam-nos. "Deixe ver. Pois é verdade, tem um anjo às costas, mas olhe este não reconheço, deve ser um novo.", "E pode-me ajudar senhor padre?", "Em quê?" Irra já parecia o médico e o psicólogo. "Com o anjo que tenho às costas!", "À sim, já vi, você foi escolhido, para quê, não sei bem, é o primeiro caso que vejo." Eu estava baralhado e o anjo tocava a harpa. "Quer-se confessar?", "Está bem." Depois de contar a história da minha vida reparei que ele dormitava. Bati na madeira e ele deu um salto. "Muito bem, não lhe vou dar penitências, o anjo saberá melhor o que fazer consigo, mas acredite, como já disse foi escolhido.", "Para quê senhor padre?", "Olhe não sei bem, mas vá passando por cá. Tem telemóvel? Vou ligar ao Vaticano, pode ser que eles saibam e depois ligo-lhe, mas têm tanto que fazer, não é como eu aqui desterrado, isto é uma seca se não fosse o vinho da sacristia e a sra. Alberta que vem cá limpar as teias de aranha." Despediu-me com duas palmadas nas costas, provavelmente na testa do anjo, mas talvez fossem amigos agora. 

Saí da igreja e sentei-me num banco de jardim. Que fazer da vida? E o anjo que continuava calado. Um indigente veio pedir um cigarro e sentou-se ao meu lado. "Tem um anjo às costas.", "Eu sei, só não sei o que fazer.", "Também já tive um." Olhei para o homem, não acreditava no que tinha ouvido. "A sério?", "Acha que ia brincar com uma coisa destas!", "E o que fez? Ajude-me por favor, estou perdido e desesperado." O anjo começou a cantarolar. "Olhe, deixe andar, há coisas na vida que ninguém consegue explicar. Eu andei obcecado e acabei por largar tudo, e agora estou mais feliz que nunca e não dou ouvidos a ninguém." Pensei se haveria ali alguma mensagem sublimar. "E o anjo?", "Um dia destes vai-se embora, veio só matar saudades.", "Do quê, das minhas costas?", "Não, das dele!

Dei-lhe o maço de tabaco, agradeci e levantei-me. 
Saíra-me um peso das costas.

22 janeiro, 2020

Brincar com o fogo

Queimou-se tudo, não restou nada que se aproveitasse. Teria sido do calor intenso ou do tempo decorrido? A suspeita veio à tona, mas não restaram dúvidas.

O desastre iniciara-se algumas semanas antes, quando o José, apesar da sua frustrante timidez, arranjara coragem de puxar a Maria para um vão de escada e beijá-la. Foi o momento em que se ateou a ocorrência.

Mais decidida do que ele e liberta dos pruridos da obrigatória iniciativa masculina e também por estar cansada daquela relação tão promissora se estar a esvair no tempo, a Maria agarrou José, abraçou-o com fervor e deixou-se levar, afogueada pelo encanto dos sentidos. 

A partir desse dia eram unha com dedo. Juntavam-se em qualquer oportunidade, antes, durante e após os estudos e também ao fim de semana. Afastados, não se passava um minuto em que não pensassem um no outro e quando juntos repetiam-se esses pensamentos coloridos e ardentes, onde a cinza e o negro não encontravam lugar.

Começaram a faltar à escola e os impulsos juvenis flamejavam entre jardins e lugares incertos. Sabendo do caso, os pais dela, um casal de espírito aberto, abriram-lhes as portas para o namoro. Lembravam-se bem das ardências da juventude e tinham reparado que a filha acalmara com aquele namoro intenso mas sensato. Do outro lado os pais dele notaram que a chama do rapaz espevitara e deram também mais liberdade à ligação. 

Ela repetia 'amo-te' e ele respondia 'por ti vou ao inferno e volto'. Era retórica, frase de apaixonado e ela gostava. Naquela idade a paixão era lume e como disse o Camões "amor é fogo que arde sem se ver".

Naquele fim de semana os pais da Maria foram para fora e fizeram o voto de confiança de deixar a rapariga sozinha em casa, pedindo para se comportar e atender o telefone sempre que ligassem. Não deixaram de falar do José e o rapaz sem saber da conversa sentiu as orelhas em brasa.

Mas rapidamente percebeu o que se passava quando a Maria, a arder de paixão, lhe ligou naquela sexta à tarde e fogosa e afogueada lhe disse 'anda ter comigo a minha casa, vou-te tratar como um homem e serei tua. Além disso terás uma surpresa que te mostrará como o meu amor se consome por ti'.

