Mostrar mensagens com a etiqueta Arroz Doce. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Arroz Doce. Mostrar todas as mensagens

04 abril, 2020

Liberdade Libertina - Lisboa, inícios de 90

Talvez se lembrem dos Ena Pá 2000, o conjunto do Manuel João Vieira (MJV), perseverante pré candidato à Presidência como o Obama foi até que um dia ganhou, por isso nunca se sabe. Sob um fundo pop/rock/tanguista e outros, cantavam-se histórias viçosas e viciosas, assim para o avacalhanço. Lembro-me anos mais tarde de aparecerem uns gajos a tocar umas músicas a imitar e de ouvir o MJV dizer que gostava muito, que pareciam os Ena Pá menos as c@r@lh@d@s e está tudo dito.

O Puto apareceu não sei donde para dar a notícia que os Ena Pá vão tocar em Algés e é à borliú. Fomos a correr. Era na altura do álbum És muita linda, que foi um êxito estrondoso na nossa terra, vários discos de platina. Estávamos lá em peso. 

A voz portentosa do MJV iniciou as hostilidades. Aplaudimos as bailarinas enapás, sempre ultra elegantes e sexis e o melhor guitarrista do mundo, Phil Mendrix, que se juntara à festa. O bom do João não cantou o hit single  "Rap Alentejano". Depois de remexer todos os bolsos e os soutiens das bailarinas disse que não encontrava o papel e não se lembrava a letra e então siga a festa.

O engraçado é que era uma noite de campanha eleitoral, os políticos às vezes distraíam-se, pensavam que os Ena Pá eram pimba e depois lixavam-se, como quando numa festa da cidade os contrataram para um concerto no Pavilhão Carlos Lopes e eles começaram o show com o inevitável “masturbação a bem da nação”. Na verdade o responsável político andava cansado, coitado, e saiu de fininho. Sei da história porque uma garina me contou e também porque vi. Faço sempre o contraditório, não vou em politiquices.

O concerto decorria na boa, sempre a subir, como o lixo techno dos anos 90. O público esganiçava a brejeirice dos clássicos "Menina Azul" e a "Titi fez-me um Tété", sem dúvida um leque ecléctico de experiências musicais. Curtia-se bem, mas aquilo era Algés, que agora parece uma feira de viadutos e naquela altura era umas terras de hortas reviradas e que só se atravessavam de galochas, e também morava gente à volta.

O MJV começou a repetir eles andam aí, eles andam aí. Não percebíamos, mas o concerto continuava e o pessoal berrava e pulava. Chegou a meia noite e com ela o primeiro aviso, era hora de parar dizia a PSP destacada. Mas o circo seguiu e multiplicavam-se os eles andam aí. Mais meia hora e vieram falar com a banda, que não podia ser assim e tal, um foi falar com o MJV que acho que não ouviu, continuou a cantar e a repetir eles andam aí

Bem, a banda saiu passado um quarto de hora e ele ficou, eles andam aí, eles andam aí e cantava e tocava. O pessoal estava passado, loucura total. Parecia o Elvis a cantar em Las Vegas.

E então cortaram a eletricidade. No palco via-se só a sombra do MJV e o people resistente assobiou os bófias que queriam estragar a party que tinham apagado luz e som. E o bom do João, com a sua voz trovejante e ironia sardónica, entre uns eles andam aí, foi buscar uma viola por ali perdida e continuou a cantar e a tocar para o pessoal, tipo unplugged, ou seja desligado.

Os PSP entrarem em palco outra vez e com jeitos mansos, afinal havia política por ali, entre algum palavreado, que se resumia da parte do MJV a eles andam aí, confiscaram a viola por entre assobios vigorosos do pessoal quase amotinado. 

Pois o rapaz continuou ainda uns dez minutos a cantar, embora há já algum tempo falhasse mais notas que acertava. Acho que esgotou o reportório. Por fim, baixou se à beira do palco, repetiu eles andam aí e foi-se, Deviam ser umas duas da matina.

Depois de pensar muito naquilo que ali aconteceu continuo sem saber o que pensar daquilo que ali aconteceu. Vi muitos vocalistas a cantar sobre transgressão e anarquia, mas o MJV naquele concerto mostrou-me não sei bem o quê, apenas senti-me menos impotente, mais confiante, livre e independente. 

Obrigado Manuel João Vieira, concerto para a vida.

10 março, 2020

3ª Guerra Metal (Lisboa/1980)


Portugal era a última flatulência do rock. Alvin Lee, John Mayal e outros vinham cá ao cu de judas, já velhotes, ganhar uns cobres e até um dia veio a tótó da Joan Baez que obrigou o pavilhão a sentar no chão senão não dava o concerto e estávamos todos toscos, hippie é esta merda? E eu levantei-me e perguntei se podia ir à casa de banho e ela what? what? e a coisa ficou por ali porque me puxaram para baixo. Vá gozar com os portugas para o caraças.

Os heavy metal também vinham. Vi os White Snake, o Ted Nugent e até as Girlschool. Não fazia o meu tipo, mas papávamos tudo o que aparecia e depois também havia aqueles solos hipnóticos de bateria que duravam 30 minutos e que agora já não fazem porque não sabem. Aquilo é que era bater nas peles. O resto do show eram uns gajos de cabeleiras de caracóis, spandex de lantejoulas e foguetes a saltar do meio das pernas. 

Naquele dia a banda era qualquer coisa hard-rock inglês, os U.F.O.. Nunca tinha ouvido nem nunca mais ouvi falar deles. Foi no Pavilhão de Alvalade. 

Caía a noite e a confusão ateava. O pavilhão era pequeno como o raio e a produção como costume tinha vendido bilhetes a mais. A fila para entrar dava até ao Campo Grande, mas mesmo assim havia muito pessoal a rondar sem bilhete, incluindo nós, tal era a fome de música ao vivo. Agora a putalhada passa o Verão nos festivais e nem agradece. Vão é trabalhar prás minas de sal, tristeza.

O ar anunciava tumultos múltiplos e em redor preparava-se a 3ª guerra metal. Os seguranças estavam a ver que não era só fumaça e fecharam as portas assim sem avisar e ficou muito pessoal cá fora, inclusive gajos com bilhete. Era vê-los a deitar-se ao portão, pontapés ou cabeçada, valia tudo. Alguém gritou olha a bófia e fugimos todos para o mato, que naquele tempo Alvalade era um estádio no meio das hortas. Mas qual bófia qual quê, os seguranças que se safassem. Se o Sporting adivinhasse tinha pagado os gratificados. 

Já se ouvia o som dos U.F.O. a pesar lá dentro, que raio de nome para uma banda, e nós cá fora a espumar pela boca até que um reparou que uma das paredes da bancada do pavilhão encostava à do campo de treino. Ao cimo, onde as duas bancadas se seguravam na parede havia umas janelas. Tinham tirado os vidros e posto uns contraplacados a tapar. Pior a emenda que o soneto.

E prontos, alguém se lembrou vamos rebentar aquela merda, e eu não percebi bem, mas pereceu-me boa a ideia. Subimos pela bancada de fora acima e começámos a trabalhar na serradura. Puxa daqui, empurra dali, pimba, taruz, e aquilo começou a ceder e de repente éramos uns trinta a saltar para a bancada de dentro, como uns ratos enfeitiçados pelo solo de bateria que já corria.

Descemos aos tropeções pelo meio de quem estava e eu, que não vou dizer o meu nome porque não sei se esta merda já prescreveu, fiz uma finta de râguebi a um dos seguranças que bufava por ali acima para agarrar o pessoal. Em dez segundos tinha-me perdido no meio da plateia, enquanto a guerra continuava na bancada.

O solo foi razoável, ainda fiquei uns quinze minutos a abanar a carola. Os da banda viram que aquilo era terra de índios, tocaram, fizeram por agradar com uns encores o que não era difícil com a miséria a que estávamos habituados, receberam os 100 contos do contrato e bazaram naquela mesma noite. 

