29 abril, 2019

Hoje ou amanhã ou nunca

Éramos putos da noite, não parávamos em casa. Ele era trabalho, dar uma volta, ir jantar e basar logo. Saíamos sem destino, quer dizer, que não fosse o café ou a cervejaria da esquina ou a gruta.

Mas isto pouco vem ao caso, vamos à história que é para isso que me pagam e esta até é bem triste. Se não fosse hoje, amanhã não a escrevia, nem nunca.

Eu e o puto R. passávamos à noite no meu antigo liceu, a meter conversa com as miúdas que lá andavam. Foi uma fase.

Havia uma que me partia a cabeça. Tinha um ar misterioso e só falava por monossílabos e às vezes dissílabos.  Lembro-me da franja quase a tapar os olhos, como se usava, e das pestanas também. Era um conjunto muito agradável para fazer olhinhos.

Ela era um flirt total, sorria mas não ria. Eu ia aumentando o nível de treta, pois estava a ficar para trás, que o puto R já andava com a amiga. Esta coisa dos pares dava sempre jeito, mas quando um se safava e o outro ficava apeado era uma treta.

Depois de muito penar, quase uma semana, estávamos os dois sentados numas escadas do pátio, eu na treta, canção do bandido e tal, e ela a pestanejar muito lentamente. Parecia que estava a dizer sim. Inclinei-me para a beijar e ela retraiu-se. Pensei que era acanhamento. Meio a brincar perguntei - Hoje não? Ela não respondeu. Continuei, já a fazer beicinho - Amanhã? E ela a rir pela primeira vez, na minha cara e da minha cara, soltou um impiedoso - Nunca!!!

Toma lá, vai apanhar Arroz Doce, tinhas a mania e foste gozado na maior. Fiquei lixado e desapareci dali algum tempo. Hoje lembro-me do muito que gostava dos dissílabos dela.

Devia ser aquela coisa das hormonas vocais.

27 abril, 2019

As manas Picoas

Quis o destino e os meus pais que também eu nascesse na Maternidade Alfredo da Costa, ali às Picoas, topónimo popular de origem curiosa.

Conta-nos José Pedro Machado, no seu Dicionário Onomástico Etimológico, que havia por ali uma quinta que tinha como proprietárias duas senhoras, talvez irmãs, talvez solteironas. O seu pai era Picão de apelido e o povo, por graça ou por maldade, chamou-lhes «as Picoas» de onde ficou o topónimo.

Nas Memórias Paroquiais de 1758, o sítio das Picoas aparece integrado na freguesia de São Sebastião da Pedreira, entretanto banalizada para Avenidas Novas. Ao cimo da colina, junto à Igreja de São Sebastião, a meio do caminho que ligava o antigo Chafariz de Andaluz a Palhavã, que hoje é mais ou menos onde fica a António Augusto de Aguiar, gozavam-se os ares aprazíveis e lavados pelo vento.

Vivi nas Picoas muito tempo. Só saí para conhecer mundo e voltei com o mundo um pouco mais conhecido, e com saudades das mercearias e das drogarias, dos snack-bares e do ardina que só tinha um braço e que vendia jornais num vazado, onde em pequeno eu ia comprar o Diário Popular.

Em frente à minha porta, havia uma taberna, das antigas. Não era uma taverna das novas, vendia penaltis e copos de 3, e tinha uma fila de pipas sempre a esvaziar. Havia também uma esquadra, ao pé da praça, mais ao menos onde é o Fórum Picoas. A praça era muito grande, as gentes acotovelavam-se de um lado para o outro no meio dos legumes, das frutas e das gaiolas das galinhas e dos coelhos.

Lembro-me da abertura do primeiro centro comercial em Portugal, o Imaviz, que sobrevive moribundo na Rua Tomás Ribeiro, junto ao metro das Picoas. Quando abriu, os casais deslumbrados entravam para passear e ver as montras, um pouco como ainda se faz por rotina noutros sítios.

As Picoas modernizaram-se, encheram-se de escritórios e de lojas e os seus filhos foram-nas abandonando. Hoje as Picoas já não existem, são um amontoado de hotéis e turistas e restaurantes vegan, paleo e afins.

As avenidas estão novas por fora e vazias por dentro.