José correu desaustinado. Ela abriu a porta e com as faces coradas agarrou-se ao seu pescoço e com um salto abraçou-o entre as pernas. A voz entre-cortada sussurrou-lhe ao ouvido 'os meus pais não estão no fim de semana' e continuou 'estou em brasa José, ardo por ti'. Coisas que ouvira na Internet. O rapaz sentia o mesmo, parecia um vulcão prestes a explodir.

Tropeçaram emaranhados e ferventes caíram no sofá e arrancaram a roupa um ao outro sofregamente. Os beijos e os sentires da pele repetiam-se e os seus membros do amor faziam faísca quando se tocavam e logo ali se consumiu o primeiro desejo. Rebolaram pelo chão, sem se largarem e o suar escorria vapor. Chegaram à cama e amaram-se desenfreados e a agitação era tal que num oceano de lavas incandescentes um pontão abria e teimava em mergulhar numa fenda alagada, onda após onda. Era bonito. 

Finalmente consolados, ela reclinara-se no peito e brincava com o umbigo dele, que lentamente acariciava e sentia o calor das suas costas. E foi então que tudo descambou e o inferno instalou-se no apartamento. 

Ele foi o primeiro a sentir, 'não te cheira a fumo' e ela 'sim um pouco, o que será?' E ele 'não sei, não deve ser nada, senão ouviam-se os bombeiros'. Inocência. Fecharam os olhos e aconchegaram-se, a humidade descia pelos seus peitos e eriçava-lhes os mamilos. 

Ela abriu os olhos e tornou 'parece que está mesmo fumo', e ele, 'sim, cheira a queimado, é melhor ir ver o que é'. Ia a pôr o pé no chão, mas ela ultrapassou-o num salto a gritar 'ai a surpresa'. Correu para a cozinha apalpando as paredes entre a fumaça, abriu o forno e do arroz de pato restavam apenas uns torresmos em brasa. Teve que ser de exaustor e extintor.

O amor não se apagou e na verdade a investigação como se previa foi curta e levou a sorrisos e risos. A culpa fora do calor e do tempo, mas do calor do forno dela e do tempo que o facho dele o mantivera aceso.

Queimou-se o pato, foram ao chinês.

06 janeiro, 2020

Como será o mar sem os meus olhos

Ando destruído num inverno sem vento de ranger arrastado. A penumbra embala o dia como um frasco de mel escorre líquido virginal por uma colina sem tom. O verde do meu pecado armadilhou-se e então, assim penetra fundo no meu olhar seguindo a fenda do Olimpo. Naufrago nas nuvens corretas. Incenso. Onda após onda, queimo corações como um fio de navalha.

Sem fim, que existirá se não penso na fome traiçoeira do peixe engalanado. Serão só escamas de prazer? Deitada ao meu lado vi-te sofrer, mas sou eu que te consumo no meu dia de dobrar de espinha em equilíbrio numa foice que evitou a morte. Frugal.

Antes o ramo que flutua sorridente entre os dentes sem cor do que o ser que mergulha pés em sal e água. Sigo o caminho que arde de novo nas unhas retorcidas do fogo baço do céu em flor. Então, amemos-nos sem fim, porque na vida cegam gaivotas de sono sem se despedirem do astro.

Sem querer a fome do medo que junta as faces coradas e deixa entreabertos os lábios vermelhos do teu sangue, exangue, parto para o fim, para a alcateia que uiva na espuma.