Para não me esquecer daquele sucedido, fiz um bilhete em cartolina, onde escrevi U.F.O. o sítio, e em letras garrafais BORLA.

Eram tempos em que se confundia vandalismo com anarquia e desde que não houvesse sangue, e raramente havia, estava-se bem.

19 fevereiro, 2020

Assalto ao Pedro Nunes - Lisboa, anos 80


Aviso: Esta é uma história amoral, mas tudo aconteceu na mais perfeita inocência de uma juventude irrequieta. 

Estávamos no snack do Migas a combinar os planos para a noite, porque as noites eram sempre poucas e tínhamos que as aproveitar todas e também porque era sábado e estávamos a bombar adrenalina. 

O Puto lembrou-se "hoje há festa no Pedro Nunes" e eu disse "é só betinhos" . O pessoal do Pedro Nunes tinha a fama de betoso e era. No meu liceu também eram todos, menos eu, mas como não faziam festas a questão não se punha nesses termos. "Arroz Doce, bute aí, deixa-te de cenas, eu sei uma entrada secreta" e eu disse "então vamos" e fomos.

O Pedro Nunes ficava ali ao pé do Jardim da Estrela onde ainda fica e claro os gajos da associação à porta tiraram-nos a pinta de proto-punques-alucinados e cortaram-nos a entrada. O Puto começou logo ali a dar estrilho, "somos rapazes honrados, não nos vamos fazer às miúdas", o que por acaso era mentira, porque era sempre essa a intenção. Começaram a sair mais grunhos lá de dentro, uma segunda linha de defesa/ataque e pelo sim pelo não fomos andando.

É claro que eu disse logo, "então como é que é a treta da entrada secreta?" E ele respondeu "vamos ver dessa merda, disseram-me que é numa janela lá para trás", "então não sabes onde é", "não" e eu "Ok". O pior que podia acontecer era aparecerem a PSP, a GNR e os Bombeiros, mas que se lixe, as betinhas tinham um apelo interessante. 

Demos a volta ao edifício a olhar para cima e nada e só à terceira vez reparámos numa janela ao nível do chão. Devia dar para a cave, tinha luz acesa e ouvia-se a música. Mas não se via nada lá para dentro.

"Fogo, deve ser aqui" disse o Puto e eu concordei. Com um empurrão abrimos uma das bandas da janela, mas a outra estava trancada e só por ali não dava para passar. Era um sítio estranho, via-se um corredor com várias portas. Estavam lá duas garinas bem curtidas e o Puto fez o choradinho para abrirem o outro lado da janela e nesta altura já lá estávamos os dois com a cabeça entalada e elas riram-se, o que é sempre meio caminho andado. Uma estava receosa, mas a outra avançou, abriu o raio da outra banda da janela e o Puto despencou por ali abaixo e eu caí-lhe nos costados. "Foda-se Arroz Doce", e eu "cala-te meu, olha as garinas". 

Só então conseguimos ver o outro lado, que estava meio tapado por uma parede pequenita. Tinha espelhos e lavatórios e nesse mesmo instante saiu uma rapariga de uma das portas e começou aos berros "Ó socorro, estão aqui dois pervertidos". Pervertidos nós, que tínhamos acabado de perder a virgindade, enfim. Mas ela continuava, "Ó da guarda!" As garinas desapareceram e nós saímos e vimos cá fora na parede um boneco de uma menina de saias sentada num penico. Caraças tínhamos entrado pela casa de banho das miúdas. 

Mas já estávamos no meio da pista a tocar guitarras a fingir e a abanar a carola e depois a dançar ska, que era um pé para a frente e outro para atrás, tipo os Specials. Entretanto os namorados ajuramentados das betas não estavam a achar piada e foram chamar os gajos da porta e no meio de uma confusão que só nos deixou mal vistos, eu ainda gritei "esta música é uma merda", e o Puto queria avançar, tinha vindo d'África e tinha a mania que era guerreiro. Tivemos sorte em não levar um enxerto, mas demos com os beiços na calçada. 

As duas garinas da janela estavam cá fora encostadas ao gradeamento a fumar um cigarro e parece que à nossa espera. Eram mesmo baris, fomos fumar uma ao jardim e acabámos a noite no Jamaica a curtir bués.

Ele há males que vêm por bem.

09 fevereiro, 2020

A excitação das freiras


O miúdo andava no infantário das freiras. Ele gostava e por afinidade eu gostava também, embora às vezes me lembrasse do trauma da catequese, sim, porque eu fiz a catequese das freiras, mas foi naqueles anos em que os meninos não gostam das meninas e era eu e mais onze e elas estavam sempre a cochichar e com risinhos. Foi um inferno, depois passou. Adiante...

Andavam há meses a ensaiar para uma festa, acho que era de Natal. O miúdo vinha e contava tudo. Andava contente, embora não fosse muito dessas confusões. Nisso saía ao pai que também não gostava de confusões.

No dia do espectáculo aquilo encheu-se de pais e mães, hoje seria mais confuso com mães e mães e pais e pais e isso. Desde a entrada que as freiras avisavam que havia uma surpresa. Freiras com surpresas só podiam ser doces (mas estávamos em Lisboa e não Odivelas) ou um terço rezado em grupo. Havia de ser giro, tudo ali entalado a rezar o terço, mas eu já traçara um plano. Se chegasse a isso, tínhamos que ir levantar a roupa que estava a ameaçar chuva. 

O tempo ia passando e ele eram criancinhas com flauta, rábulas do menino Jesus, coros de Natal, essas coisas que vocês sabem. O nosso rebento entrou num coro e fiquei muito orgulhoso pois ficou o tempo todo a olhar para o lado onde estava uma santinha. No final, fez três vénias e tiveram que o ir buscar. Puto do caraças, levou aquilo a sério. 

A freira chefe veio ao microfone dizer "vamos fazer um intervalo de quinze minutos e depois há de vir a surpresa". Andavam excitadas, notava-se. Tendo em conta que a média de idades era acima dos 55 a excitação cansava-nos, mas ficava-lhes bem.

Viemos do intervalo todos a falar da surpresa, o que seria, parecia um segredo bem guardado do Vaticano. No palco havia movimento. Trouxeram uns dos mais novitos e sentaram-nos no chão em semicírculo. Saíram, a expectativa cresceu e lá detrás dos panos, no seu passo meio errante, meio navegante, entrou o Jorge Palma e sentou-se no chão no meio dos putos a cantar o Postal dos Correios. Todos nós acompanhávamos com palmas e eu estava de coração derretido. 

O Palma portou-se bem, parece que o filho dele era colega do meu. Aplaudimos muito e os putos pequenitos acordaram do torpor e começaram a subir pelo Palma acima, que levou meia dúzia ás cavalitas. 

As freiras estavam radiantes e confesso que esta foi uma das mais surpreendentes surpresas da minha vida, ainda maior do que quando vi um unicórnio a voar, mas disso não tenho a certeza.

Bem hajam as freiras do Patronato e o grande Jorge Palma.




29 janeiro, 2020

O desespero de Adão e Eva

A casa era frígida, vitoriana, oca. Ensombrava em redor. Fomos ocupar a cave. Ao rodar da empena esquerda, no meio do tijolo escurecido das paredes esperavam-nos meia dúzia de degraus musgosos, quebrados pelos séculos já passados. Descemos com o homem das chaves.

Nesse dia que hoje estranho, em que se caminhava a passos largos para o cinzento sem fim e a chuva irritante, um esporão de sol flutuava e enchia-nos os corações de esperança. As folhas acumulavam-se ao fundo das escadas e depois de encontrar a chave no molho, a porta aberta trouxe um cheiro a bafio. Um curto corredor, uma sala larga que servia também de quarto, janelas altas ao nível do chão, pequenas cozinha e casa de banho. O preço era bom e embora desviados do centro, era lá para Finchley, aceitámos. 