Imagem: Planta da cidade, 1856/58, Filipe Folque - http://lxi.cm-lisboa.pt/lxi



25 abril, 2019

Legados de Abril

Este blogue é apolítico por natureza, mas como não há regra sem exceção, o 25 de Abril, pela sua dimensão humana, é a exceção à regra.

Já muito se escreveu sobre a data, por isso limito-me a contar uma história…

O ano era 2000 e o Presidente da República, Jorge Sampaio.
Estávamos numa cerimónia pública, no exterior, alusiva a um amigo do Presidente, falecido recentemente, a que este fizera questão de comparecer.

A umas centenas de metros localizava-se uma escola, que estava a passar por um período conturbado, penso que a nível de financiamento, infraestruturas, sinceramente não me lembro bem.

Foram-se aproximando do local duas ou três dezenas de alunos, adolescentes, a princípio receosos, mas que acabaram por se sentar em grupo no chão junto aos presentes, segurando folhas de papel escritas a marcador, onde alertavam para os problemas da escola.

Naturalmente, a guarda do Presidente, quando se apercebeu do que estava a ocorrer, imediatamente se dirigiu aos estudantes para retirá-los do local.

Jorge Sampaio, que então falava, interrompeu o discurso e de cima do palco, com a lágrima no olho, clamou:

PAREM, FOI PARA ISTO QUE FIZEMOS O 25 DE ABRIL!

Assisti, comoveu-me, marcou-me e ficou-me, assim como me ficará no coração, enquanto viver, a Revolução dos Cravos.

22 abril, 2019

Raul tinha ciumes

Raul tinha ciúmes, não dormia. Torcia-se, não encontrava posição. Contava carneirinhos e em noites de desespero atirava a almofada à parede. Pensava nela, sempre nela. Por vezes chorava, com os olhos verdes de ciúme a raiar na escuridão. Tramava vinganças terríveis. Hoje negar-lhe-ia o pão. Amanhã a água.

Na noite em que perdeu o sono, Raul fora mais uma vez, à socapa, como um intruso envergonhado, espiar-lhe a página facebookiana. Entre outras sem história, três fotos passavam testemunho do beijo obsceno em que ela, resplandecente, se entregava a um ordinário qualquer, um palhaço. Raul acordou de dor.

Desde então, entre suores e calafrios, Raul recordava apenas a loucura do amor passado. O cheiro a gata. As peles a roçar. A voz ocarina. Os fartos cabelos de fogo. As festas nas costas. A língua acerejada. A brasa das coxas. O derreter da fenda.

Raul pensava o "Cântico dos Cânticos" mas odiava Salomão. Amava um sonho, vivia um pesadelo.


20 abril, 2019

Harmonia e Honra

Perdido no nevoeiro da minha adolescência, numa pausa entre Kafka e quejandos, recordo-me deliciosamente de ter lido Xogun de James Clavell. Para este conseguido romance, o cunho de best-seller e a adaptação televisiva estavam no adro.

O livro conta-nos as aventuras e desventuras do (pseudo) primeiro europeu que viveu no Japão, por alturas do Xogunato, imperialismo clássico, onde a defesa da honra e o respeito pela harmonia do outro se equilibravam. Dele retive um episódio:

"O senhor James, inglês, (não me recordo do nome das personagens), é hospede de uma família japonesa, numa casa de paredes de papel, como manda a tradição anti-sísmica das ilhas em causa. A meio da noite apercebe-se que o senhor da casa, chamemos-lhe senhor Hiroshi, samurai dos mais temidos do Japão, perito em golpes finos de espada, desrespeitava a sua esposa, fina flor oriental, a senhora Hiroko. 
James, que não sabia o que era tomar banho, mas era empenhado na arte do cavalheirismo, irrompeu pela porta ou pela parede (afinal era de papel), apanha Hiroshi de surpresa e lança-o para fora de casa, ralhando com ele em inglês, o que para o caso podia ser chinês. 
A tensão aumenta, Hiroshi está no terreiro com a mão no punho da sua espada, James está nas escadas a aguardar o golpe que se afigura mortal e Hiroko está de prantos. 
Ao fim de uns minutos Hiroshi avança, espada na mão, James treme mas não arreda pé e Hiroko continua de prantos. 
Final da história, Hiroshi lança-se aos pés de James, que por acaso tinham sido lavados gentilmente por Nanako, bonita moça, mas que não é chamada para esta história, e oferecendo-lhe a espada, oferece-lhe também a vida, porque mais importante que a sua honra (o que ele não diz, mas que se conclui do episódio) é o ter perturbado a harmonia do seu hóspede."