Frase do título: O Anjo Mudo, Al Berto


23 dezembro, 2019

Tesouro de Natal

As crianças procuravam o tesouro. Ele era maiorzito e ela mais novita. Todos os natais era o mesmo desassossego. Um deles lembrava-se, vamos ver dos presentes, e  remexiam toda a casa, até os cantos mais escuros que passavam despercebidos ou criavam medos o resto do ano. 
Demoravam-se num armário que havia no quarto dos pais, por cima do roupeiro da parede. Ele ia buscar um banco à cozinha e equilibrava-se e esticava-se e remexia, remexia e tentava ver bem lá no fundo, mas dizia não está aqui nada. Ela não acreditava e queria ver também. O irmão segurava-a, mas a miúda não chegava lá e zangava-se quando ele a puxava para baixo.
Abriam o roupeiro e viam debaixo da cama. Nada. Cada vez mais desconsolados, começavam a pensar que naquele ano não havia presentes, mas não desistiam e espiolhavam tudo, por cima dos móveis, por baixo das camas, abriam e fechavam gavetas e até arriscavam o frio da varanda para ir espreitar debaixo do tanque.  Acabavam por desistir, mas ela dizia não viste bem no armário, e ele, vi,vi, mas ia fazer uma segunda tentativa com ela à espreita. Nada.
Olhavam com desconfiança os pais, mas portavam-se muito bem e de vez em quando perguntavam à mãe, lembras-te dos presentes do acion man e da boneca e ela dizia já disse ao Menino Jesus e ele não se esquece, diz que traz, mas primeiro vai ver se vocês se portaram bem. E aí eles ficavam com medo pois nenhuma criança se porta sempre bem e eles bem o sabiam.
A pinheiro de Natal não tinha luzinhas, tinha umas fitas grinaldas brilhantes que pareciam uns cachecóis que se enrolavam nas ramagens. Pendurava-se também umas bolas às cores e completava-se o arranjo com um anjinho de braços abertos a meio e uma estrela em equilíbrio no topo. Era a Estrela de Natal.
Numa mesinha abria-se um presépio de figuras de barro. A Nossa Senhora tinha um manto azul e o José, barbas e um cajado. O Menino Jesus deitado numa cama de palhinhas tinha um pano à cintura. Eram protegidos por um telheiro onde cabiam ainda o burro e a vaca da tradição. Fazia-se um caminho entre o musgo para os Três Reis Magos, imponentes nos seus camelos, e uns pastores com um cão e um rebanho de ovelhas branquinhas ajoelhavam-se em adoração ao menino. O presépio era bem bonito, mas ao longo dos anos algumas figuras iam-se partindo. Os irmãos gostavam de brincar com as peças e de vez em quando perdia-se uma ovelha e um dia quebraram a cabeça e o cajado do José, mas o pai colou e ficou bem na mesma. 
Depois era a noite de Natal. Eles olhavam para o sítio das prendas que era junto do presépio e continuava vazio. Ao jantar era um alvoroço, não queriam comer e a pergunta repetia-se quando vem o Menino Jesus, e os pais bem tentavam acalmá-los e diziam que o Menino Jesus nunca se esquecia, mas tinha que se esperar pela manhã. Os petizes não se queriam deitar, nem adormecer e só o faziam quando os olhos já não podiam de sono. Acordavam cedo. Era Dia de Natal. O primeiro ia chamar o outro e corriam a acordar os pais e perguntavam numa algazarra, o Menino Jesus sempre veio, eu não ouvi nada, eu também não, vamos ver? A mãe e o pai depois de um beijinho diziam vão lá ver vá.
E depois de tanta dúvida e tanta inquietação lá estavam os embrulhos coloridos a rodear o presépio e eles, excitados e felizes, não se calavam até abrir tudo e começar a brincar com os brinquedos novos, naquele dia há tanto tempo desejado.

03 dezembro, 2019

O tempo corre passo a passo

São quinze. Há uma rapariga que sabe tudo, há alguns que sabem muito, há outros que sabem mais ou menos que o suficiente e há um rapaz que não sabe nada. Esperam à porta pelo exame que começa às nove em ponto. 

A rapariga está aborrecida e impaciente, o tempo move-se lentamente, a porta da sala não abre e está cansada de rever os apontamentos. O rapaz olha o relógio minuto a minuto, para ele o tempo voa, preferia que a porta não se abrisse. Faz uma pergunta idiota à rapariga  e ela que o conhece bem, mais para passar o tempo do que para outra coisa, responde ao infeliz que não fixa nada da resposta. Afinal o tempo para saber já passou e se um o aproveitou para estudar o outro não o aproveitou, não interessa porquê.

É tão estranho este passar do tempo. Quando não se sente, parece que nada se fez, mas não é verdade, ficam os indícios. Por outro lado, quando se alonga no relógio, poucos indícios deixa .

Chega um a correr, afinal são dezasseis. É dos que sabe quase tudo. Se ali já estivesse, estaria impaciente com o vagar do tempo, mas perdera o autocarro. O seu tempo acelerara, mas o do autocarro mantivera-se estável entre os semáforos e o trânsito matinal e parou na paragem à hora que lhe era destinada. O jovem corre. Cheio de adrenalina e ansiedade, fica desiludido por a porta ainda estar fechada. Vicissitudes.

Entram dez minutos antes do exame. Secretária sim secretária não está um envelope com a prova. A professora diz calmamente, vão-se sentando nas mesas onde estão os envelopes... só os podem abrir quando disser... têm todos caneta? É uma professora simpática. Dentro do envelope têm duas folhas para rascunho... escrevam logo o vosso nome no cabeçalho para depois não se esquecerem. 

A rapariga senta-se na fila da frente. Pousa a caneta na mesa do seu lado direito e aguarda. Está concentrada, mas o tempo teima vagaroso, quer passar o saber à folha. No coração é diferente, tudo está acelerado, não acalma num dia destes.

O rapaz foge para a fila de trás. Para ele também o tempo não passa agora, quer livrar-se da angústia de não saber. Revira os bolsos até encontrar a caneta que começa a roer. Também o seu coração está oprimido.