Fizemos a mudança na carrinha do nosso amigo Terry. Sentiu o vento para se orientar, olhou para a parede da casa e para as janelas rentes à terra, enterrou mais o gorro e encolheu os ombros e disse baixo "vão passar muito frio". 

Os dias iam encurtando e chegávamos já de noite. O bus parava ao fundo da estrada. Era larga e inclinada. Subíamos entre árvores decadentes e torcidas, que de dia ensombravam os passeios e à noite confundiam os reflexos dos candeeiros em sombras ancestrais acorrentadas ao chão. Sebes e muros tapavam outras vistas, outras casas, outras vidas.

No topo da subida a casa enfrentava-nos, negra a suar mistério e corações partidos. Temia olhá-la e no entanto vivia nas suas entranhas. 

Na cave a humidade escorria nas paredes e tínhamos uma fenda na cozinha de onde saiam cogumelos já secos. À noite o pequeno aquecedor projetava um vermelho que não aquecia, mas que oscilava no estuque e pintava retratos nos recantos do teto. Entorpecidos pelo frio, fechávamos os olhos e aquecíamos um no outro, pele com pele arrepiada pelo frio dos lençóis. Esperávamos o amanhecer que só chegava quando já descíamos a estrada larga por entre as sombras matinais do arvoredo. Nem tudo era mau, mas pouco havia de bom neste covil no fim do mundo. E então aconteceu.

Subia pelo passeio. A luz escasseava, era uma noite escura. Ao longe, com um feixe de lua por cima, a casa chamava-me os passos. Olhei-a e senti um calafrio e algo me impeliu a apressar. A luz da cave estava acesa e a porta aberta, ela devia ter acabado de entrar. Desci as escadas e chamei-a, mas não respondeu. Voltei a chamar, mas apesar de todas as luzes acesas e do ruminar estático da televisão, o silêncio era gelado. Na cozinha uma panela de legumes era a esperança de uma sopa quente. Revirei a casa, ela por vezes desmaiava, tinha a tensão baixa, mas não estava.

Num segundo caiu-me um desespero e assombrou-me a vontade que tinha de a ter comigo, era a razão de vida, a proteção dos meus caminhos. Amava-a. No segundo seguinte caí na realidade, estávamos algures numa cave gelada de uma casa grotesca que oprimia e atraia medos, numa cidade de lendas e histórias de entranhas sanguinolentas. 

Subi as escadas e chamei o seu nome, contornei a casa e agora gritava. Solitário pela estrada abaixo, bradava e a cada resposta vazia, mais um ninho de lágrimas me secava. Somos unos, onde andas, onde estás? Entrei em veredas entre sebes e muros e as copas das árvores pareciam mais baixas. A minha voz enrouquecia e do meio das veredas era contínua a mancha de corvo da casa ao cimo da colina. 

Frenético ouvi o meu nome. Ela caiu-me nos braços. O seu pranto era dolorido, o seu amor rezava e o seu sofrimento abafava. Abraçámo-nos com força e ternura, a afogar as lágrimas no ombro do outro. 

Nunca percebemos o que acontecera. Ela sentira uma agonia e desesperada abandonara a casa. Procurara por mim. Passámos essa noite em branco. Ao amanhecer chamámos o homem das chaves e saímos no mesmo dia. 

Irritado ainda nos disse que não alugara a cave a um médico egípcio por nossa causa, que só o fizéramos perder tempo.

Ó homem, sinceramente, boa sorte e vá-se f*der.

14 janeiro, 2020

Punkitos no varão - Londres, anos 80, à tardinha

Aquilo era um varão onde toda a gente se agarrava para subir ou descer consoante as suas circunstâncias. Eu e ela seguíamos do trabalho para casa num double decker, aqueles autocarros vermelhos de dois pisos que não tinham portas. Subimos ao andar de cima por umas escadas tipo caracol que também tinham um varão ao meio. Gostávamos de ir ali a apreciar a vista.

Um pica corria os corredores com uma máquina redonda que parecia um barrilzinho com aguardente, daqueles que levavam os são bernardo para salvar gajos da neve, mas donde inteligentemente saíam uns papelinhos que eram os bilhetes e ele fazia os trocos e metia os penis no bolso. 

Uma paragem à frente subiu um grupo de punks e punkitas, dos normais, não daqueles de moicanas todas às cores para cobrar o retrato ou vender balões lá no Hyde Park. Os putos tinham pinta, despenteados, com blusões de cabedal e meio esfarrapados. Deviam ser squatters e estavam a parvalhar, mas na boa. Tinham aquela pele branquinha que o meu amigo Li dizia, cara que inveja, parece que estão sempre lavadinhos. Pelo sim pelo não, o pica não apareceu. 

Nós observávamos a cena. Era bom que não viessem embirrar que esta gente tinha a mania de embirrar com qualquer coisa. Só para verem, um dia à saída do metro atirei uma beata para o lado, assim como se faz no jogo do berlinde, e foi logo cair na bota de um skinhead, que fez birra mais os outros nazis que estavam com ele e vieram para me matar aos berros de you fucking spanish, os gajos sabiam como ofender. O Boris avançou e falou com o gajo da beata e bazamos sem estrilho nem sangue. Fogo, o Boris era o maior. Disse-me ainda, falas sempre só com um, sempre o mesmo. Se for o gajo errado you're fucked, se for algum que não queira levar nos cornos you're safe. Pelos vistos aquele era como eu, não queria levar nos cornos salvo seja. Tava sempre a aprender.

Lá íamos no bus. A nossa paragem era junto a um 7-Eleven, que eram umas lojas que estavam abertas sempre ou quase e pareciam um aquário, tinham umas vidraças enormes a toda a volta. 

Isto que vou contar passou-se em dez segundos.

Varão após varão descemos mesmo em frente à montra e um punkito saiu lá de dentro a correr e mandou uma pedra que estava ali à mão à vidraça que se partiu com um grande estrondo em mil vidrinhos e o rapaz entrou a saltar no autocarro e subiu as escadas três a três lá para cima e os empregados do 7-Eleven a barafustar a subir atrás dele e logo a descer, pareciam uns bombeiros agarrados aos varões, com o grupo dos doidos que lá estavam atrás deles e a fecharem-se dentro da loja, o que era parvo porque a vidraça mesmo ao lado estava toda escavacada, e os outros cá fora a fazerem desordem lá para dentro e aos pontapés na porta, o que era parvo porque a vidraça mesmo ao lado estava toda escavacada, e a sirene da polícia ao longe e o autocarro a bazar acelerado e os putos a correr atrás e alguns ainda se fizeram ao varão e apanharam o autocarro e os que não conseguiram fugiram pelas ruas e a polícia a chegar e a interrogar o dono da loja porque os empregados tinham desaparecido, deviam ser todos ilegais, e o dono a dizer que se não fosse a mulher e os filhos tinha-os matado a todos e estou a inventar porque o homem falava hindu ou isso e eu e ela encostados à paragem porque ver uma cena daquelas cansa a adrenalina e no fundo o que ali se passou não interessava a ninguém e seguimos caminho. 

Eram tempos selvagens.

30 dezembro, 2019

Ano Novo, vida nova OK

Olha o estouro, será que já estão a abrir o champanhe? Era falso alarme, ainda faltavam uns minutos para o final do ano.  O estouro foi um mistério logo esquecido. A sala parecia uma carga de índios, o andar fora alugado só para aquilo e era longe, nos Algarves. A festa começara na véspera da véspera e àquela hora já estavam todos avariados.  O Doc levara uma aparelhagem portátil e a música era pesada,  durante o dia rock e à noite electrónica e pimba a partir a cabeça nossa e dos vizinhos.

Faltavam poucos minutos para abraçar o Ano Novo. A meio da sala estava uma mesa larga cheia de doces, bolos e alguns croquetes que tinham sobrado e garrafas de bebida a meio ou vazias, até uma de água ainda por abrir. Os únicos copos limpos eram os cálices do champanhe, embora um já tivesse batom, vai-se lá saber porquê.

