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14 abril, 2020

Amor virtual

Não podendo ser de outra forma, resta-nos o amor virtual.
Beijos, abraços e afetos tornaram-se reféns de visores digitais onde cada um de nós dá o seu melhor para que do outro lado chegue o calor adiado.
Não poder tocar em quem amamos parece absurdo, mas é real.
Se em tempos atrás o ecrã não era muito amigo do amor, comprometendo-o por vezes até, é hoje um precioso aliado que nos permite perceber que a pessoa amada está do outro lado e que estamos juntos apesar da distância que nos separa. É de facto tudo mais asséptico, distante, mas é o que temos e com essa nova realidade reinventam-se afetos, consolidam-se amores, matam-se saudades.
O tempo que nos faltava é agora em demasia, nem sabemos o que fazer com ele. Apenas queremos que acelere , que nos dê uma resposta célere, que nos devolva a vida.
Temos tempo, muito tempo para pensar naqueles que amamos e nas coisas que vamos dizer quando o reencontro for possível, nos abraços e beijos em espera, no afeto muitas vezes contido.
Imaginamos reencontros perfeitos e idílicos ainda sabendo que com a ânsia  e a pressa do reencontro se concretizarão em transparência e espontaneidade, sem grandes preocupações mas com muita vontade de colmatar os dias perdidos na névoa da incerteza, de retomar as histórias de amor que ficaram suspensas em tempos de sombra.
Ontem sonhávamos. Hoje estamos atordoados. Todos ansiamos pelo fim do torpor e  pela plenitude da vida que há de voltar um dia.
Até lá resta-nos flutuar na quietude dos dias e esperar pelo tumulto da vida que nos há de arrebatar.

Fica a sugestão da audição de Into my arms de Nick Cave não necessariamente durante a leitura, mas quando o leitor assim o entender.


01 abril, 2020

As flores II

Havia já uns dias que o pesado portão de ferro do jardim se encontrava fechado. Uma questão de força maior ao que diziam. Por entre as grades de metal, espreitava o silêncio sepulcral da natureza em sossego. Tentara subir o portão, mas era alto demais, não havia como saltar lá para dentro. Respondendo ao apelo da sua teimosia, insistira várias vezes, mas apenas conseguira uns valentes arranhões nas pernas e algum sangue à mistura. Sentia na pele o chamamento das violetas e dos lírios do vale que continuavam a crescer na sua ausência. Num desespero descontrolado, dava a volta ao jardim só para poder espreitar as flores, encostava a cabeça às grades para ao longe sentir-lhes a vida por entre as mãos. Amava tanto as flores quanto amava o seu homem. Fora naquele jardim que o vira pela primeira vez num tempo em que os dias eram mais longos, num entardecer de brisa e de sol. Gostara dos seus lábios finos que ansiava tocar de novo, assim como precisava desesperadamente de acariciar as suas flores.Em tempos,entrara no jardim, roubara as flores e fugira para as amar num lugar seguro. Em tempos, os seus lábios tocaram os do homem amado num beijo também ele roubado com sabor a violetas e lírios do vale. Na ausência do toque suave das flores e da pele, revia imagens suas para acalmar a dor. Sentia-as com prazer e apertava-as junto ao coração, desejando as flores e o homem amado que presos, cada um no seu jardim, quais espinhos ameaçadores, a feriam de saudade.

20 março, 2020

As flores

Roubava as flores do jardim, violetas e lírios-do-vale e fugia a correr. Roubava-lhes também o aroma e, assim, castigava as flores apoderando-se da sua essência.Quase conseguia ouvir o seu pranto e ver as cores a desmaiarem de desgosto. Colhia-as com muito cuidado e logo que encontrava um lugar seguro, depositava-as no colo. Demorava-se a olhá-las e acariciava-as suavemente com a ponta dos dedos. Depois, pegava em cada uma delas e absorvia-as longamente até que o seu perfume penetrasse nas narinas e tomasse conta do seu ser. Terminado aquele ritual olfativo e em estado de extâse, estrafegava as flores violentamente num abraço e assim deixava-se ficar deitada no musgo fresco do jardim até que o sono a levasse, apertando as cores e os aromas roubados das flores que tanto amava.