A campainha toca e o relógio aponta nove horas. A professora diz podem começar e abrem-se os envelopes. Tira um livro de notas da mala. Sabe bem que tem que ter atenção à sala, por causa dos pedidos de apoio e dos eventuais copianços. Mas é experiente no multitasking que lhe permite duplicar ou triplicar o tempo, quando este se arrasta ou urge.

A rapariga passa os olhos pelo teste que são três folhas, a última só uma página. Lê e relê as perguntas porque sabe que é importante e confiante ataca a primeira, como se o tempo fosse uma constante. De vez em quando, este dá um pequeno salto em frente quando lhe surge alguma dúvida. Mas é só isso.

O rapaz vê uma tabela na 3ª página e começa por aí. As perguntas de sim ou não são rápidas e sabe que alguma há-se acertar, mas logo se apercebe que a ignorância é grande e a partir daí o tempo não tem dó, adianta-se a si próprio. Salta de pergunta em pergunta e pouco escreve e o que escreve é o que lhe passa pela cabeça. Pensa que lá pelo meio há-de acertar alguma coisa. De minuto a minuto olha o relógio da parede. Acaba o teste numa hora e nem o relê com medo do que fez. Fica angustiado à espera que passe o resto do tempo, que agora o castiga com lentidão.

A rapariga acorda do transe quando a professora anuncia que falta meia hora para o final. Esqueceu-se da sua regra número um, controlar o tempo. Preenche rapidamente a matriz, que deixara para o fim. Está consciente que poderá perder aí alguns pontos, mas é obrigatório reler o que escreveu e tem quinze minutos para o fazer. O tempo agora não estica, passa a correr e só revê metade das páginas.

O relógio na parede anuncia a campainha que toca e a professora recolhe os testes, bendizendo o fim daquela hora e meia quase perdida. Dois ou três deles não tinham escrito os cabeçalhos, há sempre quem viva num tempo à parte.

Ela sai insegura do que fez e vai confirmar com os colegas as respostas. Se ao menos tivesse tido mais tempo.

Ele sai seguro do que não fez. Se ao menos tivesse tido mais tempo... mas já entrou noutra escala, sai a correr, os amigos estão à espera para irem à praia .

20 novembro, 2019

As botas Reais de Alcobaça


Recorro de novo ao livro Fotografias de Lisboa, de Alberto Pimentel, e aos episódios insólitos e curiosos que nele nos apresenta. Este é um trecho do texto "Os burgaus", ou seja, os calhaus:

"Ignorava decerto o leitor ser costume que, indo os reis de Portugal em visitação ao mosteiro de Alcobaça, lhes dessem os monges, reconhecidos à concessão do padroado real, um par de botas ou sapatos à escolha dos sereníssemos hóspedes.

D. Afonso III reconheceu, porém, que era pesado o encargo, e absolveu da obrigação os monges pela carta seguinte:

Saibam todos os que virem a presente carta, que eu, Afonso, rei de Portugal e do Algarve, prometo, ordeno e concedo que doravante não pedirei nem exigirei ao mosteiro de Alcobaça botas, balegões, nem sapatos, como até aqui exigi; (…) e tenha a maldição de Deus e a minha aquele que dizer o contrário.

Dada em Lisboa, por ordem do rei, aos 3 de Novembro de 1314."

Vou contextualizar valendo-me das palavras de Frei Manuel dos Santos, cronista-mor do reino no Séc XVIII. D. Afonso Henriques, muito bem alcunhado de "O Conquistador", combateu os mouros em Santarém e apesar da grande inferioridade numérica conquistou a cidade. Tendo apelado ao apoio divino, como era costume na época, o Rei fizera um voto que se a vitória lhe sorrisse mandaria erguer um mosteiro no vale do Bom Jesus do Monte, e assim o fez, o atual Mosteiro de Alcobaça. Sempre próximos dos corações reais, os monges e abades do mosteiro foram beneficiados ao longo dos tempos por "grandes mercês em vida e grandes esmolas por morte".

Parece que os servos do mosteiro que iam a Lisboa em afazeres contavam aos monges que as ruas da cidade eram uma funesta combinação de lamas, calhaus e porcarias. Condoeram-se as almas religiosas das reais e gentis pessoas, que acreditavam andar muitas vezes descalços nas ruas da cidade para agradar ao povo e impuseram-se um foro. Sempre que o Rei fosse a Alcobaça seria presenteado com um par de sapatos ou botas à sua escolha. Dizia-se que era aí que se fazia o melhor calçado e de vez em quando lá ia o Rei visitar o mosteiro e trazer sapatos novos para si, à borla, e para a família também, a pagar ou não, isso não diz Frei Manuel.