A Maria fazia montinhos de passas. Também era boa nos cocktails, fizera uns mojitos que tinham tudo, limão, açúcar, o indispensável hortelã e rum do amarelo que era o melhor. Só faltara a gasosa e aquilo felizmente caiu no molhado porque o pessoal tinha acabado a janta, mas deu um andamento do caraças para aguentar a noite.

O Ginjas dançava abraçado a uma garrafa de brandy e os outros saltavam e gritavam e empurravam-se, e iam à mesa petiscar e beber quase esquecidos do que estavam à espera.

Não havia televisão, cada um estava a contar o tempo pelos seus relógios. Tão bem o contaram que se festejou a passagem do ano três vezes, com duas contagens decrescentes, a segunda por teima de bêbados, porque parece que há sempre relógios mais certos que os outros e a terceira porque ao longe se ouviu uma grande algazarra. Os abraços, beijinhos e votos repetiam-se e depois foi o pessoal todo para a varanda bater com tachos e o que havia. De repente lembraram-se do champanhe e voltaram a correr.

O Quico agarrava a garrafa e a Maria distribuía as passas e os cálices. Vá lá abre essa cena, começaram a gritar. Com pressa rasgou a cobertura prateada, depois desapertou o arame  e muito lentamente, com os dois polegares foi empurrando a rolha para fora do gargalo para o champanhe não transbordar, mas a meio, quando sentiu a rolha a fugir, abanou aquilo e ouviu-se o estouro e o líquido jorrou alegremente. Aproximaram-se todos de cálice estendido e ao mesmo tempo ouviu-se uma explosão. O candeeiro do tecto, um candelabro de fancaria tristemente baleado pela rolha, caíra em cima da mesa e escavacara tudo. Safaram-se as bebidas que estavam numa ponta e uma travessa de arroz doce que estava na outra ponta.

O Quico riu-se e fez-se o brinde, viva o Ano Novo.

09 dezembro, 2019

Compras de Natal. Corta e siga o filme


O Natal vinha aí acelerado, ou era véspera ou era um dia antes da véspera, para a história tanto faz. Tínhamos que comprar aquelas coisas que faltava comprar, no nosso caso tudo ou quase, só tínhamos uns ferrero em casa, mas eram do ano passado, já deviam estar escangalhados e estavam esquecidos dentro de uma almofada não sei porquê, e cheirava-me a chocolate todas as noites e eu pensava que era a minha anja da guarda e um dia enganei-me na almofada e acordei com uma dor de pescoço do caraças.

Bem, faltava-nos sabonetes, porque ir bem cheiroso para as festas de família era básico e então Natal caraças fogo, e chouriças e queijos e vinhaça, que já havia quem levasse pasteis de bacalhau, bolo rei e arroz doce, e eram as prendas, um carro e uma boneca para os filhos dos primos, uns putos ranhosos  e chatos que limpavam as mãos aos sofás e vinham para as minhas calças e segurava-os com a mão na testa e eles depois corriam pela casa a fazer de camião dos bombeiros. Aturava-os porque a mãe sorria e era uma alegria na festa, não vou dizer porquê, imaginem, é Natal, imaginem à vontade, que se lixe. Por mim tinha levado uns xanax aos putos, mas ainda não fabricavam. 

Havia ainda só um ou dois hipermercados e era um de Alfragide, acho que era Pão de Açucar que é um nome parvo, imaginem um pão de açúcar, mais valia chamar arrufada ou bola de berlim, mas assim se calhar tinham que pagar direitos de patentes e assim não, mas não deixa de ser uma porcaria de nome, por isso foi-se. Continente e Jumbo ainda lá vai, mas Pingo Doce é o máximo, faz-me lembrar doces de ovos e a mercearia do Sr. Manuel que nesta época só vendia bacalhau ás postas e Vinho do Porto martelado, mas do bom.

Toda a gente ia ali e era meio dia. Andámos uma hora para estacionar, ao sol. Imaginem sol no Natal, o Menino Jesus estava contra nós. Também só vi uma vez neve nesta terra e foi uns mijinhos que aquilo não era nada, uma lamazita, preferi ver uma vez um granizo, que aquilo sim, até dava para fazer gelados daqueles d'água, mas também andava tudo constipado e aquilo derreteu e ninguém aproveitou nada.

Não havia carrinhos à entrada, só gente e mais gente e estivemos à espera que alguém largasse um e depois foi tipo uma corrida, a parceira disse vai Arroz Doce, apanha. E fui e apanhei e depois fugi, porque veio um matulão atrás de mim que devia saber karaté, mas tropeçou nela e lixou-se e eu entretanto já tinha passado pelo meio da multidão enfurecida.

Atenção, aquilo ainda não era hiper ou essas porras das grandezas, era só super, isto era uma tristeza de terra banhada pelo sol e praia, quem me dera já o verão, e estava cheio de gente e de carrinhos, mas lá íamos andando com muita calma a empurrar o nosso. Virámos uma quina e entrámos no corredor central e pensámos vai-se andando, ela vai buscar as tretas e comida e eu a bebida e fica sempre um no carro, aquelas coisas de casais coordenados que parece que têm antenas como as abelhinhas e os zangões. O corredor estava apinhado e fomos e ao fim de dez metros parámos o carrinho e toda a gente parou. Tudo parado, tudo travado.

Bolas era um super-engarrafamento. Só vi um igual na última noite da Expo, que ninguém punha os pés no chão, o pessoal era uma mole humana que se mexia por inércia. Estas palavras aprendi nas legendas duns desenhos animados que passavam quando era puto, com um velho de barbas brancas, que explicava o mundo e não sei se aquilo era francês, mas que sabiam muita coisa sabiam, agora são os ingleses e os americas que sabem, só não sabem encontrar a saída para o buraco em que se meteram e vêm para aqui beber jolas e vinho tinto para esquecer.

Ninguém andava. Tudo parvo a controlar os outros ou a assobiar. Um maluco começou com com licença, com licença e ficou tudo a olhar para ele como se fosse maluco, então aquilo era carro encostado a carro e pessoas já dentro dos carros e uns abanavam uma bandeira de Portugal, como se estivessem perdidos no Oceano e nós ali à meia hora a olhar um para o outro e eu disse isto está uma merda não anda e ela disse vamos bazar vimos amanhã e eu disse que sim e deixámos o carrinho lá no meio e tinha no bolso uma campainha de bicicleta e lá conseguimos saltar por cima das caixas e sair e estava a chover. É claro que os putos levaram com os chocolates e agora já tão grandes, façam-se à vida.

Escrevi isto para que vos sirva de exemplo para não deixarem as coisas para a última, que eu aprendi com a idade e já combinei comprar as coisas no dia 22, que até dá jeito porque é domingo, e vou ao Colombo pela tardinha, com calma e faço as minhas compras. Quem vos avisa amigo é.

22 novembro, 2019

Route 66, Arizona, costa alentejana, meados de 80



Arroz Doce, só arranjas cenas destas, fogo. Ela estava lixada e eu também. Mandava vir, mas os olhos azuis completavam o céu e eu aparava os golpes todos. Deixa-te disso, estás a gastar o oxigénio, disse euFuzilou-me com o olhar. Pensei, para rebolar uma hora no pinhal, tudo bem, mas cinco minutos a caminhar e já está em brasa. Ela disse não penses que por pararmos cinco minutos no pinhal te safas, a culpa é tua de andarmos aqui à uma hora a caminhar. Era muito vocal. 