11 fevereiro, 2020

As conversas parvas


Gosto de conversas parvas entre amigos. São as melhores do mundo.
Não, não são aquelas de circunstância que se têm para preencher silêncios, remendar desconfortos ou para não ficarmos mal após séculos de ausência.
Essas não, não interessam. As conversas parvas são aquelas em que não nos preocupamos se é preciso termos juízo ou não, se temos idade para dizer isto ou para dizer aquilo.
São aquelas em que trocamos a idade por sorrisos, caretas e gargalhadas a explodir. São trocas de palavras confortáveis sem preocupação com a entoação, a sintaxe, a semântica e o politicamente correto.
São fáceis, prazerosas, sabem a fim de tarde, a sol, a ar fresco. São bolinhas de sabão leves e coloridas, aviões e barquinhos de papel.
São balões a subir pelo céu azul.
Sabem a imperial fresca, algodão doce, caramelos de fruta. Dentro da sua leveza e simplicidade são as mais sérias do mundo.
Pensando agora com seriedade, porque se diz que são parvas se não verdade não são? Não têm nada de desadequado ou de inconveniente, de tonto ou de desinteressante.
São felizes, simplesmente.
São festivais de interrogações . O que é que foi? O que é que foi o quê? Eu é que pergunto o que é que foi? Porque me perguntas isso? Sei lá, estás a olhar para mim… assim. Assim como? Estou a olhar para ti normalmente, porquê não posso? Podes, claro que podes. Também estás a olhar para mim. Pois estou. E então porque fazes essa pergunta? Não sei. (E seguem-se gargalhadas terapêuticas.)
São repetições de rábulas humorísticas , canções partilhadas a ver quem imita melhor o original (ou quem pior se aproxima do melhor!). São desenhos em guardanapos de papel, bonecada em toalhas de restaurante .
São brincadeiras de quem não tem vergonha, de quem não teme o cabelo em desalinho, a roupa amassada, o ridículo.

Há conversas parvas que nos salvam o dia e às vezes até a vida. É verdade é.

A conversa mais séria que tive foi uma dessas… parvas. Acabou num abraço e salvou-me a vida.

06 fevereiro, 2020

Confissão


É assim que vivo, um dia de cada vez, no incógnito, numa espécie de anonimato voluntário.

Evito interrogações, poupo-me a respostas, torturo-me com fantasmas e dúvidas.
Escolhi assim, sigo o meu caminho. Certa ou errada, é a minha escolha.
Perco ainda muito tempo a ter medo do que poderá acontecer amanhã, ainda sabendo que é uma preocupação estéril, vazia. É espontâneo, é natural, mas é tempo perdido. E o tempo é um tesouro, perder tempo é perder tudo. Paga-se caro o desperdício. Ainda agora abri os olhos e já é hora de os fechar de novo. O dia inteiro cabe numa conversa de café, nas páginas de um livro ou numa melodia. Cada vez mais depressa chega o fim. Enquanto entidade abstrata e intangível , é estranho o tempo, não fosse ele impossível de definir. Cada um sabe o que faz com ele. Ele sabe o que com cada um de nós faz. 
Dói-me até dizer chega senti-lo a escapar-me por entre os dedos, ao perceber os sinais que me vai deixando de que tudo é efémero, de que tudo finda.
O tempo é como o amor, fodido. Pisca-nos o olho, seduz-nos, atordoa-nos, engole-nos , tritura-nos e rouba-nos a vida.
É uma flor, é um espinho.
Ainda há quem diga que devemos dar tempo ao tempo. Tretas! O tempo não nos pergunta nada, dá-nos o que bem entende. E nós bem mandados, aceitamos sem condições. Entre o primeiro choro e o último suspiro, existimos. 
Cada dia que passa é uma dádiva. Cada dia que passa é uma morte. No meio disto tudo, acontece a alegria da surpresa, do inesperado, o tempero da vida, o antidoto para a disrupção.
Tenho pavor do obsoleto, do ultrapassado, de não fazer mais parte…do vazio em geral.
Alimento-me de brisa, de sol, de vozes e de movimento.
Dependo de presenças, de barulho e de palavras. Muito. Muito mesmo. 
Perco-me com muita facilidade, demoro a encontrar a saída. 
Falo mal do tempo, mas agarro-me a ele com todas as forças. Desconfio do amor, no entanto não equaciono não o ter comigo. 
Conforta-me o calor do raio de sol que me ilumina, apazigua-me a doçura de um eco ao longe. 
Revigoram-me os sorrisos pueris, os olhos curiosos, a ingenuidade de palmo e meio, a irreverência dos heróis de capa e espada, a rebeldia em processo. 
Retempera-me o ritmo pelo corpo adentro, os movimentos desenfreados, a vida a pulsar, a catarse. 
Doem as ausências definitivas,as prolongadas, as curtas. Doem-me as ausências, ponto.
Aterroriza-me ainda a morte. Estou a aprender a pronunciar-lhe o nome, a falar sobre ela, a encará-la. Têm-me ensinado.
Preciso do choque frontal para perceber as coisas com clareza, para alterar, para reaver o equilíbrio, seguir em frente.
Amo incondicionalmente, do ódio não sei.

Sou um paradoxo, uma contradição...aparente simplicidade num novelo de complexidade.

E mais não digo.

Contei-lhe tudo à espera de uma resposta, mas ela limitou-se a olhar para mim.




10 janeiro, 2020

Que é da cor que é tua?

Uma imensidão de nada.
Um vazio sem cores.
Uma noite sem estrelas.
Uma lua apagada.