Com o fim do foro o calçado de Alcobaça nunca mais foi o mesmo, mas conta o cronista que o neto do Rei, o ainda príncipe Afonso, que viria a ser o IV, andava pela cidade a sonhar com a sapataria do convento. O mito consolidou-se e passados uns bons séculos Dom João IV de visita a Alcobaça e provavelmente em tom de reinação real, lembrou a história dos sapatos aos frades que fizeram orelhas moucas. O Nobre Rei de lá saiu calçado como chegou. 

Portugal sempre foi famoso pelos seus sapatos, de bom preço e qualidade. Eu não me queixo, sempre me calcei por cá e embora nunca fosse a Alcobaça considero que tenho sido bem servido. Também já ouvi dizer, certamente por más línguas, ter havido quem em passeio por Itália se calçasse, país bem mais conceituado na indústria da moda, e só depois reparasse com dó na carteira na etiqueta Made in Portugal. 




27 outubro, 2019

A raiva do rio (revista em "r")

Os restos dos rastos dos regatos renovam a reduzida ribeira que revive no regueiro e renascida num rebento reflecte receosos respingos roçando os ramos risonhos e ri.
Resoluto o rio ressurge e retumbante ronca de raiva rebenta rochedos e rasga raízes repartindo a rigidez das ribas, mas repleto radiante e relaxado reclama o Mar.


17 outubro, 2019

O corredor faz uma curva, mas porquê, se o certo é seguir em frente?

Manhãs cinzentas já se escapam a noites frias. O tempo gira eternamente no presente, sem novidade. Passaram os dias das chamas. Agora caem as folhas. O céu cinzento escurece mais esta nuvem que não nos larga, mas que trará a chuva, fonte de vida e prenúncio de renascimento, que faz pensar noutros, noutros tempos, como se tal existisse, como se o mundo não rodasse e o ciclo se repetisse.
Felicidades ficaram pelo caminho, também agruras. Será de fazer balanços? Será que é assim que se mede o valor de uma vida, numa balança entre agruras e felicidades, ou será que se a mede como uma maratona em que começamos frescos e a meio estamos cansados e sabemos porquê, porque nos vemos ao espelho com vinte anos e na rua chamam-nos senhora ou senhor. E a vida que tentámos aproveitar e que temos a certeza que por vezes falhámos, mesmo sabendo que se corrêssemos para trás faríamos tudo igual, porque só a entendemos dessa maneira.
Quando tanto fizemos para não a gastar antes do tempo e chega aquele momento em que pensamos que já sabemos tudo porque o corredor faz uma curva, mas porquê, se o certo é seguir em frente?
Como distinguir os quatro sabores se já os experimentámos tanto? Também aqueles desenhos, aquelas fotos que nos mostram todas as voltas do nosso cérebro, como sabemos por aonde ir, porque a vida não nos ensinou as voltas do cérebro e para onde vai dar cada uma. Rimos e choramos nessas voltas e depois não sabemos quais foram e a tristeza é saber que existem e não sabemos como voltar a cada uma. Temos tanto para aprender, a cabeça cheia de saber e vazia de não querer. Os olhos traem-nos a qualquer momento, continuamos a não ver de noite e a não poder olhar o sol. A água sente-se por fora, mas o sangue não se sente por dentro. O saber demais da vida é dor.

Bem-aventurados os pobres de espírito, pois deles é o Reino dos Céus. Mateus 5:10


29 setembro, 2019

Os espaldares do Parlamento

Alberto Pimentel foi um prolífico escritor portuense do séc XIX que dedicou algumas das suas obras à capital. Detentor de um humor requintado, reporto aqui um curto trecho do seu Fotografias de Lisboa, de 1874. O texto, sobre o Parlamento, é um mimo e cai bem neste período de campanha eleitoral.

"Fui esta manhã ver as duas salas do Parlamento, das quais uma – a da Câmara dos Pares – excede tudo o que se possa esperar de opulência naquele recinto. Está-se ali tão bem que se deve adormecer por lá! Razão têm os dignos pares para dormirem há tantos anos.

Na Câmara dos Deputados o assento é menos cómodo, o espaldar menos macio. O corpo deve agitar-se constantemente, à procura de posição agradável: daí o mau humor, o falar, o ralhar muito. E há que tempos se anda a ralhar no Parlamento, sendo certo que com mais razão poderíamos nós ralhar do Parlamento." 

Era o período da Monarquia Constitucional, que subsistiu do 1º quartel da séc. XIX até à Instauração da República. O Parlamento possuía duas Câmaras, a Alta, Câmara dos Digníssimos Pares do Reino (o nome diz tudo) e a Baixa, Câmara dos Senhores Deputados da Nação Portugueza (o nome diz tudo). O número de representantes e os processos eleitorais sofreram várias alterações ao longo dos 90 anos que o sistema funcionou, mas basicamente os Pares pertenciam à Nobreza e ao Clero e os Deputados tinham que ter um avantajado rendimento líquido anual.

