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23 fevereiro, 2020

Há ouro no Tejo


Digo que o Tejo é rico em ouro, mas antevejo  algumas reticências sendo nós portugueses deveras crentes e desconfiados.

Diz-nos frei Nicolau de Oliveira, no Livro das Grandezas de Lisboa, datado de 1620:

 “(...) A segunda excelência [do Tejo] é de suas areias de ouro, de que, como acima fica dito, é mais abundante que abundante que todos os outros, como se vê em Plínio, livro terceiro, capítulo quarto, e não há que espantar que ainda hoje vemos resplandecer em suas areias muitas arestas e folhinhas de ouro, e tão fino, e tão puro que, querendo el-rei D. João o terceiro lhe fizessem um ceptro, mandou que lhe buscassem o ouro nas areias do Tejo, do qual se fez um, que os reis têm agora na mão, quando os coroam, ou fazem Cortes, e se guarda em o tesouro de Lisboa."

Plínio, o Jovem, filho de Plínio, o Velho, ficou para a história devido às mais de 700 epístolas que enviou ao Imperador Trajano  (séculos I e II da nossa era), curiosamente nascido na província romana da Hispânia Bética, cuja fronteira ladeava o nosso Guadiana.  As cartas, posteriormente agrupadas em livros, relatavam o quotidiano das gentes de Império e nelas se fez menção, pela primeira vez, ao emergente Cristianismo. 

Ora acreditamos que a riqueza de ouro no Tejo terá despertado a curiosidade do Imperador. Também despertou a dos Mouros que o exploraram, mas tal era a sua abundância que no século XVI, El-Rei D. João III, o Piedoso, fez moldar das folhas puras das minas de Almada, topónimo que significa "a mina, mineral ou metal", um ceptro real.

Situadas algures nas antigas terras da Adiça, Fonte da Telha, só fecharam as portas no século XIX,  não por falta do metal precioso, mas por falta de financiamento para uma escavação mais intensiva. O ouro anda por lá.

Não nado no Tejo nem por ele navego, mas nos dias de Sol, talvez a bordo de um cacilheiro, irei estar atento ao brilhar do ouro, num rio que sempre pensei ser de prata.

20 novembro, 2019

As botas Reais de Alcobaça


Recorro de novo ao livro Fotografias de Lisboa, de Alberto Pimentel, e aos episódios insólitos e curiosos que nele nos apresenta. Este é um trecho do texto "Os burgaus", ou seja, os calhaus:

"Ignorava decerto o leitor ser costume que, indo os reis de Portugal em visitação ao mosteiro de Alcobaça, lhes dessem os monges, reconhecidos à concessão do padroado real, um par de botas ou sapatos à escolha dos sereníssemos hóspedes.

D. Afonso III reconheceu, porém, que era pesado o encargo, e absolveu da obrigação os monges pela carta seguinte:

Saibam todos os que virem a presente carta, que eu, Afonso, rei de Portugal e do Algarve, prometo, ordeno e concedo que doravante não pedirei nem exigirei ao mosteiro de Alcobaça botas, balegões, nem sapatos, como até aqui exigi; (…) e tenha a maldição de Deus e a minha aquele que dizer o contrário.

Dada em Lisboa, por ordem do rei, aos 3 de Novembro de 1314."

Vou contextualizar valendo-me das palavras de Frei Manuel dos Santos, cronista-mor do reino no Séc XVIII. D. Afonso Henriques, muito bem alcunhado de "O Conquistador", combateu os mouros em Santarém e apesar da grande inferioridade numérica conquistou a cidade. Tendo apelado ao apoio divino, como era costume na época, o Rei fizera um voto que se a vitória lhe sorrisse mandaria erguer um mosteiro no vale do Bom Jesus do Monte, e assim o fez, o atual Mosteiro de Alcobaça. Sempre próximos dos corações reais, os monges e abades do mosteiro foram beneficiados ao longo dos tempos por "grandes mercês em vida e grandes esmolas por morte".

Parece que os servos do mosteiro que iam a Lisboa em afazeres contavam aos monges que as ruas da cidade eram uma funesta combinação de lamas, calhaus e porcarias. Condoeram-se as almas religiosas das reais e gentis pessoas, que acreditavam andar muitas vezes descalços nas ruas da cidade para agradar ao povo e impuseram-se um foro. Sempre que o Rei fosse a Alcobaça seria presenteado com um par de sapatos ou botas à sua escolha. Dizia-se que era aí que se fazia o melhor calçado e de vez em quando lá ia o Rei visitar o mosteiro e trazer sapatos novos para si, à borla, e para a família também, a pagar ou não, isso não diz Frei Manuel.

Com o fim do foro o calçado de Alcobaça nunca mais foi o mesmo, mas conta o cronista que o neto do Rei, o ainda príncipe Afonso, que viria a ser o IV, andava pela cidade a sonhar com a sapataria do convento. O mito consolidou-se e passados uns bons séculos Dom João IV de visita a Alcobaça e provavelmente em tom de reinação real, lembrou a história dos sapatos aos frades que fizeram orelhas moucas. O Nobre Rei de lá saiu calçado como chegou. 

Portugal sempre foi famoso pelos seus sapatos, de bom preço e qualidade. Eu não me queixo, sempre me calcei por cá e embora nunca fosse a Alcobaça considero que tenho sido bem servido. Também já ouvi dizer, certamente por más línguas, ter havido quem em passeio por Itália se calçasse, país bem mais conceituado na indústria da moda, e só depois reparasse com dó na carteira na etiqueta Made in Portugal. 




29 setembro, 2019

Os espaldares do Parlamento

Alberto Pimentel foi um prolífico escritor portuense do séc XIX que dedicou algumas das suas obras à capital. Detentor de um humor requintado, reporto aqui um curto trecho do seu Fotografias de Lisboa, de 1874. O texto, sobre o Parlamento, é um mimo e cai bem neste período de campanha eleitoral.

"Fui esta manhã ver as duas salas do Parlamento, das quais uma – a da Câmara dos Pares – excede tudo o que se possa esperar de opulência naquele recinto. Está-se ali tão bem que se deve adormecer por lá! Razão têm os dignos pares para dormirem há tantos anos.