Na pele um arrepio.
Uma flecha que trespassa
um coração vazio.
Uma imagem baça.

Uma fotografia tremida.
Uma história inacabada.
Uma vida perdida.
Uma coisa quebrada.

A ausência dolorosa.
Uma eterna saudade.
Um texto sem prosa.
Um rosto sem idade.

Dos teus olhos falta a cor,
faz-lhe falta o sentido.
O mar sem o amor
É um curso de água ferido.

Devolve-lhes depressa a cor
que o mundo escurece.
É tristeza, é dor.
Nada mais acontece.

Onde anda o verde que é teu?
Que é da cor que é tua?
Encontra-a que o céu
tem saudades da lua.

É canção sem melodia.
Uma causa perdida.
É a noite sem o dia.
São as cinzas da vida.



30 novembro, 2019

Elegia do medo

O medo vai subindo a escada degrau a degrau. Lento. Tem tempo.
Aumentam os batimentos cardíacos. Acelera a respiração. Suam as mãos.
Do estado de alerta caminha para o sobressalto, experimenta o temor, a ansiedade. Conhece-se o sabor do terror. Amargo de boca.
A folha branca na ânsia de ser desflorada permanece intacta. Nada se move em cima dela.
A febre vai subindo, toma conta do corpo.
As sílabas cativas no arrepio gélido da espinha.
O terror que as palavras se tornem gastas… obsoletas… enjauladas.
O medo que a língua seja travada, a voz rouca… calada, as mãos sem vida.
Falta de ar…Sufoco. Pânico.
O esquecimento...a ruptura.
Receio de não saber construir enquanto outros manejam o verbo com mestria e eloquência.
...
Nem o ar fresco da noite desperta os sentidos. Tudo se desvanece sob o manto negro de pontos luminosos.
O grito insistente de uma gaivota parece anunciar uma tempestade.
As mãos tremem.
O medo continua a sua odisseia.Lento.
Tem tempo.

os poemas adormeceram no desassossego da idade.

fulguram na perturbação de um tempo cada dia mais
curto e, por vezes, ouço-os no transe da noite. assolam-me
as imagens, rasgam-me as metáforas insidiosas, porcas...e
nada escrevo.
o regresso à escrita terminou. a vida toda fodid@ – e
a alma esburacada por uma agonia tamanho deste mar.
a dor de todas as ruas vazias.
Al Berto, Horto de incêndio

25 novembro, 2019

Coisas de gente que escreve...

Embora haja sempre tanto para dizer,nem sempre a Musa se digna a brindar-nos com a sua visita.Ainda assim,é importante dar voz às palavras mesmo sendo pelas mãos de outros...

Esqueço-me de tudo, por isso escrevo, longe do terror ao sismo inesperado das estrelas, escrevo com a certeza de que tudo o que escrevo se apagará do papel no momento da minha morte (…) definha-se texto a texto, e nunca se consegue escrever o livro desejado. Morre-se com uma overdose de palavras, e nunca se escreve a não ser que se esteja viciado. morre-se, quando já não é necessário escrever seja o que for, mas o vício de escrever é ainda tão forte que o facto de já não escrever nos mantém vivos.(…)

Al Berto, O Medo

15 novembro, 2019

Ambivalência

Desenha-me um significado que não entendo este amor retratado à flor da pele e do ódio.
Acicata mais ainda esta tormenta avassaladora de emoções ambíguas que tenho vindo a experimentar, sentimentos contraditórios que me vêm consumindo, mas que fazem querer manter esta paixão que desafia a própria morte.
Amo esse teu lado negro e destrutivo, essa tua beleza agreste e selvagem alimentada por chuvas rigorosas, ventos fortes e tempestades. Inflama-me este sofrer.
Cheira a rosas vermelhas no jardim onde me perco nos labirintos retirados de contos fantásticos. O perfume inebriante das flores e o sopro forte nas árvores lembram-me o movimento sensual dos corpos na volúpia dos lençóis.
Aparências que se deformam e se transformam, gritos e sombras a que se sucedem cores musicais.
Estados de exaltação. Cenários oníricos. Metamorfoses.
Vertigem de loucura… Palpitações de pura emoção.
Alucinações... Desvarios... Delírios...
Tudo culpa dos vapores do álcool e dos paraísos artificiais.
Silêncio… Leveza… Tranquilidade…
Na verdade, anseio apenas afagar-te o cabelo com a ponta dos dedos, acariciar-te o rosto com as costas da mão, puxar-te para mim para que enlaçados possamos juntos ouvir o murmúrio das ondas e saborear o aroma fresco da maresia.

Guarda-me no teu abraço.

01 outubro, 2019

Sou segredo...sou revelação...