Nos dias de hoje, a nossa Assembleia, republicana e laica, só tem uma câmara, aquela que nós conhecemos do Canal Parlamento, e os deputados são eleitos por sufrágio universal entre os políticos e outros menos políticos. É assim mais equilibrada, mas acredito que os assentos e espaldares pouco fiquem a dever aos da Excelentíssima Câmara dos Pares e como sabemos pelos bytes mediáticos, ralhetes é o que lá não falta. 

Mas tal como os roncos que entram e saem pela boca, ou vice-versa, também os ralhetes tendem a entrar por um ouvido e sair pelo outro, ou vice-versa. 

Bem hajam e não se esqueçam de ir votar. 

Foto: parede do hall de entrada dos visitantes ao edifício

08 setembro, 2019

Os emigrantes pt6 - A partida

Começam a partir aos poucos. Levam chouriços, garrafões de vinho da terra, que esse é que é do bom, e alguns um presunto rijo e salgado, que os pais andaram a curar o ano inteiro e que é uma bênção dos Céus. 

Chegou a vez do Quim, que tem uma viagem de mil e tal quilómetros pela frente. Leva uma grade no tejadilho cheia de coisas da terra, até um saco com laranjas, que ali não são muito doces, mas mesmo assim são melhores que as de lá e é quando as há. Alguns amigos vêm despedir-se. Do padrinho já se despediu ontem. A família chora, a mãe, a mulher. Os jovens e os pequenitos beijam os avós, que às escondidas lhes dão dez escudos e dizem toma é para comeres um gelado e aconchegam-nos no peito. Querem que os netos gostem deles como eles gostam dos netos, mas os miúdos levam poucas recordações, já só pensam nas escolas e nos namoros donde nasceram.

A mãe não larga o Quim e a nora soluçando Nosso Senhor vos dê muita saúde, e o Quim sossega-a, ó mãe não tarda já estamos aí outra vez, e o pai seco, a suster o lacrimejo porque um homem não chora, puxa-o e abraça-o, boa viagem Quim, volta depressa, vem ver os velhotes! Saúde por cá meu pai, voltaremos sim. Entram finalmente no carro e ficam a dizer adeus uns aos outros enquanto não passam a ponte da ribeira e entram na estrada alcatroada, onde a primeira curva corta a vista. 

A Rosarinho do João Maria desfaz-se em lágrimas agarrada aos filhos, porque entretanto chegou a "carta de chamada" da França, para o passaporte de emigrante, enviada por um sócio do primo. A vizinha diz-lhe, não chores, o meu também por lá anda todo contente, palavras que não valem nada, bem ela sabe o que passou quando ele foi pela primeira vez. Ao ver o carro do primo a afastar-se, a Rosarinho aperta mais os filhos e agora todos choram, para onde vai o pai? pergunta o mais pequeno. Ela só pensa, para onde irá o meu homem? Deixa-me aqui, nesta escuridão, nesta terra perdida, poeirenta, acabada. Ele não olha para trás.

Com as idas parece que o verão vai acabando e o nevoeiro do outono se instala.Os velhos parece que ficam mais velhos na sua solidão. Têm conversa para algum tempo, mas depois é esperar ansiosamente por uma carta, que chamam o primo para ler, ou uma chamada para o posto público.

Chegou o inverno. As mulheres e os homens da aldeia rezam e repetem promessas à Virgem, cada um à sua maneira, para que os filhos e a família que andam emigrados estejam bem de saúde e que nada lhes falte, que isso é que é importante, se Deus quiser. 

As saudades são muitas e apertam o peito que doí até correrem lágrimas, mas alguns virão pelo Natal, um raio de sol na chuva fria.

06 setembro, 2019

Os emigrantes pt5 - A Procissão

Naqueles dias da Festa de Nossa Senhora a Igreja é de todos. O padre anda no rodopio das missas e às vezes encafua a encomenda de três ou quatro almas na mesma celebração. Aproveita para dizer que a casa precisa de obras, mas todos sabem que naquela terra de gente pobre a paróquia é rica, graças a Deus os que andam lá fora fazem gala disso, por isso as palavras do padre não caem em saco roto. O cesto das esmolas passa cheio e os que se confessaram, quando a liturgia condena os pecadores sentem-se comprometidos e arrependidos de não ter deixado um pouco mais nas esmolas. Mas quem não peca nesta vida?