Na Câmara dos Deputados o assento é menos cómodo, o espaldar menos macio. O corpo deve agitar-se constantemente, à procura de posição agradável: daí o mau humor, o falar, o ralhar muito. E há que tempos se anda a ralhar no Parlamento, sendo certo que com mais razão poderíamos nós ralhar do Parlamento." 

Era o período da Monarquia Constitucional, que subsistiu do 1º quartel da séc. XIX até à Instauração da República. O Parlamento possuía duas Câmaras, a Alta, Câmara dos Digníssimos Pares do Reino (o nome diz tudo) e a Baixa, Câmara dos Senhores Deputados da Nação Portugueza (o nome diz tudo). O número de representantes e os processos eleitorais sofreram várias alterações ao longo dos 90 anos que o sistema funcionou, mas basicamente os Pares pertenciam à Nobreza e ao Clero e os Deputados tinham que ter um avantajado rendimento líquido anual.

Nos dias de hoje, a nossa Assembleia, republicana e laica, só tem uma câmara, aquela que nós conhecemos do Canal Parlamento, e os deputados são eleitos por sufrágio universal entre os políticos e outros menos políticos. É assim mais equilibrada, mas acredito que os assentos e espaldares pouco fiquem a dever aos da Excelentíssima Câmara dos Pares e como sabemos pelos bytes mediáticos, ralhetes é o que lá não falta. 

Mas tal como os roncos que entram e saem pela boca, ou vice-versa, também os ralhetes tendem a entrar por um ouvido e sair pelo outro, ou vice-versa. 

Bem hajam e não se esqueçam de ir votar. 

Foto: parede do hall de entrada dos visitantes ao edifício

08 setembro, 2019

Os emigrantes pt6 - A partida

Começam a partir aos poucos. Levam chouriços, garrafões de vinho da terra, que esse é que é do bom, e alguns um presunto rijo e salgado, que os pais andaram a curar o ano inteiro e que é uma bênção dos Céus. 

Chegou a vez do Quim, que tem uma viagem de mil e tal quilómetros pela frente. Leva uma grade no tejadilho cheia de coisas da terra, até um saco com laranjas, que ali não são muito doces, mas mesmo assim são melhores que as de lá e é quando as há. Alguns amigos vêm despedir-se. Do padrinho já se despediu ontem. A família chora, a mãe, a mulher. Os jovens e os pequenitos beijam os avós, que às escondidas lhes dão dez escudos e dizem toma é para comeres um gelado e aconchegam-nos no peito. Querem que os netos gostem deles como eles gostam dos netos, mas os miúdos levam poucas recordações, já só pensam nas escolas e nos namoros donde nasceram.

A mãe não larga o Quim e a nora soluçando Nosso Senhor vos dê muita saúde, e o Quim sossega-a, ó mãe não tarda já estamos aí outra vez, e o pai seco, a suster o lacrimejo porque um homem não chora, puxa-o e abraça-o, boa viagem Quim, volta depressa, vem ver os velhotes! Saúde por cá meu pai, voltaremos sim. Entram finalmente no carro e ficam a dizer adeus uns aos outros enquanto não passam a ponte da ribeira e entram na estrada alcatroada, onde a primeira curva corta a vista. 

A Rosarinho do João Maria desfaz-se em lágrimas agarrada aos filhos, porque entretanto chegou a "carta de chamada" da França, para o passaporte de emigrante, enviada por um sócio do primo. A vizinha diz-lhe, não chores, o meu também por lá anda todo contente, palavras que não valem nada, bem ela sabe o que passou quando ele foi pela primeira vez. Ao ver o carro do primo a afastar-se, a Rosarinho aperta mais os filhos e agora todos choram, para onde vai o pai? pergunta o mais pequeno. Ela só pensa, para onde irá o meu homem? Deixa-me aqui, nesta escuridão, nesta terra perdida, poeirenta, acabada. Ele não olha para trás.

Com as idas parece que o verão vai acabando e o nevoeiro do outono se instala.Os velhos parece que ficam mais velhos na sua solidão. Têm conversa para algum tempo, mas depois é esperar ansiosamente por uma carta, que chamam o primo para ler, ou uma chamada para o posto público.

Chegou o inverno. As mulheres e os homens da aldeia rezam e repetem promessas à Virgem, cada um à sua maneira, para que os filhos e a família que andam emigrados estejam bem de saúde e que nada lhes falte, que isso é que é importante, se Deus quiser. 

As saudades são muitas e apertam o peito que doí até correrem lágrimas, mas alguns virão pelo Natal, um raio de sol na chuva fria.

06 setembro, 2019

Os emigrantes pt5 - A Procissão

Naqueles dias da Festa de Nossa Senhora a Igreja é de todos. O padre anda no rodopio das missas e às vezes encafua a encomenda de três ou quatro almas na mesma celebração. Aproveita para dizer que a casa precisa de obras, mas todos sabem que naquela terra de gente pobre a paróquia é rica, graças a Deus os que andam lá fora fazem gala disso, por isso as palavras do padre não caem em saco roto. O cesto das esmolas passa cheio e os que se confessaram, quando a liturgia condena os pecadores sentem-se comprometidos e arrependidos de não ter deixado um pouco mais nas esmolas. Mas quem não peca nesta vida?

A procissão da Virgem sai da capela de seu nome, Capela da Ribeira da Virgem, que naqueles dias brilha por dentro e foi pintada por fora. Conta-se que dois trabalhadores do campo, nos idos dos tempos, ouviram uma música muito bela como a dos anjos e foram conduzidos a uma ribeira, onde a Virgem de pé nas águas os abençoou. O milagre deu início à procissão e passados uns anos, um proprietário muito rico desviou a ribeira a montante e assoreou as terras onde mandou construir a capela. Provou-se que fora mesmo um milagre, pois nem nos anos das maiores chuvadas a ribeira voltou ao leito e inundou a capela, graças a Deus e a Nossa Senhora.