" La parole est (…) un acte individuel de volonté et d´intelligence. "
                                                                         Ferdinand de Saussure

" Com mãos tudo se faz e se desfaz.”
                                                                         Manuel Alegre

Na ausência de voz, o poder está nas mãos.
Desconhece-se o timbre, o ritmo, a entoação e a linguagem utilizada por aquele que vive no mundo silencioso. É urgente que se faça ouvir.
Às mãos cabe a responsabilidade de produzir linguagens, de dizer coisas.
Quando a voz silenciosa decide manter a quietude, as mãos permanecem imóveis. Há dias, no entanto, em que se mexem em movimentos desenfreados e urgentes pois a voz tem tanta coisa bonita para contar...
Sussurros e palavras doces pedem às pontas dos dedos movimentos delicados. Punhos fechados em gestos bruscos e pancadas fortes são sinais de gritos e de aflição.

As minhas mãos falam e tocam. Assim como as palavras têm o poder de desencadear emoções, as minhas mãos também sabem tocar assim. O movimento e o toque das minhas mãos são a extensão de mim. 
Sou silêncio e sossego...sou barulho e desassossego. 
Sou quietude ...sou tumulto... Repouso e alvoroço.
Sou segredo ...sou revelação. Mistério e transparência.
Um enigma... uma solução.
Uma introdução e um desenlace.
Uma porta fechada... uma janela aberta.

23 setembro, 2019

Na ponta dos dedos

Sem muitas palavras (pois não são precisas) e na ponta dos dedos, as mãos deixam estas palavras como se de sussurros se tratasse. Deixem-se então tocar...

As tuas mãos terminam em segredo

As tuas mãos terminam em segredo.
Os teus olhos são negros e macios
Cristo na cruz os teus seios (?) esguios
E o teu perfil princesas no degredo...

Entre buxos e ao pé de bancos frios
Nas entrevistas alamedas, quedo
O vento põe seu arrastado medo
Saudoso a longes velas de navios.

Mas quando o mar subir na praia e for
Arrasar os castelos que na areia
As crianças deixaram, meu amor,

Será o haver cais num mar distante...
Pobre do rei pai das princesas feias
No seu castelo à rosa do Levante!

Fernando Pessoa in Cancioneiro

12 setembro, 2019

O contador de histórias


Tinha acordado cedo. Ainda o dia não tinha clareado, já estava fora da cama fazia muito. De cara lavada, cabelo penteado e com o vestido branco das flores azuis, aguardava sentada que as horas passassem depressa. Era segunda-feira e naquele dia, ia à escola o contador de histórias. Só lá ia uma vez por mês, logo na primeira semana, sempre no mesmo dia. Para a maior parte dos meus colegas, o fim de tarde de domingo era motivo de tristeza, pois havia escola no dia seguinte. Dentro de mim, ao contrário, crescia um sentimento de frenesim. Passava os fins de semana a brincar sozinha no quarto por entre a bonecada e os livros, envolta num silêncio que procurava quebrar com histórias inventadas e monólogos partilhados com as bonecas, os ursos de pelúcia e os alunos imaginários. Ir à escola era como que uma salvação, eram cinco dias de remédio contra a solidão. Desde o primeiro dia que gostava daquela rotina de entrar na sala de aula, tirar o material da pasta, sentar-me na carteira de madeira, abrir o caderno e escrever fosse o que fosse numa caligrafia desenhada e limpa. Lembro-me de desejar tanto aprender a ler que fiquei com febre da ansiedade no primeiro dia de aulas. Aprendi depressa a juntar as sílabas porque tinha de passar rapidamente à fase seguinte de decifrar palavras maiores e de compreender o sentido dos textos. Cansara-me de “ler” livros de cabeça para baixo e de inventar histórias com base nas ilustrações coloridas. Sabia que aquilo que contava aos ouvintes do meu quarto era tudo mentira e carregava um sentimento de culpa por estar a enganá-los. Queria contar histórias a sério. Assim, quando a professora nos disse que iríamos receber a visita de um senhor que viria contar uma história uma vez por mês, durante todo o ano letivo, fiquei esfuziante. A primeira vez que entrou na sala de aula, nos cumprimentou, nos mandou tirar os sapatos e sentar pernas à chinês por entre as almofadas do cantinho da leitura, fiquei de boca aberta. Mas que raio se iria passar ali? Pediu-nos então que fechássemos os olhos por um bocadinho, que respirássemos fundo e que tirássemos todo o peso de cima de nós. Não percebia nada daquela conversa e embora impaciente, fiz o meu melhor para atender ao pedido. E aí começou a magia. Com uma voz calma e algo melodiosa, iniciou a narração da história de uma bruxa que vivia num armário onde se guardavam as vassouras. Lembro-me de visualizar todos os momentos da narrativa, embora ele só tivesse mostrado as ilustrações no final. Através das palavras, trazia para dentro da sala as personagens, as cores, os cheiros e o mais importante de tudo as emoções. Hoje, julgo que também ele era um mago disfarçado que tinha como missão encantar-nos com o feitiço das histórias. Assim que percebia que a história chegava ao fim, crescia em mim a tristeza, pois o contador estava prestes a terminar a sua tarefa e só viria passados muitos dias. Embora soubesse que tinha de ser, não me queria despedir dele, nem do seu mundo de fantasia. Temia que não voltasse e que as histórias se esfumassem.