A reacção do japonês é inesperada para o inglês, que se sentiu incomodado não com o efeito, mas com a causa. Como poderia a sua harmonia, coisa a que não dava valor, valer a vida de um outro homem? 

Pouco nos preocupamos em preservar, em honrar, a harmonia dos outros. Quantos de nós reagiríamos como o senhor de guerra japonês, habituado ao corte do fio da espada,  mas culpando-se por ter perturbado o sono de um bárbaro? Trata-se apenas de um romance dirão e o fato desencadeador não é propriamente edificante para o Sr. Hiroshi.

No entanto, penso que o que está aqui em causa é mais que uma banalidade, que um fait-divers, que uma diferença mínima entre duas civilizações. Defensor dos seus códigos, Bushido e outros, o japonês aceita-se no silêncio e é aí que se aceita nos outros. Para o ocidental o silêncio é dúbio, é sinal de secretismo, indiferença, e como tal deve ser combatido. E se a palavra cria, o silêncio não cria, o silêncio apenas preenche a maior criação da história do mundo, o Homem.


18 abril, 2019

Fantasia


Do alto dos meus "entas", revivi ontem uma fantasia de juventude: uma mulher a banhar-se é um dos mais doces mistérios que a Natureza reservou ao homem. Mas já não para mim. 

Costuma-se dizer que a idade traz a sabedoria, mas a sabedoria é perder a magia e o mistério das coisas, é perder sensualidade na imaginação. É um desalento saber quase tudo e no entanto não servir para quase nada.

Excepto quando ela nos chama e diz: Carinho, anda esfregar-me as costas!


Imagem: Woman in bath. Degas

16 abril, 2019

Sentidos

Espanta-te que ainda aqui continue? Fico aqui o tempo que for preciso.
Não bates bem da cabeça, daqui a pouco anoitece e está sempre muito frio neste lugar. Vamos embora, deixa-te de teimosias!
Vim para aqui porque queria escapar dos outros sítios. Gosto desta zona da cidade, deste lugar vazio. Isto aqui é de quem cá chega, é de todos e não é de ninguém. Neste preciso momento, é meu. Tenho a certeza que aqui se fazem coisas estranhas e proibidas, mas isso não me diz respeito. Só quero ficar sentada nestes degraus sossegada e decidir se vou subi-los ou não. Passei muitas noites sem dormir a remexer pensamentos adversos. Aqui, ainda que esteja a morrer de cansaço, encontro tranquilidade e conforto.
Ao menos sobe, parva, lá em cima ficas mais abrigada! Despacha-te que vem aí chuva!
Não me chateies! Não se passa assim do chão para o último degrau. A escada é longa, é preciso pensar cada passo que damos, cada degrau que subimos.
Ok, tu é que sabes, eu vou andando. Faz o que quiseres!
É isso… faço mesmo.

09 abril, 2019

Sol a dois

Gostava de caminhar. Ao fim da tarde, os restos do Sol sacudiam o frio miudinho, que entrava nos ossos, mas refrescava o pensamento. Ia até à baía, umas vezes só, outras acompanhada.

Acompanhada, falava da vida. Gostava de falar, estava nela. Parava muitas vezes quando ia só, para  observar o borbulhar que as leves flutuações do rio traziam à areia da margem.

Gostava de fotos, afinal diziam que uma foto valia mil palavras, mas também gostava das palavras, afinal havia palavras que valiam mil fotos. Palavras doces e amargas. Será que alguma delas, fotos ou palavras, tinham a força de um gesto? Será que tal fora estudado? Era tarde para inventar novos provérbios, já os havia muitos, antigos e usados.

Por trás do horizonte o Sol caía, teimando em deixar um cobre polido que agitava as silhuetas.
Na ponta do novo cais, onde não paravam os barcos por falta de hábito, destacava-se uma sombra a dois.