A procissão é pela hora do calor e de manhã as famílias visitam o cemitério. Algumas dizem aos miúdos para não entrarem, mas alguns entram, alguns com muito medo, principalmente os que nasceram ou cresceram lá fora e que nunca viram os sítios onde os mortos se deitam. Limpam-se as campas, mudam-se as flores e reza-se e chora-se. Houve quem partisse e não voltasse a tempo de rever o pai ou a mulher e que recebesse a notícia por telegrama - O teu pai morreu - só assim porque cada letra é cara, e só agora possa fazer o luto da despedida. O coveiro vai recebendo uns tostões à parte e promete que vai limpar e cuidar bem desta ou daquela campa, mas para ele, rapaz novo que mal os conheceu em pessoas, os mortos são todos iguais, são ossos.

Duas horas antes da procissão a Capela da Virgem está cheia. O Padre conduz a última liturgia e todos são abençoados. Ouvem-se choros, de quem se lembra da realidade da vida e fazem-se já promessas para o próximo ano. O incenso é aceso e o padre balança o turíbulo deixando uma áurea do sagrado na capela e também alguma tosse. O Corpo e o Sangue são repartidos e todos os que se sentem em paz com a sua alma comungam. A cerimónia acaba e sai-se ordeiramente e em silêncio e espera-se cá fora pela saída da Santa, enquanto o padre no interior e os apalavrados bem como aquelas mulheres da aldeia do seu trato e  algumas de fora que têm essa honra, dão os últimos jeitos no palanque e nas vestes da imagem da Virgem.

A imagem de Nossa Senhora é enorme. Os quatro homens que seguram o palanque custam a sustenta-lo. São homens de promessas, alguns vão descalços e há quem vá de joelhos pelo meio do chão arenoso e poeirento. Cada um encara a fé à sua maneira, mas o caminho é longo, da capela da ribeira à igreja e volta. 

Não se parte logo. O palanque é assente no chão e o manto da Virgem vai-se cobrindo de notas. Os devotos aproximam-se ou mandam um pequeno prender com um alfinete uma nota de 20 ou 50 escudos. Também há algumas de 100 e lá no meio uma de 500 salta à vista de todos, principalmente dos que passam um ano sem receber isso. Talvez seja de alguém da Suiça ou do Luxemburgo, onde se diz que se ganha muito mais que em Paris ou Frankfurte. Na verdade a vida é dura em todo o sítio e também os da aldeia pagam o que devem à Senhora, com uma nota de 20 escudos ou umas moedas no cesto das esmolas, porque é preciso não esquecer os tempos de fome. Mas agora não é para pensar nisso, é um dia santo.

Saída da capela a procissão alonga-se e o padre, à sombra de um pendor levado por quatro almas, vai repetindo uma ladainha e abençoando os que vê ao passar, que descobrem a cabeça e se benzem. As mulheres não descobrem a cabeça, todas elas a cobrem com um lenço e assim o farão ainda muitos anos. A procissão chega à igreja da aldeia e no átrio para-se e reza-se um terço e segue-se de novo para a Capela da Ribeira da Virgem. Pelo caminho há quem se sinta mal e tenha que largar a procissão, mas sente mais a vergonha e o receio do futuro por não a ter acabado do que a dor que lhe tolhe os membros. 

Volta-se às casas com um sentido de dever cumprido, de promessas pagas e com a Festa terminada.

Pt1 - A saudade
Pt2 - A chegada
Pt3 - As férias
Pt4 - A Festa

04 setembro, 2019

Os emigrantes pt4 - A Festa

Entretanto chegam os dias da Festa de Nossa Senhora. A Igreja e a Associação das Festas assumem os comandos. A primeira encarrega-se das devoções, o padre não tem paz, enchem-se as horas de missas, encomendam-se as almas, há casamentos, baptizados e se há um funeral naquela altura é ainda mais triste, e não nos podemos esquecer da Procissão da Virgem, que para a Igreja é o ponto alto dos festejos.

A segunda toma a seu cargo o engalanar da aldeia, a feira que também é de gado, as brincadeiras, a corrida dos burros e a dos tabuleiros, o jogo entre solteiros e casados e o mais importante, o baile, sem esquecer os foguetes. Em conjunto providenciam para que nada falte naquela semana entre o religioso e o profano. 

Na feira os tendeiros vendem bugiganga e ninharias, talheres, pratos de latão e púcaros, brinquedos de madeira, enxadas, cabrestos para o gado que já enche o vale. Há os que vendem roupa, porque aparece sempre um homem que compra umas calças ou uma camisa, ou uma mulher, das que têm máquina de costura, que compra um corte de tecido. É também por esses dias que se compram chinelos para a miudagem, que os irão depois ferrar na ferraria. Também há uma senhora numa camionete a gritar num megafone, que oferece isto, mais isto, mais isto, pelo preço só disto. 

Os homens estão numa taberna de tábuas, à entrada da feira, e começam nos copos logo de manhã. Contam-se anedotas e histórias e vem sempre à baila a do Zé Canhoto, que por escrever ao contrário a professora dizia que era burro e castigava-o com reguadas. Ora o pobre do Zé vendera um burro velho aos ciganos e comprara-o de volta tosquiado e só percebeu quando chegou a casa e disse à mulher, este não é burro é esperto, já sabe o caminho de casa e a mulher chamou-lhe todos os nomes. É uma galhofa na taberna , mesmo já sabendo a história de cor. Ninguém sabe se foi verdade, mas é como as bruxas, que as há, há, e bebe-se mais um copo. Os tendeiros trouxeram este ano uma novidade, corridas de furões e os homens apostam enquanto as mulheres vão às rifas com os miúdos. 

Os burros vêm de novo à baila, faz-se uma corrida e o vencedor ganha o direito da moça dos seus olhos usar a sua fita no baile, se os pais deixarem. Nem sempre deixam e elas ás vezes não gostam, porque o seu coração inclina-se para outro, mas já tinham feito uma corrida com um bolo à cabeça e entre risos, também elas deram a comer do seu bolo ao escolhido, por isso a coisa estava mais ou menos apalavrada. 

No jogo dos solteiros e casados, os que se safam são os guarda-redes, porque os outros pouco conseguem correr quanto mais acertar na baliza. Mas há um moço que joga na regional e lá marcou três golitos aos casados que bufavam, seria da barriga? Ainda conseguem marcar um golo e é festa como se tivessem ganhado.