Agora, percebo que o fim das histórias não precisa de ser uma despedida e que estas não desaparecem quando se fecha o livro. Enquanto houver palavras e sentimentos para partilhar, a imaginação encarrega-se de ir à procura das personagens, das cores, dos cheiros e das emoções e tudo brota de novo.


09 julho, 2019

Escrever, escrever-me, escrever-te…

De acordo com as palavras de Virginia Woolf, “Escrever é que é o verdadeiro prazer, ser lido é um prazer superficial”. Não posso deixar de concordar.
Embora, na verdade, a escrita seja também uma questão de EGO é antes de mais uma questão de intimidade, de entrega, de secretismo. É fruição.  É até, em alguns casos, vital.
Escrever é ,antes de mais, ter coisas para dizer. Construir histórias através da combinação de palavras aliada à sintaxe e à semântica (ou sem aliados, simplesmente porque também pode acontecer contar coisas com palavras soltas!) e sacudir o mundo trazendo ao de cima sentidos mais ou menos explícitos. Sim, porque a escrita também exige esforço. Não está lá tudo, às vezes é preciso construir e desconstruir. Pensar, redigir, apagar ou queimar, arrepender-se e voltar a fazer tudo de novo. Aí reside o verdadeiro prazer da escrita: a procura constante, a exigência, a beleza das palavras, o prazer, a frustração, a inspiração ou o vazio. Paradoxalmente o vazio é inspirador. Parece coisa de gente louca, mas é assim.
Se num primeiro momento idealizei este texto para ser uma reflexão e porque a escrita é também uma anarquia e por isso mo permite, decidi mudar-lhe o rumo e continuá-lo na primeira pessoa do singular porque é assim que tenho vontade de escrever neste preciso momento. Na verdade, apetece-me dizer poucas coisas, mas escrevê-las com cores, cheiros e emoções. Ainda que pouca gente as leia, já as imortalizei numa folha branca. Pouco me importa a quantidade de olhos que vão por elas passar, são minhas… até que alguém as queira tomar também como suas.
Escrever-me tem sido uma árdua tarefa que, no entanto, tem sido possível muito devagarinho. A maior parte das vezes a preto e branco, fruto das circunstâncias, mas também gosto de tons pastel e de quando em quando lá vou colorindo algumas palavras mais felizes.
Escrever-te é bem mais fácil e prazeroso, mas é preciso ter mais cuidado na escolha dos vocábulos, já dizia o poeta “São como um cristal, as palavras. Algumas, um punhal, um incêndio”.
Procuro guardar tudo com cuidado: as palavras e as pessoas. E para que possa ficar com as pessoas, preciso de saber mexer nas palavras com mestria e precaução. E quanto mais cor lhes der, melhor.
Sílabas presas num nó da garganta, expressões que habitam o coração ou palavras que nos esmurram o estômago, tudo merece a devida transcrição.
É preciso é que não se escreva só com palavras, mas com a pessoa inteira.

 Assim...Escrevo, escrevo-me, escrevo-te…


20 junho, 2019

Desaparição ou antes que morram as palavras

Pedi-te uma ideia emprestada. Acedeste na condição de que eu a devolvesse. Prometi fazê-lo, mas não cumpri e guardei-a para mim (era boa demais!). Escondi-a num lugar secreto e não a voltei a pôr no lugar. Assim que a tive comigo, vivi um instante de plenitude, um fascínio delirante. Sou uma ladra. Já o disse antes. Tiro aos outros e não devolvo nada. Sou uma artista decadente, mas ninguém precisa de saber. Faço decalques. Finjo que faço. Vivo num desequilíbrio vertiginoso temendo a queda final. É quase obscena esta abstinência de esforço mental. Este desapego à ação chega a ser prazeroso. Delícia este desmembrar de obrigações e de cansaços! Para quê viver num tumulto, se posso ter o deleite de graça? Até me arrepio com a ideia. Mais valem eufemismos desviados do que hipérboles vindas de mentes insanas.     
F***-se! (Que digo eu?) Mas que raio de conversa é esta?
A exaustão faz-me perder o tino. As obscenidades sobrepõem-se à doçura. A decadência afoga-me a lucidez. O tormento trespassa-me a alma, tolhe-me o pensamento. Regressem a harmonia e os murmúrios levados pelo vento. Dissipe-se o espesso nevoeiro, apazigúem-se as convulsões, feche-se a dor exposta. É hora de lamber as feridas, preciso de me recompor, escrever tudo numa letra pequenina para não deixar fugir nada, ninguém me roubar as palavras. Temo que as flores murchem e que esmoreçam as estrofes sôfregas de olhares curiosos e impressões.
Acalme-se a tempestade. Solte-se a brisa suave.