A procissão da Virgem sai da capela de seu nome, Capela da Ribeira da Virgem, que naqueles dias brilha por dentro e foi pintada por fora. Conta-se que dois trabalhadores do campo, nos idos dos tempos, ouviram uma música muito bela como a dos anjos e foram conduzidos a uma ribeira, onde a Virgem de pé nas águas os abençoou. O milagre deu início à procissão e passados uns anos, um proprietário muito rico desviou a ribeira a montante e assoreou as terras onde mandou construir a capela. Provou-se que fora mesmo um milagre, pois nem nos anos das maiores chuvadas a ribeira voltou ao leito e inundou a capela, graças a Deus e a Nossa Senhora.

A procissão é pela hora do calor e de manhã as famílias visitam o cemitério. Algumas dizem aos miúdos para não entrarem, mas alguns entram, alguns com muito medo, principalmente os que nasceram ou cresceram lá fora e que nunca viram os sítios onde os mortos se deitam. Limpam-se as campas, mudam-se as flores e reza-se e chora-se. Houve quem partisse e não voltasse a tempo de rever o pai ou a mulher e que recebesse a notícia por telegrama - O teu pai morreu - só assim porque cada letra é cara, e só agora possa fazer o luto da despedida. O coveiro vai recebendo uns tostões à parte e promete que vai limpar e cuidar bem desta ou daquela campa, mas para ele, rapaz novo que mal os conheceu em pessoas, os mortos são todos iguais, são ossos.

Duas horas antes da procissão a Capela da Virgem está cheia. O Padre conduz a última liturgia e todos são abençoados. Ouvem-se choros, de quem se lembra da realidade da vida e fazem-se já promessas para o próximo ano. O incenso é aceso e o padre balança o turíbulo deixando uma áurea do sagrado na capela e também alguma tosse. O Corpo e o Sangue são repartidos e todos os que se sentem em paz com a sua alma comungam. A cerimónia acaba e sai-se ordeiramente e em silêncio e espera-se cá fora pela saída da Santa, enquanto o padre no interior e os apalavrados bem como aquelas mulheres da aldeia do seu trato e  algumas de fora que têm essa honra, dão os últimos jeitos no palanque e nas vestes da imagem da Virgem.

A imagem de Nossa Senhora é enorme. Os quatro homens que seguram o palanque custam a sustenta-lo. São homens de promessas, alguns vão descalços e há quem vá de joelhos pelo meio do chão arenoso e poeirento. Cada um encara a fé à sua maneira, mas o caminho é longo, da capela da ribeira à igreja e volta. 

Não se parte logo. O palanque é assente no chão e o manto da Virgem vai-se cobrindo de notas. Os devotos aproximam-se ou mandam um pequeno prender com um alfinete uma nota de 20 ou 50 escudos. Também há algumas de 100 e lá no meio uma de 500 salta à vista de todos, principalmente dos que passam um ano sem receber isso. Talvez seja de alguém da Suiça ou do Luxemburgo, onde se diz que se ganha muito mais que em Paris ou Frankfurte. Na verdade a vida é dura em todo o sítio e também os da aldeia pagam o que devem à Senhora, com uma nota de 20 escudos ou umas moedas no cesto das esmolas, porque é preciso não esquecer os tempos de fome. Mas agora não é para pensar nisso, é um dia santo.

Saída da capela a procissão alonga-se e o padre, à sombra de um pendor levado por quatro almas, vai repetindo uma ladainha e abençoando os que vê ao passar, que descobrem a cabeça e se benzem. As mulheres não descobrem a cabeça, todas elas a cobrem com um lenço e assim o farão ainda muitos anos. A procissão chega à igreja da aldeia e no átrio para-se e reza-se um terço e segue-se de novo para a Capela da Ribeira da Virgem. Pelo caminho há quem se sinta mal e tenha que largar a procissão, mas sente mais a vergonha e o receio do futuro por não a ter acabado do que a dor que lhe tolhe os membros. 

Volta-se às casas com um sentido de dever cumprido, de promessas pagas e com a Festa terminada.

Pt1 - A saudade
Pt2 - A chegada
Pt3 - As férias
Pt4 - A Festa

04 setembro, 2019

Os emigrantes pt4 - A Festa

Entretanto chegam os dias da Festa de Nossa Senhora. A Igreja e a Associação das Festas assumem os comandos. A primeira encarrega-se das devoções, o padre não tem paz, enchem-se as horas de missas, encomendam-se as almas, há casamentos, baptizados e se há um funeral naquela altura é ainda mais triste, e não nos podemos esquecer da Procissão da Virgem, que para a Igreja é o ponto alto dos festejos.

A segunda toma a seu cargo o engalanar da aldeia, a feira que também é de gado, as brincadeiras, a corrida dos burros e a dos tabuleiros, o jogo entre solteiros e casados e o mais importante, o baile, sem esquecer os foguetes. Em conjunto providenciam para que nada falte naquela semana entre o religioso e o profano. 