Entretanto fazem-se amizades entre os mais novos. Os que vêm de fora mostram os rádios com cassetes, as calças de ganga, as sapatilhas com sola de catchu. Os da terra olham com inveja. Os meninos das franças também distribuem beijos pelas moças da aldeia, com quem todas sonham entre juras de amor, para as tirar dali e ver outros mundos. Ás vezes fala-se de gravidezes, que só se notam depois da partida deles, mas aí é uma questão de honra, um código que as famílias têm que seguir, os homens chegam-se à frente, o rapaz tirou-lhe a mocidade tem que casar, nem que seja por procuração. E assim se faz, muitos deles voltam já os filhos deixaram a mama e vêm bem a mulher pela primeira vez. As meninas francesas não, seguem os conselhos das mães, não ligam para os rapazes de terra que andam de boina e de camisa coçada, mas há sempre uma mais afoita que dança com todos no baile e com quem todos querem dançar. 

E é à noite que a Festa ganha essa alma, com as três noites de bailarico ao som da concertina ou no dia grande ao som de uns que vêm da cidade e tocam guitarras e pífaros. A música é igual todos os anos não que isso seja importante, os pares dançam toda a noite, pagaram o bilhete para entrar e dançar e não é sempre que se podem encostar. Há quem pague o bilhete só para entrar, que é mais barato e que só dá para sentar nas mesas em volta. É mais as mães para vigiar os dançarinos, que quando querem namoriscar empurram-se uns para o meio dos outros. Os homens bebem e comem petiscos e não querem saber disso, é coisa para as mulheres verem.

Mais ou menos a meio da noite apanham um susto. O fogueteiro lança os foguetes. São canas com um pacote de pólvora atado e um rastilho. O homem segura a cana com uma mão e com a outra um cigarro e entre passas vai dando fogo aos rastilhos. A foguete sobe e estoura e todos acham bonito e os miúdos vão à procura das canas, é como um troféu. De madrugada a fanfarra percorre a aldeia a acordar os dorminhocos, porque não são dias para sonos. 

E assim se passam os dias da Festa de Nossa Senhora. Sabemos que os dias de alegria passam sempre mais rápido, mas também ficam as recordações e os homens e as mulheres que vieram e os de cá são capazes de dizer, lembras-te da festa, acho que foi em 63, foi sim, o ano que veio cá o Armando, que o Matias caiu do burro. Todos se riem, porque a primeira razão, há quem diga que é a única, que leva ao riso é o ridículo.

pt1 - A saudade
pt2 - A chegada
pt3 - As férias 


02 setembro, 2019

Os emigrantes pt3 - As férias


Os homens reencontram-se. Bebem copos com os familiares e os amigos e adiam as querelas. Os de cá dizem porra pá, estás gordo como um bácoro, e um outro reforça, é só toucinho, já não sabes pegar na enxada. Picam o Quim "da Alemanha", pareces uma vara, as alemãs desgraçam-te! e ele rebate desde que a vara não murche, e entre gargalhadas conta pela centésima vez que as gajas são todas louras, mesmo por baixo e aponta, e que fazem em todo o lado, ele também já fez, até no meio de uma ponte do comboio. Ficaram à rasca das costas, manga o Manel da Lage, mas o "alemão" não se fica, eu não, fiquei sempre em cima, e a risota é geral. Este Quim gosta de pagar rodadas e de contar anedotas, é uma alegria.

Mas é homem sério, chegado às suas gentes e não se esqueceu de ir pedir a bênção ao seu padrinho de baptizado, beijar-lhe a mão e abraça-lo e receber as "amêndoas" da Festa, que tanto custou ao velho a juntar. Ia a dizer meu padrinho, não é preciso, mas arrependeu-se a meio caminho e ainda bem, o velho segura-lhe a cabeça entre as mãos e puxa-o para si. Com a lágrima ao canto do olho, porque os homens não choram, diz-lhe cuida da tua família Quim, a família é tudo, Deus vos dê saúde. O Quim promete e é promessa para cumprir, a família é o seu mundo, para isso funde ferro naquelas terras de gentes que não percebe. O trabalho é duro, mas graças a Deus é todo pago.

Revêm-se antigos amores, ela murmura, eu esperei por ti, tu não esperaste por mim, e ele não sabe o que dizer pois é a vida, tinha que continuar e responde tenho mulher e um filho, tu tens um homem que te ampara, e seguem caminho os dois tristes, mas um mais que o outro. O amor também existe, mas é como um filme, tão perto e tão longe e às vezes falha-se a sessão. Também os noivos se encontram e quando há casório na altura da Festa de Nossa Senhora, toda a aldeia festeja a dobrar.

Junta-se a família à lareira, as noites são sempre frias. Contam-se histórias de rebanhos e de lobos e também das terras que não dão nada, só ficámos os velhos, e a mãe continua com doçura o teu pai quebra as costas na terra, mata-se, na esperança que o filho diga e diz ó pai, já não precisa de se matar a trabalhar, pare um bocadinho, tem que se poupar e tomar conta da mãe, mas o velho de sobrolho carregado responde, ainda sei da minha vida, sei bem o que fazer, e mais à noite ralha com palavras brutas enquanto ela se encolhe na cama, ainda tenho duas mãos para trabalhar! Orgulho de velho.

Fala-se também dos que tiveram que fugir, dos que foram a salto em grupos ou sozinhos pela raia como contrabandistas, com uma sacola ao ombro por vales e montes, caçados pela Guarda deste lado e recebidos a tiro pela Guardia do outro lado. Fala-se do frio na Suiça e que nevou em Paris, da pinga francesa que não presta, dos espanhóis que são de desconfiar, das suas pesetas que não prestam e dos francos e marcos que valem o mundo em Portugal. Falam de uma coisa dos países onde vivem chamada Democracia e que toda a gente pode falar com toda a gente e dizer o que pensa e votar. Estas conversas deixam os velhos assustados, não falem nisso, que passou aí a Guarda. Eles riem, mas sabem bem a diferença entre viver pobre em Portugal e pobre em liberdade e as conversas mudam.