Íamos para uma festa de música numa praia alentejana e o ferry para a Troia fora-se antes do nosso tempo. Depois foi a vez do vai-vem para a festa que só vinha e ia uma vez. Eu disse logo, vamos à boleia, e ali estávamos de dedo esticado a caminho do mais para sul. O plano era sempre o mesmo. Se alguém parasse eu fingia que não existia e ela depois chamava-me e o pessoal do carro ficava entalado, ou levava dois no lugar de um ou bazava. Devia ser por eu não usar gravata. Naquela tarde ninguém passava, quer dizer, passou um Ford Cortina amarelo com um casal de velhos, deviam ter mais de 35. A mulher olhou para nós e pensou, deve andar fugido de Pinheiro da Cruz e ela é refém ou cúmplice. Continuaram. Depois passou uma carrinha cheia de porcos. Parou e fizemos de conta que não a víamos. Estamos lixados, pensei eu e ela disse estamos lixados, devíamos ter ido com os porcos. Ela era mais vocal.

Bem, começámos a ouvir um zumbido, depois um ronco e depois um trovão e começou tudo a tremer. Uma nuvem de pó vinha na nossa direcção. Grande azar chiça, tínhamos que levar com uma manada de búfalos. A ela passou-lhe a zanga e agarrou-se a mim. Uma sombra passou, ouvimos um chiar de travões e pneus. Parada mais a frente estava uma bomba. O condutor pôs a mão de fora a chamar-nos.

People, o carro era uma loucura, ocupava a estrada toda, era vermelho, com uma lista preta a subir do capot até à bagageira, jantes do aço a brilhar por baixo do pó, todo artilhado. Roncava, ele ia carregando no acelerador, impaciente. Querem boleia? perguntou e eu pensei sim claro, caraças, andávamos aqui a apanhar sol, e disse sim senhor. Ao fundo daquele capot que nunca mais acabava estava um cavalo prateado. Era um Mustang daqueles dos filmes americanos, estávamos na Route 66. O man era ruivo, forrado a couro tal era o bronze que comia as sardas. Tinha um rabo de cavalo e os dedos cheios de anéis e uma camisola de alças com o Rato Mickey. 

O tecto estava forrado de fotos de raparigas. Achei aquilo estranho, mas não era nada de pornos, só sorrisos e pernas bonitas, e dava bom ambiente. Uma foto em branco tinha uma faca do mato espetada que pendia do tecto. Devia ser para estar sempre à mão. No banco atrás estava uma  espingarda mesmo ao lado da garina. O gajo pouco falava e ela perguntou és caçador? e ele respondeu caçador, que merd@ é essa? e ela disse tens aqui uma espingarda, e ele respondeu que espingarda fod@-se? Percebi logo tudo, era um serial killer, mas parecia estar em negação. Do mal o menos. Fiquei a pensar que era o primeiro que conhecia pessoalmente. Fixe. Carregou no acelerador, o carro parecia um leão. Levantou a embraiagem e o carro saltou e o mundo passou a correr ao nosso lado. 

De repente disse segura aqui o volante e largou-o e eu todo deitado, quase sem ver a estrada, fiz o que pude a 160 à hora. Olhei para trás, ela estava branca, mas riu-se, era só adrenalina, Route 66 e tal. O pintas enrolou uma e disse acende aí. Aquilo começou a rodar e passados dois minutos estava tudo estalado a rir e ele carregou no acelerador e a faca do tecto caiu e ficou espetada na cabeceira do meu assento.

Tudo isto durou cinco minutos, o Mustang voava. Mais uma travagem acelerada e saltámos do carro. Sigam por aquele caminho, a praia é sempre em frente, disse o gajo. Um trovão e o carro já nem se via, só se sentia a roncar do escape e a deslocação do ar. A miúda disse o gajo tem pancada nos cornos e eu pensei mas o produto era bom e ela disse mas o produto era bom. Ela era mais vocal. Um cenóide do caraças, ninguém ia acreditar.

De repente estávamos no deserto do Arizona. Eram só cactos e mato. Um sinal cheio de chumbo apontava a praia. Um calor do caraças. A boca estava seca e já não ríamos. Cada passo era um esforço. Ninguém passava. Andávamos, não havia sombra e eu pensei já bebia uma fresquinha, e ela disse bebia agora uma fresquinha. Já referi, ela era mais vocal e acho que lia os meus pensamentos, fogo, tinha que me por a pau. Por outro lado era fixe, nem precisava de falar.

À beira do caminho estava uma casa, uma miragem. Uma tábua dizia "vinho". Ficámos a olhar um para o outro. Vamos lá Arroz Doce, ela era decidida. Bati à porta e apareceu um homem de barba negra de dois dias e de boina, o que me pôs de pé atrás. Devia já ser paranóia. Vão para a festa? perguntou. Vamos, disse eu, mas estamos com uma sede, já vimos a pé desde Troia. Eu falava pouco, mas gostava de exagerar. Entrem para provar do vinho, disse ele. Entrámos. A sala era fresca com naperons e bibelots por todo o lado, devia haver por ali uma mão de mulher. Encostada à parede uma espingarda. O homem trouxe uma garrafa de branco e começou a despejar nos copos. 

Ela era curiosa e perguntou a sua mulher não está? O homem respondeu bem falta me fazia, as últimas morreram dumas cáries. Eu olhava com ar de estronço e ia dando na vinhaça e ela não parava, é caçador? Caçador, porra, eu não a matei, não mato nada, e franziu mais o sobrolho e ela continuava, tem ali uma bela espingarda e ele, qual espingarda fod@-se? Boa, outro assassino em série em negação. No mesmo dia apanhámos dois, devia ser um recorde. A miúda riu-se, já estávamos todos toscos, queria lá saber e eu continuava a olhar feito estronço. O homem começou a contar histórias de cabritos e da cor da uva, mas tínhamos que ir andando que se fazia tarde e ele deu uma garrafa a cada um da zurrapa do quintal. A praia é já ali, disse. Fomos a beber pelo caminho, ríamos e uivava-mos e seguíamos aos saltinhos. Vimos o acampamento e o azul do mar atrás das dunas.

Que cena marada, em vinte quilómetros tínhamos passado pela Route 66, o deserto do Arizona, tínhamos conhecido e sobrevivido a dois assassinos em série e eu estava com tanta, tanta sede, que só me apetecia beber a água do mar.

23 outubro, 2019

Na mira de uns corações aflitos quem sorria era a bala

Lisboa, princípios de 80. Éramos putos, andávamos a descobrir, tínhamos um grupo fixe, a vontade não faltava. Garrafas na mão, íamos curtindo, elas gostavam, nós gostávamos, boa onda. As conversas eram sempre para mudar o mundo, acho que faz parte, ou sobre o livro tal, ou o filme tal ou o disco tal.
Inventavam-se coisas, tipo o Johnny Rotten tinha cantado o "God save the Queen" em cima de um banco, porque era proibido ofender a dita em solo inglês e ríamos porque para nós era verdade e queríamos fazer o mesmo.
Aqui e ali íamos-nos refundindo num beco para dar uns bafos de marroquinices, que também faziam parte da arte de descobrir as coisas. Depois a festa continuava pela rua.
Naquele dia éramos uns oito, não sei, a algazarra era grande. Passámos por um polícia, vulgo bófia ou "burro cinzento" por causa daquelas fardas horríveis que usavam e o burburinho baixou de tom. A ditadura ainda estava a apodrecer e a democracia chegava devagar, devagarinho. Continuava-se a cuspir no chão.
De repente, de trás vem um grito tipo filme americano: todos encostados à parede, rápido, já, identifiquem-se. E nós feitos parvos a olhar uns para os outros. Alguém perguntou, está a falar com a gente? e o homem tirou a pistola e com os braços esticados, apontou-a a quem estava à frente. Se assim não fosse, o bigodinho fininho, o tronco fininho e a barriga enorme só davam para rir.
O bófia suava, rápido, rápido, as mãos na parede. O homem estava passado e a abanar a pistola, não parecia saber bem o que queria.
Encostámos-nos a um muro. Tirem as coisas dos bolsos. Isto era dirigido aos rapazes, pois as raparigas pouco usavam bolsos.Usavam aquelas saias rodadas, que eram bem práticas para certas coisas. E o respeitinho também era muito bonito.
Tirámos as carteiras, vulgarmente tesas, isqueiros, tabaco, BI, 
rebuçados de mentol, as coisas do costume.
As miúdas usavam também aquelas bolsinhas a combinar com a roupa e quando havia algo "ilegal" costumava andar ali. Quando falo de ilegal, atenção que falo de caramelos espanhóis ou bombons de chocolate. E quando íamos a Setúbal buscar cinco toneladas daquilo, elas punham na bolsinha, afinal numa bolsa de mulher cabe qualquer coisinha.
Bem, o homem estava desvairado, sacudia a pistola no ar e bufava e eu a pensar ainda dá algum tiro, e como nestas coisas salvem-se as mulheres e as crianças, ia-me calhar a mim.
Entretanto juntaram-se as vizinhas e umas diziam 
coitados dos miúdos e outras diziam, tão mimosos, será que os vai matar, e uma outra não tirava os olhos dos glúteos do meu amigo T.. Os vizinhos olhavam as miúdas e babavam-se e falavam ao contrário do que queriam, porque o que eles queriam sei eu. A democracia ainda não chegara ao cabelo empastado.
Foi então que o gajo se apercebeu da cena que ali se montara. Pensou três vezes e lá deve ter concluído que aquilo dava mais cana para ele do que para nós. Gritou muito alto, mais alto ainda para a vizinhança para não perder a face enbigodada, Sigam, Sigam, desapareçam, e o C. que era também doido perguntou, e o tabaco, vai ficar com ele