Na feira os tendeiros vendem bugiganga e ninharias, talheres, pratos de latão e púcaros, brinquedos de madeira, enxadas, cabrestos para o gado que já enche o vale. Há os que vendem roupa, porque aparece sempre um homem que compra umas calças ou uma camisa, ou uma mulher, das que têm máquina de costura, que compra um corte de tecido. É também por esses dias que se compram chinelos para a miudagem, que os irão depois ferrar na ferraria. Também há uma senhora numa camionete a gritar num megafone, que oferece isto, mais isto, mais isto, pelo preço só disto. 

Os homens estão numa taberna de tábuas, à entrada da feira, e começam nos copos logo de manhã. Contam-se anedotas e histórias e vem sempre à baila a do Zé Canhoto, que por escrever ao contrário a professora dizia que era burro e castigava-o com reguadas. Ora o pobre do Zé vendera um burro velho aos ciganos e comprara-o de volta tosquiado e só percebeu quando chegou a casa e disse à mulher, este não é burro é esperto, já sabe o caminho de casa e a mulher chamou-lhe todos os nomes. É uma galhofa na taberna , mesmo já sabendo a história de cor. Ninguém sabe se foi verdade, mas é como as bruxas, que as há, há, e bebe-se mais um copo. Os tendeiros trouxeram este ano uma novidade, corridas de furões e os homens apostam enquanto as mulheres vão às rifas com os miúdos. 

Os burros vêm de novo à baila, faz-se uma corrida e o vencedor ganha o direito da moça dos seus olhos usar a sua fita no baile, se os pais deixarem. Nem sempre deixam e elas ás vezes não gostam, porque o seu coração inclina-se para outro, mas já tinham feito uma corrida com um bolo à cabeça e entre risos, também elas deram a comer do seu bolo ao escolhido, por isso a coisa estava mais ou menos apalavrada. 

No jogo dos solteiros e casados, os que se safam são os guarda-redes, porque os outros pouco conseguem correr quanto mais acertar na baliza. Mas há um moço que joga na regional e lá marcou três golitos aos casados que bufavam, seria da barriga? Ainda conseguem marcar um golo e é festa como se tivessem ganhado.

Entretanto fazem-se amizades entre os mais novos. Os que vêm de fora mostram os rádios com cassetes, as calças de ganga, as sapatilhas com sola de catchu. Os da terra olham com inveja. Os meninos das franças também distribuem beijos pelas moças da aldeia, com quem todas sonham entre juras de amor, para as tirar dali e ver outros mundos. Ás vezes fala-se de gravidezes, que só se notam depois da partida deles, mas aí é uma questão de honra, um código que as famílias têm que seguir, os homens chegam-se à frente, o rapaz tirou-lhe a mocidade tem que casar, nem que seja por procuração. E assim se faz, muitos deles voltam já os filhos deixaram a mama e vêm bem a mulher pela primeira vez. As meninas francesas não, seguem os conselhos das mães, não ligam para os rapazes de terra que andam de boina e de camisa coçada, mas há sempre uma mais afoita que dança com todos no baile e com quem todos querem dançar. 

E é à noite que a Festa ganha essa alma, com as três noites de bailarico ao som da concertina ou no dia grande ao som de uns que vêm da cidade e tocam guitarras e pífaros. A música é igual todos os anos não que isso seja importante, os pares dançam toda a noite, pagaram o bilhete para entrar e dançar e não é sempre que se podem encostar. Há quem pague o bilhete só para entrar, que é mais barato e que só dá para sentar nas mesas em volta. É mais as mães para vigiar os dançarinos, que quando querem namoriscar empurram-se uns para o meio dos outros. Os homens bebem e comem petiscos e não querem saber disso, é coisa para as mulheres verem.

Mais ou menos a meio da noite apanham um susto. O fogueteiro lança os foguetes. São canas com um pacote de pólvora atado e um rastilho. O homem segura a cana com uma mão e com a outra um cigarro e entre passas vai dando fogo aos rastilhos. A foguete sobe e estoura e todos acham bonito e os miúdos vão à procura das canas, é como um troféu. De madrugada a fanfarra percorre a aldeia a acordar os dorminhocos, porque não são dias para sonos. 

E assim se passam os dias da Festa de Nossa Senhora. Sabemos que os dias de alegria passam sempre mais rápido, mas também ficam as recordações e os homens e as mulheres que vieram e os de cá são capazes de dizer, lembras-te da festa, acho que foi em 63, foi sim, o ano que veio cá o Armando, que o Matias caiu do burro. Todos se riem, porque a primeira razão, há quem diga que é a única, que leva ao riso é o ridículo.

pt1 - A saudade
pt2 - A chegada
pt3 - As férias