Há também quem tenha o bichinho da pesca ou da caça. Então as espingardas meu pai, estão prontas? Estão ali à tua espera Zé, trouxeste os cartuchos? Sim, tinha-os trazido, aqui em Portugal são caros, e também trouxe zagalotes para os javalis, coisa que o pai nunca tinha visto, mas diz do animal, andam por aí. Num dia, ainda não é madrugada, saem de roupa velha e botas de cardas e vão de carro até à mata com os cães, que começou a época das rolas. Os pescadores empatam as canas, com novos anzóis e iscos com penas, mas é só risos, isso não presta, o que nos vai safar é isto, diz o pai do Sabino e mostra as minhocas num frasco cheio de terra. Sabe os pegos onde o peixe anda e aí vão eles, mais um neto que cedo se aborrece da cana e fica a fazer festas com o dedo aos peixes na cesta. No fundo é celebração porque na bagageira está um garrafão de verde e pães, chouriços e queijo que as mulheres enrolaram nuns panos. 

É preciso tirar as licenças que para os velhos são caras porque é só para quinze dias, mas anda sempre por aí venatória, é melhor não arriscar e a nora remata a conversa, ó ti Serafim, não se preocupe, é para isso que o seu filho anda a trabalhar na França, para que nada nos falta, graças a Deus. Não fala do seu trabalho de costura que faz para uma senhora portuguesa que faz para uma senhora francesa, fechada em casa todos os dias e sem fins de semana, a tratar do marido e dos filhos. O trabalho das mulheres não conta, não é trabalho, é servir.





31 agosto, 2019

Os emigrantes pt2 - A chegada

Os carros começam a chegar com o sol de agosto que abraça a aldeia nos dias da Festa de Nossa Senhora. É o milagre do reencontro há tanto tempo esperado, não há famílias em que não se aguarde e se as há, estão felizes pelas novidades e pela felicidade dos outros.

Os velhos riem de alegria ao ver o automóvel subir a estrada. O pai apressa-se a dar instruções, pára aqui, como se o filho não soubesse onde parar desde que saiu de Bordéus, mas é o nervoso, já não consegue estar quieto, bate com as mãos nas pernas. A mãe torce os dedos ao peito e chora de alegria e sucedem-se os carinhos, ai a minha mãe, minha filha do coração e ao mesmo tempo queria dizer minha filha amada, e abraça também o filho que diz ó minha mãe olhe que me sufoca e ri-se. Chega a vez do pai, anda cá rapaz, como está isso? Como vai meu pai? Queriam falar de amor e saudade, mas isso não é conversa de homens.

Os abraços, os beijos e os apertos de mão não têm fim. Vão chegando outros e a estrada tem finalmente uso. Os casais divididos abraçam-se e beijam-se ao de leve nos lábios, outros tempos, mas os mais jovens agarram-se e beijam-se como deve ser e ouve-se por todo o lado, meu pai, minha mãe, minha filha, meu filho, meu homem, minha mulher, minha amiga, meu amigo e parece que qualquer coisa embriaga o ar. 

Com eles vêm miúdos que estranham aquilo, aquela gente, e outros mais graúdos que fazem de conta que ainda não chegaram. A mãe diz venham dar um beijinho aos avós e à avó sai-lhe que menina bonita que tu estás, valha-me Deus, e enche-a de beijos, e o avô estica a mão ao neto, deste um grande salto rapaz, e depois abraça-o, e tiram do bolso um rebuçado que lhes dão às escondidas como um segredo. Também há homens que procuram os filhos pequenos que nunca conheceram e é a vez da mãe dizer anda ao teu pai e o miúdo vê-se agarrado por aquele homem grande que o abraça, meu filho.

Os de cá vêm neles a abundância, os homem com barriga e as mulheres com os vestidos garridos, a última moda em Paris contam depois às primas. Vêm com dinheiro para gastar e mostram com orgulho o BM em que chegaram e contam histórias da viagem e das horas em Vilar Formoso e do cansaço de conduzir sem parar, e que para o ano, se Deus quiser, já não vão dar trabalho aos pais, já têm um terreno apalavrado para construir uma casa e os pais se os ouvem ficam muito contentes e muito tristes, porque parece que vão perdê-los uma segunda vez. 

Não dizem que têm o carro só para a viagem, nem da enxerga onde vivem em Paris ou em Lausana ou dos trabalhos onde mal ganham para viver e os sacrifícios que passam para juntar aquele dinheiro, os dias em que pouco se come como na aldeia, e que os franceses e alemães os tratam mal, mas de quem não se queixam, só dizem que são diferentes, não sabem viver.

E passada uma semana o João Maria, que esteve toda a noite na taberna a beber copos de bagaço para arranjar coragem, diz à mulher, já viste o Sabino, como ele se deu bem na França... Ela não responde, parece adivinhar o que aí vem, parece que as mulheres têm um sexto sentido, e ele continua, disse-me para ir com ele, que tem lá trabalho para mim. Agora ela roga e chora, não faças isso que me fazes falta, tanta falta homem, só te tenho a ti, aqui sozinha com os nossos filhos nesta escuridão, mas ele com a voz rija e rouca responde mas venho rico mulher e assim acaba a conversa. 


Foto: Georges Dussaud





29 agosto, 2019

Os emigrantes pt1 - A saudade

Na aldeia branca as mulheres apressam-se pelas lajes escorregadias. A Igreja gela como o tempo, mas é a única certeza numa vida adiada. O que é o frio comparado com o calor da fé na Virgem e no Senhor, que as aquece todo o caminho até ao coração? Vêm rezar pelos filhos que andam emigrados, a ganhar a vida por terras estranhas e vão voltar para a Festa de Nossa Senhora. Todos os dias repetem as promessas para que cheguem bem e de saúde, que isso é que é importante, se Deus quiser. As saudades são muitas e apertam o peito que doí até ás lágrimas. 