16 junho, 2019

Sopro de vida...Sopro de morte


Corvos e pombos pousam nas pedras tumulares do jardim cujos bancos cobertos de musgo aguardam há muito o descanso dos amantes. Um demónio de pedra lança um olhar perverso ao anjo de mármore alvo, guardião de memórias em farrapos. Na sombra dos arbustos e das folhagens, perdem-se duas sombras em gozos e loucuras sensuais, no silêncio soturno daquele jardim de morte. Um aroma tenebroso paira no ar cerrado e quente. Debaixo da densa treva e das suas cintilações, caminha descalça e altiva. Os longos cabelos negros baloiçam escondendo as costas nuas que o veludo do vestido não cobre.
Segura vai embriagada de escuridão, carregada de dor e tristeza, um punhal na mão.
Nas veias o sangue pulsa forte, no peito a cadência dispara, acelerada. Frágil e bela prossegue imperturbável, tendo como cúmplice o feitiço da lua. Amo intensamente a palidez do seu semblante, a figura esbelta e recatada, o peito imaculado onde anseio repousar dos desgostos e dos gumes afiados. 
Pudesse eu deitá-la no mármore frio, tomá-la nos braços e devolver-lhe num beijo o sopro de vida quase extinto. Pudesse eu adormecer no seu regaço e abandonar-me para sempre com ela num abraço.


08 junho, 2019

Alucinações da madrugada

Sinto-me a ausentar-me.
O meu corpo continua enjaulado. O peso de uma sombra abate-se sobre mim e isola-me cada vez mais do resto do mundo.
Sou um ser noturno. Cresce uma dor incontrolável dentro de mim, preciso de outra menos intensa para aguentar a primeira. Sinto-me febril. Tenho o rosto lívido, transparente como os mortos têm. Parece que me vou apagando aos poucos.
Arrefeceu durante a noite. O frio era tanto que abri a janela toda para que entrasse e me penetrasse nos ossos. Não consegui pregar olho durante a noite. Insónia a insónia, vou memorizando as imagens que forram as paredes do quarto. Há fotografias, desenhos e esboços por todo o lado. Decidi deixar de pintar, mas nunca cheguei a arrumar nada. Continua tudo espalhado. As tintas estão secas, os pincéis duros e as telas amareladas.
O silêncio é angustiante na minha caverna urbana, mas é nele que me consigo encontrar. É na ausência de ruído que me vou metamorfoseando. A vertigem do silêncio dilatado sacode-me e obriga-me a pensar.
Penso tanto em algumas pessoas que sou tomada pelo nevoeiro da memória, os traços vão se esbatendo e aos poucos vou-me esquecendo delas. As imagens vão desfilando, no entanto surgem cada vez mais desfocadas. Pela janela aberta, entra um vento frio e salgado. Arrepio-me. Há já muito que ninguém me telefona ou me visita. Vou passando aqui as noites monótonas e iguais, escrevinhando coisas que acabo por queimar.
Tenho os lábios gretados e os olhos inchados. Dói-me o corpo todo, o peito principalmente. Era bom que, definitivamente, o sono me entorpecesse e me fizesse desmaiar numa dormência profunda que me apagasse da cabeça coisas até agora indeléveis.
Queria embriagar-me de álcool, de erva e de paixão. Passo a língua pelos lábios e afasto o cabelo dos olhos. Enrosco-me sobre mim mesma e estremeço à espera da manhã longínqua. Ainda faltam umas horas até o manto escuro de pontos luminosos se desvanecer. Fiz café que vou bebendo a escaldar de uma caneca branca. Acendo um cigarro que saboreio até o filtro quente me queimar os lábios já feridos. Tornei-me uma ladra. Roubo os outros, mas não me deixo roubar. Apodero-me das suas histórias, desconstruo-as e com elas produzo linguagens. Tenho de desprender o torpor das mãos. Lembro-me do puto que vi cair do quarto andar, estendido no chão, uma multidão à volta. Destroços de vida.
Encho a caneca de novo, o café sabe-me bem. Reúno os fragmentos de memória, dou-lhes um nome e faço-os reféns de uma folha de papel branca.
Acontece olhar-me no grande espelho do quarto durante longos minutos. Miro-me da cabeça aos pés a ver se algo mudou de um dia para o outro. Uma noite destas, refletiu-se um homem seminu, sem rosto. Vestia apenas uma camisa branca igual àquela que trago vestida agora. Quis tocar-lhe, mas ao toque dos dedos no espelho frio, desapareceu. Mais uma partida do álcool, de certeza!  Que pena, queria ter-lhe descoberto o rosto, a identidade. Sinto que volta. Temos coisas para dizer.
Amanhece.