O homem estava tão nervoso que nem conseguia enfiar a arma no coldre, ou lá como se chama aquilo. Nós seguimos o nosso caminho banzados da tola e da pistola.
É por estas e por outras que hoje há psicólogos na polícia.

08 outubro, 2019

O grande roubo ao Casino

Portugal, meados de 90. Fomos convidados para um casino. A história do convite é curta, por isso não vale a pena contar. O que é certo é que fomos convidados pelo Chefe de Sala para ver um espectáculo e para jantar de mesa com tudo à borla. 

O cantor tocava piano e era um daqueles que já passaram o seu tempo e andam pelos casinos a fazer pela vida. Fez-me lembrar o Elvis, mas este aqui tocava e cantava uma mistura de jazz e blues, era agradável. 

É claro que não houve daquelas cenas de atirar lingerie para o palco, que essas coisas não devem ser feitas em público e muito menos num casino. A mim, o mais que me aconteceu foi, Arroz Doce vês as minhas cuecas? e eu, olha estão ali no candeeiro do teto, vou buscar o escadote, e ainda a pensar na outra coisa. O pianista cantor deu um bom espetáculo. 

Estávamos ali sentados numa mesa numa sala enorme. À nossa volta era só pessoal dos Globos de Ouro, que ainda não existiam, mas vocês percebem o que quero dizer. Lembro-me do Herman com a sua trupe e de meia vermelha e do Rui Veloso, um dos gajos mais fixes que conheci. Éramos convidados, dá para imaginar, aquilo foi comer e beber, ui, beber, que o vinho era de uvas velhas e o uísque não era de Sacavém, embora eu geralmente não fosse muito esquisito nessas coisas.

Comecei a deslumbrar com um cinzeiro que estava na mesa, juro que foi do álcool. Aquela coisa era linda, parecia de cristal, refletia o arco íris da noite e só servia para sufocar beatas, que desperdício do caraças. Devia pesar um bom quilo. Despejei as beatas para outro, limpei-o da cinza e ela disse, Arroz Doce qué que estás a fazer, e eu, vou levar isto, e ela, mas tu és doido, deixa estar essa merda, e eu, mas é tão bonito, e ela, pois é... Meti-o num bolso qualquer.

Acabou o espetáculo e o nosso anfitrião, aquando das despedidas, perguntou se não queríamos conhecer o casino e nós claro que queríamos e ele era um baril e lá fomos a rir e a cambalear atrás dele e a fazer muitas perguntas. Ele devia estar habituado, estava na boa no seu smoking. Levou-nos aos bastidores, às cozinhas, à sala das televisões onde a mafia via as mesas de jogos (treta que naquele tempo não havia dessas coisas, era porrada e pronto), aos camarotes das estrelas, sei lá eu que mais. 

Estávamos a falar e alguém abre uma porta de repente e eu dou um salto e o raio do cinzeiro caiu aos pés do homem. Ela levou a mão à boca, como quem diz, que surpresa, não tenho nada a ver com isto, eu olhei para o teto, como quem diz, como é que isto caiu do teto e depois para o bolso, como quem diz, como é que isto estava no bolso.

Ele era um gentleman, Como se nada tivesse acontecido disse, se soubesse que tinham gostado tanto do cinzeiro tinha-vos arranjado um novo, e eu a tentar escavar um buraco para me enfiar. Continuámos a visita como se nada fosse e quando saímos lá veio alguém trazer-lhe um cinzeiro, novíssimo, ainda na caixa e tudo, que ele nos ofereceu cheio de charme. Nunca vira tanta classe junta numa pessoa.

O que é certo é que nunca mais gamei cinzeiros nos casinos, toalhas nos hotéis, copos nos bares, nem sequer voltei a fazer xixi na praia, palavra de Arroz Doce.

18 setembro, 2019

A vingança serve-se na tola


Lisboa, finais de 70. O Sr. Freitas era o diabo, fazia-nos a vida negra, era o porteiro do liceu. Cabelo oleoso a tapar a calva, olhos encovados, nariz a segurar os óculos, bochechas para dentro, era um esparguete esticado e muito seco que usava sempre uma bata azul que lhe ficava larga. Chamávamos-lhe o "escadote".
Hoje percebo-o melhor, Devia estar para a reforma e estava farto de aturar putos, mas era abestalhado e casmurro que nem uma porta, para não lhe chamar outra coisa, coitado do homem.
Subia-se uns degraus largos. A meio estava um busto esticado para baixo de um poeta reconhecido, só lhe  faltava as pernas, numa pose eloquente de recitação, o indicador e o médio abertos onde invariavelmente alguém pousava uma beata. 
Entrava-se num pequeno átrio e o Sr. Freitas tinha do lado direito uma secretária onde não cabia. Quando estava passava o tempo a resmungar e a espingardar e quando não estava andava em missão.
O gajo conhecia-nos a todos e éramos muitos. Se trazíamos um amigo ou amiga de fora  saltava da secretária e recorrendo a um outro poeta, dizia, quem és, de onde vens, para onde vais, põe-te a andar daqui, era um cão de fila. Via quem fumava e fazia queixinhas e lá vinham os pais ao conselho diretivo. Ralhava por tudo e por nada e quando olhava-mos para trás, lá estava ele na sua bata azul como uma aparição. Corria pelo pátio aos berros se jogávamos à bola ou andávamos de skate e se apanhasse alguém nos meles, vai lá vai. O "escadote" ficava lixado porque quando voltava as costas não lhe ligávamos nenhuma. Mas controlava tudo.
Uma vez ia a entrar e o Sr. Freitas chamou-me e disse, Estou de olho em ti, és uma má influência, estou de olho em ti. Fiquei perplexo e sem palavras. Eu, Arroz Doce, um aluno exemplar, que pouco desestabilizava porque raramente ia ás aulas, dizerem-me uma coisa dessas? A mim? Devia-me ter confundido com as más companhias que teimavam em me acompanhar, que podia eu fazer? Custei a ultrapassar o trauma, mas felizmente arranjei uma psicóloga que cruzava as pernas e usava meias rendadas e as sessões eram um prazer. Um dia disse, vens aqui para te tratar, não para dar paleio. Irra, a coisa até estava a correr bem, mas acabei por me tornar uma pessoa mais ou menos normal.
Bem, resumindo, que a conversa vai longa e a vingança serve-se fria. 
O Liceu tinha um ginásio enorme, com espaldares nas paredes. Nunca vi ninguém a usar aquilo, nem sabia para que serviam. Nunca soube, não interessa. Por cima dos espaldares a luz entrava por uma janelas oscilobatentes (sei lá, é o que está no Google). Eram uma janelas pequenas, velhas da idade do liceu, que balouçavam para dentro e fechavam com um trinco em cima. 
Naquele tempo o Ministério andava a apalpar. Havia exames neste ano e no outro e depois deixava de haver. Aquele talvez fosse o exame do 10º ano. Tinham posto carteiras no ginásio, viradas para um dos lados, ou seja para uma das paredes com espaldares. Devíamos estar uns 300, mais coisa, menos coisa. O Liceu era grande. 
A meio do exame, não se ouvia uma mosca. Descai uma janela. Passados dois minutos entra o Sr. Freitas, contrafeito e esbaforido e a reclamar em surdina e nós todos a olhar para ele. Quem é que não gosta de uma distracção no meio de um exame? O "escadote" sobe o espaldar e empurra a janela para se fechar. Aquilo cai de novo e bate-lhe na tola. O homem bufa e nós sorrimos. Empurra-a uma segunda vez com mais força e a cena repete-se, pimba na careca. O homem está passado e nós riamos pois o que se havia de fazer, era o Sr Freitas a levar na tola. Por último o Sr. Freitas, a espumar, bate com a janela com toda a força e ela fecha. Não sei como não partiu o vidro. 
Desceu o espaldar e a meio caminho para a saída, a janela abre de novo. Olha-a com olhos de demência e sai-lhe um pró raio com esta merda toda e vai-se embora. A janela ficou aberta e deviam-nos ter dado mais quinze minutos para o exame, que foi o tempo que ficámos às gargalhadas. Cá se fazem, cá se pagam,