À Igreja os homens não se apresentam, ficam nos campos por necessidade ou vício de semear, ver nascer e crescer. A chuva castiga os ossos e a enxada nas mãos que são um calo, os rins. Essa coisa dos santos e santinhos é para as mulheres e o Padre, a quem descobrem a cabeça a caminho da taberna, não desperta confiança. Porque é que o Senhor lhes fez a vida tão dura, tão sofrida? Mas pensam nos filhos e vêm a sua silhueta nos campos nos dias de neblina. Rezam para dentro enquanto descarregam a sacho na terra, para que cheguem bem e de saúde, se Deus quiser, que isso é que é importante. As saudades são muitas.

Olham a estrada do alcatrão, mas na ponte da ribeira nada passa. A Festa teima em não chegar e a estrada mantém-se vazia.

03 julho, 2019

Os Capotes brigantes do Bairro Alto


A História truculenta do Bairro Alto, ideada em tempos absolutos de leis do mais forte, desvenda-se no pequeno trecho que transcrevo das Peregrinações em Lisboa, de Norberto de Araújo. Acrescento que a parte final da história, já a tinha lido no Memorial do Convento, do nosso Saramago, que também gostava de ler livros.

Norberto de Araújo chega à Rua da Vinha e fala-nos à porta do nº 20:
"Repara [NA dirige-se na sua obra a um interlocutor a que chama Dilecto], nesta espécie de largo, o pórtico da entrada, em arco de cantaria; (…) É uma adega e carvoaria sombria mas típica, antiquíssima, destas que remontam, escondidas e sem aura, ao século XVII, tempo em que seriam estalagens e casa de comidas. (…)

Segundo a tradição oral já recolhida em romances populares, e que certos indícios parecem confirmar, aqui se reuniam os Capotes Pretos do Infante D. Francisco, irmão de D. João V, bando que se travava de brigas nocturnas frequentes com os Capotes Brancos de Sebastião José de Carvalho e Melo, quando este, moço volteiro, não sonhava ainda ascender à diplomacia, que nele precedeu a actividade política de Secretário de Estado. (…)”

Agora pela Rua da Rosa:

“Aqui neste prédio nºs 148-154, está uma velha estalagem de recolha de saloias lavadeiras. (…) Ora segundo a tradição oral, foi aqui a taverna «estalajadeira», por onde nos começos do século XVIII Sebastião José, mais o bando de sequazes de brigas bairristas – nos quais o popular e o fidalgo se misturavam – tinham a sede nocturna dos Capotes Brancos, grupo, ao jeito do tempo, rival dos Capotes Pretos capitaneado pelo truculento Infante D. Francisco, Duque de Beja, senhor de trinta e sete vilas, e de onze alcaidarias, estoura-vergas e cruel, que certa vez para experimentar a sua pontaria alvejou e atirou ao mar um pobre marujo tranquilo na sua faina na verga do navio. (…)”

O Bairro Alto, local de emoções fortes, possuiu sempre uma aura de transgressão e de quebra de regras, e de perigos assomando das suas antigas estalagens, baiucas e tabernas, travestidas hoje em bares e mini-discos onde a juventude despeja shots, e em ruas por onde bebe litradas, na ânsia sôfrega de percorrer rapidamente o caminho entre a felicidade efémera e a insolvência física.



José Mário Branco cantou os capotes. Aqui está a letra.
Foto: Rua da Vinha ©terezinhabasso

27 abril, 2019

As manas Picoas

Quis o destino e os meus pais que também eu nascesse na Maternidade Alfredo da Costa, ali às Picoas, topónimo popular de origem curiosa.

Conta-nos José Pedro Machado, no seu Dicionário Onomástico Etimológico, que havia por ali uma quinta que tinha como proprietárias duas senhoras, talvez irmãs, talvez solteironas. O seu pai era Picão de apelido e o povo, por graça ou por maldade, chamou-lhes «as Picoas» de onde ficou o topónimo.

Nas Memórias Paroquiais de 1758, o sítio das Picoas aparece integrado na freguesia de São Sebastião da Pedreira, entretanto banalizada para Avenidas Novas. Ao cimo da colina, junto à Igreja de São Sebastião, a meio do caminho que ligava o antigo Chafariz de Andaluz a Palhavã, que hoje é mais ou menos onde fica a António Augusto de Aguiar, gozavam-se os ares aprazíveis e lavados pelo vento.

Vivi nas Picoas muito tempo. Só saí para conhecer mundo e voltei com o mundo um pouco mais conhecido, e com saudades das mercearias e das drogarias, dos snack-bares e do ardina que só tinha um braço e que vendia jornais num vazado, onde em pequeno eu ia comprar o Diário Popular.

Em frente à minha porta, havia uma taberna, das antigas. Não era uma taverna das novas, vendia penaltis e copos de 3, e tinha uma fila de pipas sempre a esvaziar. Havia também uma esquadra, ao pé da praça, mais ao menos onde é o Fórum Picoas. A praça era muito grande, as gentes acotovelavam-se de um lado para o outro no meio dos legumes, das frutas e das gaiolas das galinhas e dos coelhos.

Lembro-me da abertura do primeiro centro comercial em Portugal, o Imaviz, que sobrevive moribundo na Rua Tomás Ribeiro, junto ao metro das Picoas. Quando abriu, os casais deslumbrados entravam para passear e ver as montras, um pouco como ainda se faz por rotina noutros sítios.

As Picoas modernizaram-se, encheram-se de escritórios e de lojas e os seus filhos foram-nas abandonando. Hoje as Picoas já não existem, são um amontoado de hotéis e turistas e restaurantes vegan, paleo e afins.

As avenidas estão novas por fora e vazias por dentro.