Tantas vezes os vira. Seria o seu andar uma desculpa para os ver? Tantas vezes se perguntara quem eram, o que ali faziam todos os dias ao escorregar do Sol, aquela perseverança em ver o belo, as palavras sussurradas talvez de paixão, talvez de mais ainda, e o gesto dos ombros que se encostavam a meio caminho e se apertavam tanto. Pareciam duvidar que o Sol nascesse e por isso o desafiavam ao cair a noite.

O pensamento não pára, pensou ela, e tirou a foto que valia mil palavras, completa.

Voltou então, um pouco mais quente. Desceu à areia, para aproveitar os últimos raios. Seguiu lentamente, imaginando os passos que iam ficando, e aqui e ali olhava para trás, curiosa se também o cobre neles tinha ficado.

07 abril, 2019

Enquanto não vêm as palavras...


Enquanto não vêm as palavras... ficam as de Eugénio de Andrade.
Cabe ao leitor o papel de intérprete das mesmas, do seu significado, de acordo com o seu modo de sentir.

(Enquanto isso, pode ser que a inspiração bata à porta...)

São como um cristal
as palavras.
Algumas, um punhal, um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.

Secretas vêm cheias de memória.
Inseguras navegam:
barcos ou beijos,
as águas estremecem.
Desamparadas, inocentes,
Leves.
tecidas são de luz
e são a noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.

Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
Nas suas conchas puras?

Eugénio de Andrade, As Palavras




30 março, 2019

A dor de viver sem ser

Chegara alguns minutos antes da hora marcada. Tinha-lhe pedido que não se atrasasse, que chegava às oito em ponto. Entrou no café e varreu rapidamente o interior à espera de o encontrar ali sentado, mas o Rui ainda não tinha chegado. Sentou-se a uma mesa no fundo e pediu um café cheio dentro do qual despejou meio pacote de açúcar. Espreitou o telemóvel na esperança de algum sinal. Nada. Ainda estava escuro lá fora, mas obrigou-se a olhar pela janela para calar a impaciência. Pessoas apressadas para o trabalho, uma fila de carros. Mais nada.

Prometera que dali em diante tudo seria diferente, todos saberiam. E ali continuava com a vida na mochila à espera. Pediu um segundo café que bebeu agora amargo. O relógio do telefone marcava agora oito horas e cinquenta e dois minutos. Nenhum sinal de chamada ou de mensagem. Nada. Deixou uma moeda de dois euros em cima da mesa, levantou-se e, ao dirigir-se para a saída, deu um encontrão num homem alto engravatado. “Acorda! Que merda, logo de manhã a levar com gente desta!”. O corpo trémulo e os olhos marejados de lágrimas desceu as escadas do metro.

Ficou algum tempo na plataforma, imóvel. Deu um passo em frente e pisou a linha amarela. Minutos depois, lia-se no painel eletrónico “Por motivos alheios ao metropolitano, a circulação encontra-se interrompida. Lamentamos os incómodos causados.”
Chamava-se João…

28 março, 2019

Quem é o pai da criança


Estou aqui no trabalho a olhar pela janela. Vejo árvores e uns prédios amarelos lá ao fundo. No passeio uma multidão cruza-se, pessoas que passam para lá e outras que vêm para cá.

Ponho-me a pensar, se as que vêm para cá e as que vão para lá, adiantassem um passo, gerava-se aqui uma grande confusão. Isso sim, era uma coisa que merecia ser vista e ouvida, aqui da janela:

Desculpe..., Veja por onde anda..., Pisou-me o pé..., Deu-me uma cabeçada..., Quer sair de cima de mim..., Tome lá um murro..., Tome lá uma estalada..., Que raio de confusão é esta..., Será isto o fim do mundo..., Quer tirar os seus lábios dos meus?

E ao fim de nove meses: Boa tarde, desculpe , lembra-se do dia do "passo em frente", em que chocámos um com o outro?... Sim, lembro!... Pois, este bebé é seu.

25 março, 2019

Fábula do homem encantado


Para o homem encantado tudo é noite. A felicidade é como o âmbar que envolve o inseto, não o deixando mover nem sequer respirar, mas conservando-o no seu esplendor.