02 junho, 2019

Boa tarde, dá-me licença que me sente na sua mesa?

Estava calor naquela tarde de domingo. Viera de repente o sol depois de uma semana de chuva.

Passou o portão de ferro do jardim e foi à procura de um sítio para se sentar. Avistou uma esplanada para a qual se foi dirigindo à procura de um lugar à sombra. Infelizmente, não havia. Esperou uns segundos na esperança de que alguém se levantasse, mas sem sucesso. Olhou em volta e numa mesa mais afastada estava um homem de barba, camisa branca e óculos escuros ,a teclar furiosamente num computador portátil. Caminhou para lá e perguntou:

Boa tarde, dá-me licença que me sente na sua mesa? Já não há nenhuma livre e estou mesmo cansada.

O homem tirou os óculos para melhor a examinar e riu-se.

Porque se ri? Já vi que o incomodo. Desculpe.

Não se vá embora, tenho gosto em que se sente. Ri-me por causa da sua lata, nada demais. Fez-me lembrar alguém que conheci há tempos, também era assim. Às vezes, apetecia-me fazer o que acabou de fazer, mas não faço. Não me leve a mal, sente-se.

Prometo não perturbar a sua tranquilidade, parecia tão concentrado há bocado. Não quero de todo interromper. Escreve?

Para quem não queria interromper, você fala…

Peço desculpa é um defeito que tenho. Mas vou já pedir o café e enfiar a cara no meu livro.

Estou a brincar consigo! Eu cá não gosto de falar muito, mas gosto de ouvir. Perguntou-me se escrevo, sim escrevo. Olhe, ando às voltas com este texto há algum tempo e não tem sido nada fácil. Pedi a uma pessoa amiga que me ajudasse e que mandasse escrever sobre maçãs, em vez disso sugeriu que eu escrevesse uma saga. Pior a emenda que o soneto. Estou para aqui a falar consigo, mas nem sei o seu nome.

O meu é Mariana e o seu?

Muito prazer Mariana, sou o Luís. Na verdade, ninguém me trata por esse nome, todos me chamam pela minha alcunha.

Que engraçado e qual é, se é que pode revelar?

Chegue-se aqui que eu digo-lhe baixinho. É um alter ego, ninguém mais precisa de saber.

Luís segredou-lhe ao ouvido e Mariana riu-se:

Quem teria ideia de ter uma alcunha destas. Nunca tal me teria passado pela cabeça! Original, sem dúvida.

A Mariana gosta de ler pelo que vejo. E escrever?

Sim gosto de ler e de escrever também. As duas paixões completam-se. Não querendo ser pretensiosa, nem indiscreta quem sabe não o consigo ajudar com o seu texto. Quem é a personagem principal da sua saga? Quais são as suas características?

Olhe, a personagem é um homem de meia idade, as características ainda nem as defini, a única coisa que sei é que vive numa casa junto ao mar e tem um barco. O que lhe sei dizer é que, simultaneamente, escrevo sobre outra pessoa, aquela que conheci há tempos e é bem mais fácil. Sai tudo naturalmente, sem grandes artifícios!

Muito bem, então assim de repente diga-me cinco palavras que o caracterizam. Não pense muito, seja espontâneo.

Você tem com cada uma! Cinco características minhas? Isto, não é suposto ser uma autobiografia.

Vá lá, deixe-se disso! Quer escrever o seu texto ou não? Olhe uma delas nem precisar de dizer, é a teimosia. Agora faça o que quiser com isso, ou segue ou desconstrói. Ou a sua personagem é teimosa ou não.

Já vi onde quer chegar. A Mariana é curiosa, mas sim também é uma possibilidade de eu dar um avanço nisto. Ora assim de repente, diz a Mariana. Olhe o ceticismo, cada vez menos no geral, mais no particular, ainda assim, sim a descrença é algo que faz parte de mim. A afetividade, sou de afetos… com pouca gente, mas sim, entrego-me esperando que não me dececionem, caso contrário o ceticismo fica mais acentuado. A calma está em mim, gosto de fazer as coisas calmamente e de pensar de igual modo, gosto muito de silêncio, sabe? Sei que por vezes é mal interpretado, mas não quero saber, preciso dessa calma e desses silêncios. Mas também gosto de barulho, música barulhenta, guitarras principalmente, põem-me bem-disposto. A Mariana gosta de música?

Muito, sou muito eclética sabe? Há quem diga que já ouviu tudo, eu cá acho que há sempre coisas para ouvir. Mas não se disperse, concentre-se lá na sua autoanálise. Faltam duas características ou uma, tendo em conta que a teimosia é sem dúvida um traço da sua personalidade.

Sou teimoso sim e já que adivinhou, não quer tentar adivinhar outro traço?

Pode ser. Embora só o conheça há meia dúzia de minutos, o Luís parece me uma pessoa insegura. Engano-me?