Imagem: Planta da cidade, 1856/58, Filipe Folque - http://lxi.cm-lisboa.pt/lxi



20 março, 2019

Terror medieval

No ano de 1551, Cristóvão Rodrigues de Oliveira, guarda-roupa de Dom Fernando, arcebispo de Lisboa, escreveu para o seu amo um Sumário da cidade, onde apontava ofícios da época, entre outras curiosidades. Aqui ficam alguns, em jeito de história: 
“O atafoneiro, que berrava desesperado com dores, gritou pelo seu mariolaa quem dava pão escuro, muito trabalho e uma zurzidela diária, além de o mandar de três em três anos ao calceteiro. O mariola saiu esbaforido da atafona à procura do saca-molas, que andava desaparecido fazia três dias.
Desceu o caminho e já na planura o vento trouxe-lhe o fedor dos tanques dos surradores. Benzeu-se três vezes e deu Graças pela sua vida fácil de mariola. Já perto da capela da Nossa Senhora da Luz, o cheiro o sebo cozido das velas enchia o ar junto ao beco dos cereeiros, e mais adiante, o pó da farinha crua parecia pairar sobre as hóstias ainda por abençoar. A mulher do obrieiro perguntou-lhe ao que vinha. Torceu o nariz quando ouviu falar do saca-molas. Não é homem de Deus, resmungou. Encostada à empena da capela uma merceeira benzia-se e entoava uma ladainha. 
Finalmente encontrou o saca-molas, bêbado de três dias, tombado num poial, e arrastou-o até à atafona. O mariola e mais dois agarraram rijamente o atafoneiro enquanto o saca-molas, em equilíbrio precário, com uns ganchos enferrujados que trazia sempre pendurados ao pescoço, lhe desbastava as gengivas e sacava cá para fora o último dos molares. Pois é, o saca-molas era dentista e naquele tempo não havia anestesias. 


02 março, 2019

O Ingês, apaixonado pelas nossas mulheres e varapauzado pelos nossos homens


Nos idos de 1780, viajava por cá um tal Richard Croker, capitão de infantaria inglês, que, en passant, escreveu umas coisas sobre as nossas mulheres e homens.

No primeiro texto, é notório que o capitão se apaixonara por uma bela portuguesa, porventura de olhos negros, algures pelas estradas de Sintra. No segundo é evidente que, depois de brincar com o fogo, terá pago a honra a alguém, varapauzado e cheio de negras, como tantas vezes Sancho Pança o foi por simples má sorte e destino.

Das mulheres, perdido de amores (assumpção minha)::

“Era impossível não reparar, nas cidades em que passámos ultimamente, na diferença entre as mulheres de Portugal e as de Espanha.
As mulheres portuguesas são agradáveis, elegantes no vestir, com lindos olhos e dentes e belo cabelo muito abundante: nos seus penteados misturam fitas e flores com muito bom gosto e isto mesmo mulheres de classes baixas, pois não nos foi dado ver outras.
Em resumo, tem que se admitir que há mulheres mais bonitas e melhores mulas (sic) em Portugal que na Andaluzia.”
Já em Lisboa: “Um espectáculo que quase me esquecia de mencionar: refiro-me às senhoras portuguesas às janelas. (...) Como não se vêem mulheres nenhumas na rua, senão as de baixa condição, elas devem com certeza estar fechadas em casa e dizem que os maridos portugueses são extremamente ciumentos.”

Dos homens, depois de um encosto mais viril (assumpção minha):

“Os homens portugueses são, sem dúvida, a raça mais feia da Europa. Bem podem eles considerar a denominação de ombre blanco como uma distinção. Os portugueses descendem de uma mistura de Judeus, Mouros, Negros e Franceses, pela sua aparência e qualidade perecem ter reservado para si as piores partes de cada um destes povos.
Tal como os Judeus, são mesquinhos, enganadores e avarentos. Dos Mouros são ciumentos, cruéis e vingativos. Tal como os povos de cor são servis, pouco dóceis e falsos e parecem-se com os Franceses na vaidade, artifício e gabarolice. (…)
Os homens são notoriamente ciumentos e, se pode haver uma desculpa para esta paixão, deve ser que onde as mulheres são dignas de ser amadas e os homens tão opostos, surgem crimes privados e assassínios.”

Ora, a pena do capitão tingiu-se na soberba com que os membros do Império de Sua Majestade encaravam os outros homens. Também eu, só por isso, lhe teria dado uma bengalada .

Quanto às nossas mulheres, Lisboa presta-lhes homenagem nas curvas luminosas das suas colinas, pelas quais deixamos deslizar o olhar como um toque, um cheiro, um desvario.

16 fevereiro, 2019

O Assombro da Ermida da Encarnação


O relato que a seguir transcrevo é tão surpreendente, que me obrigo a dispensar introduções tal a convicção com que nos é exposto:

“Junto ao local da Panasqueira, na estrada que vai para Sacavém, no ano de 1725, vindo uma noite Joseph Manzone, de Lisboa, para sua casa, que era em outro lugar de Sacavém, e trazendo consigo dez mil cruzados, lhe saíram três ladrões para tirar-lhe o dinheiro, e invocando o patrocínio de Nossa Senhora da Encarnação, instantaneamente se achou a porta da sua casa, sem saber como, nem pelo caminho por onde foi: por cujo benefício logo fez levantar um nicho no mesmo lugar com a imagem de Nossa Senhora (…)”.

Este relato é do Padre Cura Pedro de Oliveira, do lugar da Charneca, e foi tomado das Memórias Paroquiais de 1755. A narrativa prossegue com a notícia de que o prodígio motivou os fiéis e que a ermida, durante alguns anos alvo de peregrinações, foi destruída pelo terramoto de 1755 e deixada ao abandono.

Que “a fé move montanhas” já o sabíamos, é ditado popular de cunho religioso, que como tantos outros se obriga a estabelecer a ponte entre o senso comum e o credo de tradições e crenças. Que a mesma fé possibilite a tele-transporte de matéria entra no campo do maravilhoso fantástico, e necessariamente que nisso crer carece de uma contextualização social e temporal, que penso não ser este o lugar adequado para prosseguir.

Hoje em dia, físicas quânticas e outras usurparam o espaço do divino, procurando explicá-lo repetindo-o em ambientes acondicionados e estéreis, em suma, sem gente. Mas qual o português que, confrontado com a adversidade, nunca pensou ou rangeu entre dentes um esperançoso "Ai meu Deus, Deus me ajude, Deus me acuda”?

Notas

03 fevereiro, 2019

O Mostrengo


O Adamastor, monstro dos nossos medos e horrores, está acorrentado no Alto de Santa Catarina, de onde mira Lisboa.  Enfraquecido pela beleza ribeirinha que se espraia à sua frente, pelos telhados do casario, pelo azul que do céu desliza e tinge as águas rutilantes do rio, o monstro mergulha em sonhos de ópio e esquece-se de nos assombrar.