O sol, já sem luz, num capricho apaga-se. Na planície azul escapa-se o dia. Pequenas ondas de novelos alisam o cabelo, ventos do manto de nevoeiro branco, grosso e quente, que abafam o escuro. Procura o calor, que vem aos poucos e se perde em nada. O corpo treme e retoma o caminho sem sentido, sem fim sempre que começa, com o fim com que sempre acaba. Tudo o que é vivo é magia e toda a vida é ilusão.

Não pede, recebe o que há. Na gruta sem teto, onde se enleia no calor e nos medos, ela não vem e quando vem, está, perdeu-a na memória tanta vez. A neblina e a paisagem azul consomem-no, mas é tudo imaginação, não fosse mais disso o que fica, os abismos dos passos, as cores cinzentas das flores, os cheiros nos gostos e todas as lembranças que passam e nele ficam e não interessam.

Numa dessas noites sem sol, mas quente, chega. Não a acompanha bem, no fundo da sua gruta sem teto tudo é confuso, portas e caras que falam sem mexerem os lábios ou então, em silêncio, chamam alguém num manto branco que baralha os sentidos do homem encantado. O sentimento é ansiedade, um querer imediato, cortante, como aquele que deseja o calor e o vermelho do seu sangue, que escorre pintando desenhos coloridos por onde passa, espraiando-se naquilo que foi antes a vida e que hoje é desejo intenso, entre sofás brilhantes.

Ao olhar do homem encantado tudo é luz, encandeia. O manto dos seus cabelos envolve-o, a calda é doce, tão doce, embala-me no teu regaço, dá-me ternura e o desejo arde e entre a névoa o tempo torna-se real e curto, mas forte. Naquele momento está feliz, mas tudo é prazer e angústia e sem se aperceber anda à roda do sulco do mesmo caminho.

Ela desfaz-se no lado escuro da gruta e ele num poço, onde as luzes lentamente ofuscam e morrem e na mesa nada está, nada, nem a memória do seu peito que tão bem se encaixa. A confusão torna-se impotência e o desespero bate como o sino do campanário da planície azul e cerra os olhos no escuro do poço, pesados pela névoa dos sonhos de ópio. O mar continua salgado e escuro e entre almofadas nuas, lembra-se do que noutros dias esquece.

Para o homem encantado tudo é difuso e irreal. A felicidade é como o âmbar que envolve o inseto, não o deixando mover nem sequer respirar, mas conservando-o no seu esplendor.


23 março, 2019

Os dois marmelos

Fui ao PD fazer a minha compra semanal de tequila e torresmos. 
Tinham marmelos, trouxe dois, acompanham bem com tudo.
A miúda da caixa olha para aquilo, depois olha para a caixa e por fim olha para mim e muito baixinho pergunta - isto é fruta? e eu com uma cara de surpreendido - sim, são marmelos... não conhece marmelos? e ela com uma cara enfiadita - não... e eu com uma cara muito séria - mas marmelada conhece? e ela a olhar sem saber se eu estava a gozar ou não - sim... e eu com a mesma cara séria - é daqui que sai a marmelada. 
Paguei a conta e acho que a deixei mais baralhada.

20 março, 2019

Terror medieval

No ano de 1551, Cristóvão Rodrigues de Oliveira, guarda-roupa de Dom Fernando, arcebispo de Lisboa, escreveu para o seu amo um Sumário da cidade, onde apontava ofícios da época, entre outras curiosidades. Aqui ficam alguns, em jeito de história: 
“O atafoneiro, que berrava desesperado com dores, gritou pelo seu mariola, a quem dava pão escuro, muito trabalho e uma zurzidela diária, além de o mandar de três em três anos ao calceteiro. O mariola saiu esbaforido da atafona à procura do saca-molas, que andava desaparecido fazia três dias.
Desceu o caminho e já na planura o vento trouxe-lhe o fedor dos tanques dos surradores. Benzeu-se três vezes e deu Graças pela sua vida fácil de mariola. Já perto da capela da Nossa Senhora da Luz, o cheiro o sebo cozido das velas enchia o ar junto ao beco dos cereeiros, e mais adiante, o pó da farinha crua parecia pairar sobre as hóstias ainda por abençoar. A mulher do obrieiro perguntou-lhe ao que vinha. Torceu o nariz quando ouviu falar do saca-molas. Não é homem de Deus, resmungou. Encostada à empena da capela uma merceeira benzia-se e entoava uma ladainha. 
Finalmente encontrou o saca-molas, bêbado de três dias, tombado num poial, e arrastou-o até à atafona. O mariola e mais dois agarraram rijamente o atafoneiro enquanto o saca-molas, em equilíbrio precário, com uns ganchos enferrujados que trazia sempre pendurados ao pescoço, lhe desbastava as gengivas e sacava cá para fora o último dos molares. Pois é, o saca-molas era dentista e naquele tempo não havia anestesias. 