Reservo-me o direito de não responder à sua pergunta. Sou um gajo complicado, não me leve a mal.

Não faz mal, não é nada fácil expormos-nos assim aos outros.  Afinal, nem sequer me conhece. Não precisa de dizer mais nada. Já deve ter material suficiente para dar vida à sua personagem. Pelo menos para começar. Também já está na hora de me ir embora. Os cafés ficam por minha conta.

Já vai? Por mim deixe-se estar, estou a gostar de conversar consigo. Costuma vir aqui muitas vezes?

Não, nem por isso, mas é um sítio agradável. Hei de voltar, quem sabe não voltamos a partilhar a mesa e a conversa. Tenho mesmo de ir. Obrigada pelo lugar e pela paciência.

Foi um prazer Mariana. Até um dia!

É isso. Até!

03 maio, 2019

Cicatrizes


A mesa de trabalho era uma permanente desordem. Debaixo de pilhas de papéis e de livros, podiam encontrar-se cigarros amachucados, mortalhas e fósforos queimados. Gostava do ritual do fumo, desde o ato de escolher até o enrolar o tabaco nas mortalhas lisas antes de o fumar. Um vício que o acompanhava desde a adolescência, mas que continuava a ser um prazer. Não gostava da ideia dos cigarros industrializados, iguais, arrumadinhos numa caixinha de cartão duro. Havia como que um glamour naquela preparação artesanal, naquelas nuvens de fumo denso e azulado. Se em tempos era visto como uma coisa de velhos, dava-lhe agora ares de modernidade.

O álcool era, havia já muito, um velho aliado. Dada a natureza solitária do seu trabalho e as dores da vida que experimentara, encontrara nele o antídoto para a timidez e para a produção de lampejos criativos. Antissocial assumido, bebia sozinho e de forma descontrolada. Na sua relação íntima com a bebida, vivia num perpétuo estado de letargia. Nos seus raros momentos de sobriedade, chegamos a trocar impressões sobre o romantismo sombrio de Poe, o simbolismo de Rimbaud e o decadentismo de Álvaro de Campos. Conversas de haxixe e de absinto, melhor dizendo! De resto, era homem dado a poucas falas, pouco preocupado com a complexidade humana que outrora deixara algumas cicatrizes no seu império interior. 

Não preciso de ninguém dizia tenho o que me faz falta. Vivo muito bem assim com os meus livros e o meu silêncio.

Eu, que já o conhecia havia muitos anos, sabia que era mentira. Desejava ouvir vozes, barulhos e sentir cheiros à sua volta. Optara, no entanto, por renunciar a todos eles, cobiçando-os apenas em segredo. Apresentava uma tristeza no rosto e nos modos, um semblante duro onde o sorriso se tinha desvanecido havia demasiado tempo. A doçura habitara um dia nos seus olhos de um azul-acinzentado que se mostravam agora apagados e descrentes. Não nos víamos muitas vezes. Ele, que insistia naquele retiro decadente, não gostava de receber visitas. Éramos amigos ou tínhamos sido um dia. Afligia-me o seu estado de tristeza profunda.

 És mesma parva ralhava ele Quem é que anda triste aqui? Nunca estive tão satisfeito na puta da vida.

Se estás assim tão bem, para que é essa merda toda que enfias pela goela abaixo? inquiria, furiosa, apontando para as inúmeras caixas de comprimidos que guardava numa das gavetas da secretária.

És como todas as outras, uma chata com a mania que sabe tudo. Mais a merda! Um gajo não pode tomar uns comprimidos para as dores, que é logo drogado ou está com depressão. Têm todas a mania que são espertas! Sabes o que andas a fazer , tu? És um modelo de perfeição! Põe-te a andar daqui para fora, quero ficar sozinho. Não me apareças mais pela frente!

Assim que a razão dava lugar àquela fúria desmedida, saía porta fora, deixando-o a proferir imprecações contra tudo e contra todos.

Passaram-se muitos meses até que tornasse a vê-lo. Demasiados. Ao longo de um decadente processo de lentificação motora e do pensamento, perdera-se da pessoa que tinha sido. A loucura apoderara-se do Pedro que jurava que os via todos, agora com a maior clareza, que nunca se tinha sentido tão completo.

Os gajos finalmente saíram de lá de dentro e falam comigo. Contam-me tudo! murmurava baixinho apontando para os livros que tinha na cabeceira. Envolto naquela alienação, sorrira, puxara-me para ele e segredara-me ao ouvido: Dizem que estou todo baralhado! Tretas, nunca estive tão lúcido na puta da vida!

Naquele momento, tive a certeza que nos perderíamos um do outro e não faltaria muito tempo. De facto, passaram-se apenas três dias para que me despedisse de Pedro na semi-obscuridade do quarto de onde se ouvia o vento levar para longe o grito de uma gaivota.