28 junho, 2019

O dia em que pedi um pedido


Um dos meus primeiros trabalhos, quer dizer, era mais um emprego, foi tirar passaportes no GC. Anos 80, havia a CEE, mas os portugas precisavam de passaporte e de visto para tudo que era sítio, mesmo na Europa. Éramos uns pelintras.

Lá no GC tínhamos um guiché só para nós, onde umas mulheres ou homens de mal com a vida não nos batiam porque não podiam, era só um guiché. Falo em nós porque éramos quase todos uns putos da mesma idade, tipo fugidos da escola e que trabalhávamos para empresas parecidas.

Entregávamos os papéis, ele era azul de 25 linhas, selado, assinaturas reconhecidas, carimbos e fotos à la minuta, sei lá, o pacote completo. Depois era rapidíssimo, um mês para o normal e sete dias úteis para a urgência. Os "dias úteis" é como nos preços, está escrito 9.99, nós dizemos que é 9, mas é 10.

Há sempre uma primeira vez em que o lirismo do sistema, bem à tona naqueles anos, nos encurrala num sítio qualquer. Um gajo precisou de um passaporte urgentíssimozissimo. Tipo de um dia para o outro. E eu à toa, lixado. E o patrão, trate disso, então, anda aqui a fazer o quê? E eu continuava à toa.

Cheguei ao GC com a papelada e estava lá o meu amigo, gajo d'Alfama, de bigodinho, que falava a cantar o fado e sempre a rir. E eu, porra, já viste esta cena, como é que desenrasco esta merd@, meu? E o gajo, é fácil, fogo, nunca pedistes um pedido? Anda comigo. O gajo era batido, era d'Alfama. Era também um baril.

Mas, porra, que raio, pedir um pedido? Atravessámos a rua para o prédio em frente onde se levantavam os passaportes num balcão, num primeiro andar. E o gajo disse, entra aí. Era uma porta do lado esquerdo do balcão. Estavam lá meia dúzia de putos que eu conhecia, alguns com muitos papéis, mas todos caladinhos. Tinha uma porta em frente. Quando chegou a minha vez, entrei.

Numa secretária pequenina, estava um homem enorme todo encurvado, de óculos embaciados, com pilhas de passaportes e papéis por tudo o que era tampo e não só. Não levantou a cabeça, só lhe via o cabelo empastado e o suor a escorrer para o fato dos Fanqueiros.

Fiquei parado à espera. Ao fim de uma eternidade perguntou, o que quer? e eu sem saber bem o que se passava ali, disse, vinha pedir um... pedido! E o homem disse, enfronhado na papelada, deixe aí e venha levantar amanhã. E assim fiz.

Foi uma das primeiras vezes que este país me pôs a mão por baixo.

06 junho, 2019

Arroz Doce no arco-íris

Londres, finais de 80. Trabalhava com dois gay num restaurante, um inglês e o outro brasileiro. Tinham “saído do armário” havia anos, se é que alguma vez lá tinham estado. O Jimmy era alto, muito louro e branquinho de lixívia, com um sotaque complicado e uma linguagem sardónica e contundente. Usava uma argola em cada orelha, que era tipo um sinal.

O Jimmy geria os turnos e punha sempre uma miúda australiana a servir no local melhor, leia-se os booth, onde se ganhavam mais gorjetas. Se eu reclamava , ele fazia um meneio com a mão, olhava-me de cima a baixo e com aquele voz rispidamente inocente, dizia-me, ela é estudante e eu é que mando, e virava-me as costas. De vez em quando, quando ela não estava, lá me calhava um booth. Ele era meu amigo, fora isso tratava-me bem.

O brasileiro era mais velho, quarentão, o Li. Bicha descarada, como ele se intitulava. Às vezes, ficavam atrás do balcão a cochichar e riam-se dos que entravam e ainda não tinham “saído do armário”. Eles lá sabiam. Não era raro o Jimmy pôr as mãos à cintura, tirar-me as medidas e virar-me as costas, como se eu não valesse a pena existir. Ria-me.

Vai longa a introdução. Naquela noite, estávamos na casa do Li, com o Jimmy, a minha miúda e uma brasileira amiga, a Gaia, a tentar acabar uma garrafa de uísque. Estávamos no bom caminho, mas aborrecidos. Eles queriam ir ao Heaven, a discoteca da moda, porque era a noite gay, e eu quis ir também e entre risos, fui autorizado pelas mulheres. Não havia perigo, eram só homens.

Os meus amigos levaram uma hora a preparar-se, maquilhagem, batom de brilho, um bom perfume, roupas atraentes, gel com fartura, sei lá. Como sempre, eu ia de preto, armado em punk portuga, provavelmente de monkey boots. Talvez com um risco no olho, a à la Robert Smith.

Lá fomos. Entrámos na discoteca e ouviu-se artilharia e bombas a rebentar por todo o lado. Mandámo-nos logo para o chão. Afinal, era uma noite temática e os rapazes estavam todos vestidos de guerreiros e soldados, por todo o lado havia simulacros de batalhas e redes de camuflagem e tudo o resto que se possa imaginar, exceto tanques, que não cabiam na porta.

O Jimmy e o Li ficaram mortificados, duas bichas borboletas no meio de todas aquelas bichas machonas (palavras deles), de coletes militares, cinturões de balas, capacetes, botas da tropa e isso.

Bem, fui para a pista e tal como às vezes acontecia no Trumps, fez-se uma roda à minha volta e choviam beijos de todos os lados. Quem era eu, aquela novidade, nitidamente fora do contexto? A coisa estava a aquecer, e embora bem bebido, saí da pista assim para o constrangido.

De repente tudo parou, e ao som do I Will Survive, da Gloria Gaynor, teve início um jogo. No meio do palco, (a disco tinha um palco…) estava um para-quedista de dois metros de altura com uns ombros de dois metros de largura, a segurar um escudo de um material rijo, tipo esponja.

Um a um, os rapazes corriam pela galeria, atravessavam o palco e atiravam-se de cabeça ao gigante, que facilmente os repelia para cima de um colchão, estrategicamente colocado no chão. Os gritos de incentivo e os aplausos eram generalizados, e eu ,de lado, observava aquela cena e não sabia o que pensar. Os meus amigos estavam sentados, com o ar desanimado de quem estava no sítio certo , mas no contexto errado.