17 março, 2019

O Café na vida e na fé


É Domingo de manhã e como não me lembro de nada especial para pensar, divago. Vem-me à memória uma cena de uns desses desenhos animados que por aí andam, tipo Simpsons, mas mais estúpidos:

O pai anda desesperado pela cozinha, abre caixas e desvia garrafas, bate com as portas dos armários, vê no frigorífico e na máquina de lavar, debaixo da mesa e por aí adiante, e com os cabelos em pé, liberta um grito de terror - acabou-se o café, acabou-se o café!!!

O filho está ali ao lado e pergunta - ó pai porquê esse stress com o café? ao que o pai responde - CALA-TE, tu tens a juventude!!!

Adoro café.

Para este texto não ficar muito curto, porque recebo à palavra, fica aqui a história (ficção ou realidade, não sei) de como o café por cá ficou:

A corte papal estava reunida com aquela imponência que se adivinha, e entra um descobridor, espanhol ou português não interessa para esta história, e cheio de vénias verbais, oferece, como se fosse um tesouro, uns grãos negros ao Papa.

Logo ali se prepara uma beberagem fumegante e aromática, embora negra como carvão. A corte papal insurge-se e reclama que uma bebida daquela cor só pode ser obra do mafarrico.

O Papa pensa, pensa, pensa e prova, era um papa destemido como o que temos hoje, e diz - uma bebida destas só pode ser criação dos Céus...

Abençoado Papa.

15 março, 2019

Bolas de sabão


Na sua leveza parecem carregar o mundo inteiro.
Delicadas, levam dentro delas arcos-íris efémeros que, no azul do céu, desaparecem numa explosão silenciosa.
Exalam serenidade e canções de embalar.
Evocam o regresso aos bancos da escola, as tardes mornas de primavera, as brincadeiras sem limites.
São o resgate dos joelhos esfolados, dos berlindes e do jogo da macaca.
Cheiram a maresia, a relva acabada de cortar e a bolacha maria com manteiga.
Trazem-me de volta a bicicleta ferrugenta, os carrinhos de rolamentos, as corridas de pé descalço.
Ainda hoje, sem ninguém à espreita, me sento no baloiço a soprá-las com a mesma tranquilidade. Fico depois a olhá-las subir devagarinho empurradas pelo vento.
Ingénuas…

07 março, 2019

O importante é a MÚSICA, pá


Olhava-os em vídeos datados e filmes estranhos, onde via uns meninos, de corte à tigela, que cantavam encurralados por multidões femininas num êxtase de gritos desalmados e desmaios compulsivos.

Além disso, já tinham acabado e ainda vendiam milhões, pelo que nunca poderiam ser um segredo indie só meu e de alguns eleitos. Ignorei-os muito tempo. Desdenhei-os.

Estúpido.


05 março, 2019

Ouça lá, você leva aí droga?