Vários poetas cantaram o Adamastor. Camões, que lhe deu a forma, horrendo e lacrimoso, pintou-o assim. Pessoa dobrou o mostrengo à vontade de D. João II, pela mão do homem do leme, a quem os Xutos também recorreram para o torcer, e assim, remar contra a maré.

Percam 2 minutos a ler os poemas, vale a pena…

16 janeiro, 2019

O Jardim dos Enamorados


Este texto encerra "O Jardim dos Suicidas", publicado a 19 de Dezembro do ano findo.

Com o jardim tudo se muda e continua Pastor de Macedo:

“(...) E o passeio de S. Pedro de Alcântara, como então se dizia, desembaraçado das sombras dos suicidas que por largo tempo sobre ele pairavam (...) passou a ser o Paraíso dos enamorados talvez por causa de um labirinto que ali existia e que teve de ser demolido justamente para evitar certas cenas que ali se davam e que o leitor facilmente adivinha.

E assim como o labirinto foi destruído em nome da moral alfacinha, também o zelo da autoridade, em nome dessa mesma moral que a muitos parecerá ridícula, pegou num guarda municipal (…) e colocou-o na parte inferior da escada de pedra que faz a comunicação entre os dois tabuleiros, para não deixar qualquer homem, fosse qual fosse, levantar os olhos quando alguma senhora descesse. (...)”

Desculpem-me o sorriso…

19 dezembro, 2018

O Jardim dos Suicidas


Ao lado direito do Elevador da Glória está o Jardim de São Pedro de Alcântara, um dos miradouros mais celebrados da cidade, ponto de passagem obrigatório para turistas e curiosos. A Baixa Pombalina e as colinas orientais estendem-se ao olhar.


Num extremo do gradeamento que suporta o observante, encontramos umas escadinhas de pedra que nos conduzem ao patamar abaixo.  Acredite-se ou não, este local foi vazadouro de lixos e de animais mortos (!) nos anos que se seguiram ao grande terramoto. Só em 1835, depois de atulhado por iniciativa da Guarda Real da Polícia, devido ao cheiro nauseabundo que por aí pairava, se construiu o jardim, o qual encerra memórias trágicas e outras.

Das primeiras conta Luís Pastor de Macedo:

“(…) Mas ao passo que Lisboa desfrutava duma encantadora janela escancarada sobre si mesma e um jardim deliciosíssimo de copado arvoredo, dispunha também de um sítio esplêndido para a tentação dos suicidas. E essa aprazível e pitoresca varanda de parapeito de alvenaria com um metro de altura e com poiais de cantaria para que o visitante curioso pudesse sentar-se e gozar regaladamente o belo panorama, passou a ser procurada de maneira desenfreada por todos os desiluduidos que espectaculosamente queriam deixar este mundo.

E tantos foram ali os suicídios, tanto barulho se fez na Imprensa, tantos clamores subiram às esferas municipais, que a Câmara, já de posse da administração do jardim desde 1839, por resolução de 12 de Maio de 1864, mandou substituir o parapeito por uma grade, parte da qual pertencera ao antigo palácio da Inquisição. (...)”

De suicidas se fartava a futura Rua das Taipas e assim se explica o súbito arrepio, frio e pastoso, que percorre a espinha do desprevenido mictante, que depois de uma noite de folia no devassado Bairro Alto, desce ao jardim e sem vergonha aí se permite aliviar os seus fluidos.


Este texto completa-se com o "O Jardim dos Enamorados", que aparecerá por aqui noutro dia.

22 novembro, 2018

Garrett, o elegante


Garrett, cavalheiro trés chic,  rotineiro descia a colina do Chiado até ao seu amado Dona Maria.  Encontrei, pela pena de Norberto de Araújo, a imagem garrida do galante, que aqui partilho :

"(...) Garrett, flamante de casaca verde e bronze com botões dourados, colete de piqué de grandes bandas, cintado e pernalta, calça côr de alecrim, peitilho e punhos de canudo, luvas côr de canário, gravata azul ferrete (...)".

Atentem na combinação das cores. Confesso que os meus olhos se enchem de verde, não do da Esperança, descabido no contexto, mas do outro, do da Inveja...

07 outubro, 2018

A Deusa e o Guerreiro


Uma das mais belas lendas sobre a origem mítica da nossa cidade, respeita à origem das suas colinas, perdidas hoje entre o casario. A lenda dá-nos conta da paixão entre Ofiússa, a deusa serpente, e Ulisses, o grande herói grego intimamente ligado ao mito criador de Lisboa, em tempos Ulysipona.

Cedo a palavra ao professor Vitor Manuel Adrião, que no seu livro Lisboa Secreta nos descreve uma história de amor, raiva e ciúme: “Narram as lendas que Lisboa foi fundada por Ulisses, chefe dos Argonautas, que aqui se tomou de amores por Ofiússa, a deusa-Tejo, e que quando o Herói homérico regressou à sua pátria troiana no navio Argos, Ofiússa, vendo-se abandonada e só, se tomou de cólera e fez estremecer o planalto do Tejo, nascendo assim, por efeito dos telúricos estertores, as sete colinas de Olissipo, hoje Lisboa.”


É magnífico pensar que as nossas colinas terão tido origem no bater do coração de uma deusa apaixonada, a qual por despeito fez tremer a terra como prova do seu amor.


E porque não imaginar também, que a deusa serpente Ofiússa, que todos os dias renasce nas ondas atlânticas que agitam o Tejo que nos banha, não recordou séculos mais tarde o dia em que o bravo rei de Ítaca desprezou o seu seio, e agitando de novo o dorso com amor e com raiva, serpenteando por baixo das colinas lisboetas, castigou de novo a cidade no ano da nossa desgraça de 1755?

Ofiússa representa os Oestrymia, povo lendário que terá vivido na bacia do Tejo e que prestava culto à grande serpente.

A maquete é a do Museu da Cidade "Lisboa antes do terramoto"