Senti uma mão no ombro e um rapaz um pouco mais velho, de cabelo comprido e colete de couro por cima do tronco nu, convidou-me para tomar uma bebida. Eu fui, não fosse eu o Arroz Doce, e sentámo-nos no bar. Acredito que ele fosse atraente, era-o de certeza e acredito que também lhe fosse atraente. Perguntou o que eu queria, pediu dois whiskeys e colocou-me a mão na perna. Estupidamente, entrei em pânico e a primeira coisa que disse foi que não era gay. Ele disse, pois eu sei, e tirou a mão. Com um raio, metia-me em cada uma.

Passámos algum tempo a conversar, era extremamente simpático, e eu observava o suor que lhe escorria no peito. Retirei-me, na verdade já tinha bebido que chegasse e ele tinha visto que não seria eu a preencher-lhe a solidão da noite.

Fui ter com os meus amigos e o Li atirou, com o despeito próprio dos gay, que inveja, você foi com aquele moreninho lindo, cara, você é horrível, te odeio. O Jimmy levantou-se do banco e com um trejeito de pescoço, que me fez lembrar César a compor a capa, dirigiu-se para a saída e nós seguimo-lo.

Nunca mais tive turnos nos booth, mas até seguirmos os nossos caminhos fomos sempre bons amigos.

22 maio, 2019

O Boris ou o meu reflexo no espelho da Alice

O Boris apareceu lá em casa, como aparecia toda a gente, pela mão da minha miúda, que um dia até fez uma amiga para a vida na fila dos Correios. Estávamos meio perdidos na Londres dos finais de 80, e era engraçado aquele corropio de gente nova que ela trazia não sei donde, quase todos os dias, ao minúsculo bedsit onde vivíamos. Oferecíamos o café ou o chá da praxe, uns paravam e iam ficando, outros desapareciam.

Ela vinha contente, via-se no sorriso radiante, já a prevenir-se dos dias em que eu não tinha pachorra para aturar as maluqueiras que entravam pela porta, que também os havia. Vinha com um rapaz.

Arroz Doce, este é o Boris (façam um esforço para imaginar que todas as conversas neste texto são em inglês e não traduções rascas da minha memória, que nunca mais foi a mesma depois que nasci. É claro que Arroz Doce, é Arroz Doce, não tem tradução em língua nenhuma, talvez em malaiala, mas não estou nem aí).

Adiante, recomecemos. Arroz Doce, este é o Boris, conheci-o no (qualquer sítio) e fogo, tem a tua idade, man. A minha idade, pensei eu, a miúda está-se a passar, o que não falta aí é pessoal com a minha idade.

Pois, mas o Boris tinha nascido no mesmo ano, mesmo dia e na mesma hora que eu. Como ela tinha descoberto aquilo não sei, mas foi um momento novela mexicana, de levar às lágrimas. A amizade e a cumplicidade estavam criadas havia vinte anos.

O Boris era um gajo elegante (magricela), cheio de falta de sol, como eram aqueles gajos todos, com caracóis que dos lados esticava para trás. Falava rápido e pelos cotovelos e sempre com convicção e eu só percebia metade do que dizia. Ele olhava para a minha cara e repetia três, quatro vezes, mas era sempre de maneira diferente e eu ia dizendo yes man, yes.

Vestia um Bomber Jacket verde, daqueles laranja por dentro, os melhores casacos do mundo e por acaso, ou neste caso sem ser por acaso, eu tinha um preto que comprara semanas antes no Camden Market. A gaja que o vendeu, no meio da confusão que aquilo era, tentou sacar-me duas libras a mais, mas a miúda topou-a e ela começou a falar cockney, luv para aqui e luv para ali, mas teve que devolver a massa, fosse enganar turistas para o raio que a parta.

O Boris usava umas 501 enroladas em baixo e uns sapatos Doc Martens. Uma argola na orelha. Um gajo vulgar, doido qb. Uma versão inglesa da minha pessoa, não fossem os olhos azuis, o cabelo louro, o casaco ser verde e ter um jipe.

O Boris sabia o que queria. Insistia e convencia. Naquele primeiro dia,insistiu que fossemos a casa dele, algures em Kensington, para lanchar ou coisa do género, pensámos nós. Era uma fase em que andávamos a comer empadas congeladas por isso fomos e também porque o gajo era um baril. Chegados lá, começou a pôr tudo o que havia de comida para um saco e nós sem perceber bem o que se passava. Frigorífico, prateleiras, despensa, ia tudo a eito, até que chegou a mãe e perguntou, o que estás a fazer Boris, e ele, eles precisam da comida, e a mãe com aquela elegância e paciência que só alguns ingleses sabem ter, mas Boris, não pode ser assim, e nós constrangidos como o caraças, mas o Boris levou a comida e assim é que rodava o mundo. Hoje nós, amanhã ele.

O Boris tinha um jipe, um jipe mesmo, daqueles antigos verdes, da guerra, sem capota e penso que sem suspensão. Era uma loucura andar naquilo, nada o parava, só a falta de gasolina. De vez em quando lá fazíamos uma vaquinha, aquela cena bebia para caraças, mas toda a gente virava a cabeça para ver os três malucos a passar, nós dois e o jipe.

Um dia, tínhamos estacionado e vimos dois bobbies a vir na nossa direcção. Eu estava há um ano no UK com visto de turista, que tinha expirado há nove meses (Portugal ainda não estava na treta da CEE). Era uma cena banal, mas podia ser deportação à vista. O Boris disse, não saias daqui, e eu ali fiquei sentado no lugar do morto. Saltou do jipe, abriu o capô, o que atraiu os boobies e passado cinco minutos de conversa da treta e de mostrar óleos e motores de arranque e tal, eles basaram sem sequer olhar para mim.

Foi com ele que pela primeira vez entrei num dos Tower Blocks de Londres, aqueles do "London's Burning” dos Clash. Era em Ladbroke Grove, acho eu, e estava à espera de demolição, pois os tetos tinham amianto. Nunca vira nada assim, os moradores tinham sido realojados, mas o Council continuava a pôr lá algumas famílias. Havia portas com pinturas a dizer legally occupied e com gradeamentos de ferro por fora, mas a maior parte dos apartamentos da torre de vinte andares eram squats. Era um mundo louco, decadente, muito perigoso e muito rentável para alguns negócios, mas falarei disso noutra altura.

O Boris vivia à vontade, sem artifícios, como se o mundo fosse seu. Um dia levou-me ao pub dele para conhecer os amigos. Estava lá a namorada, que transpirava beleza e classe. Ele pouco falava dela e pouco lhe ligava, aliás, dizia que só andava com ela porque ela fazia uma coisa que não vou aqui dizer, afinal de contas era a vida deles e também não é nada do que essas mentes doentes estão a imaginar, por isso esqueçam.

No meio de umas pints, apareceu um gajo da nossa idade, mas com cara e caparro de hooligan bronco, que num grunhido perguntou quem eu era. O Boris levantou-se, chegou-se a ele, que tinha mais um palmo de altura e disse, é o meu amigo português, o Arroz Doce, e é muito mais inteligente do que tu, fala três línguas, tu és estúpido, nem uma sabes falar. Normalmente, como se estivesse a dizer que ia buscar outra cerveja. O outro continuou com cara de idiota a olhar para nós e eu fiquei à espera de levar com um copo na cabeça. Não valia a pena, o Boris já estava noutra, o gajo virou as costas e foi-se embora.

Perdemo-lo quando mudámos de casa. Naquela Londres mudávamos como quem despe uma t-shirt dos Smiths e veste uma dos Jesus. A cidade era enorme e não havia telemóveis.

O Boris passou uns meses pela minha vida e ficou para sempre. Afinal, nascera 
no mesmo ano, no mesmo dia e na mesma hora que eu.

Fogo, que vida marada que eu já tive.