Tive mil empregos, só queria curtir. Uma altura conduzia uma carrinha, fazia recados para o aeroporto, e um dia calhou-me ir levar uma mala extraviada a uma terriola algures no Portugal profundo.
Estava sempre a acontecer, todos os dias chegava um cabaz de malas portugas, que tinham que ser entregues aos donos, que já só se lembravam da viagem porque a mala tinha sido extraviada. Isto foi há trinta anos, imagino agora.
Bem, vamos ao que interessa. A mala era tipo rija e estava cintada com aquela fita branca lixada de cortar e uma presilha do aeroporto. Se tinham gamado alguma coisa fora antes.
Ia eu muito bem, algures num caminho no meio do deserto rural, quando a seguir a uma curva e atrás de uma moita, deparo-me com todo o exército do mundo. Ele era polícia de intervenção ou o raio, fardas, capacetes, metralhadores, pistolas, carrinhas de assalto, sei lá, parecia que vinha ali a invasão marroquina. Isto no meio de um deserto, atrás de uma moita.
Eram uns vinte e fizeram-me sinal para parar e sair, o que fiz. Fora educado a ter respeitinho à polícia e também tinha dez metralhadores a fazer mira. Só me aguentei porque não tinha fralda.
Olhavam para mim e eu para o horizonte, quando, lá do meio dos furgões anti-motim, saiu um sujeito baixote à paisana, todo suado e a precisar de ginásio e tónico capilar. Aproximou-se  e com autoridade disse para eu abrir a mala do carro. As metralhadoras acompanharam a voz e chegaram-se à minha cabeça, se me baixasse matavam-se uns aos outros. Abri o porta bagagens e o que lá estava? a raio da mala do aeroporto.
O gajo olhou para mim e o esquadrão sanguinolento tirou a patilha de segurança das armas, preparando-se para uma baixa casual. Levou a mão ao queixo e meditou uma eternidade, até que de repente me perguntou:
Ouça lá, você leva aí droga?
Naquele momento senti-me aniquilado, como se toda a idiotice do mundo me tivesse esmagado de repente. O quê, isso pergunta-se? Respondi a verdade, quando não sabes o que dizer, responde a verdade, senão inventa, uma invenção é mais imaginação que mentira.
Não sei, vou só entregar esta mala do aeroporto, não faço a mínima ideia.
O homem com o fato barato e a suar em bica olhou duas vezes para a mala e duas vezes para mim e disse:
Siga.
Ainda hoje não sei o que se passava ali atrás daquela moita, mas andei uma semana a meditar no surrealismo...

02 março, 2019

O Ingês, apaixonado pelas nossas mulheres e varapauzado pelos nossos homens


Nos idos de 1780, viajava por cá um tal Richard Croker, capitão de infantaria inglês, que, en passant, escreveu umas coisas sobre as nossas mulheres e homens.

No primeiro texto, é notório que o capitão se apaixonara por uma bela portuguesa, porventura de olhos negros, algures pelas estradas de Sintra. No segundo é evidente que, depois de brincar com o fogo, terá pago a honra a alguém, varapauzado e cheio de negras, como tantas vezes Sancho Pança o foi por simples má sorte e destino.

Das mulheres, perdido de amores (assumpção minha)::

“Era impossível não reparar, nas cidades em que passámos ultimamente, na diferença entre as mulheres de Portugal e as de Espanha.
As mulheres portuguesas são agradáveis, elegantes no vestir, com lindos olhos e dentes e belo cabelo muito abundante: nos seus penteados misturam fitas e flores com muito bom gosto e isto mesmo mulheres de classes baixas, pois não nos foi dado ver outras.
Em resumo, tem que se admitir que há mulheres mais bonitas e melhores mulas (sic) em Portugal que na Andaluzia.”
Já em Lisboa: “Um espectáculo que quase me esquecia de mencionar: refiro-me às senhoras portuguesas às janelas. (...) Como não se vêem mulheres nenhumas na rua, senão as de baixa condição, elas devem com certeza estar fechadas em casa e dizem que os maridos portugueses são extremamente ciumentos.”

Dos homens, depois de um encosto mais viril (assumpção minha):

“Os homens portugueses são, sem dúvida, a raça mais feia da Europa. Bem podem eles considerar a denominação de ombre blanco como uma distinção. Os portugueses descendem de uma mistura de Judeus, Mouros, Negros e Franceses, pela sua aparência e qualidade perecem ter reservado para si as piores partes de cada um destes povos.
Tal como os Judeus, são mesquinhos, enganadores e avarentos. Dos Mouros são ciumentos, cruéis e vingativos. Tal como os povos de cor são servis, pouco dóceis e falsos e parecem-se com os Franceses na vaidade, artifício e gabarolice. (…)
Os homens são notoriamente ciumentos e, se pode haver uma desculpa para esta paixão, deve ser que onde as mulheres são dignas de ser amadas e os homens tão opostos, surgem crimes privados e assassínios.”

Ora, a pena do capitão tingiu-se na soberba com que os membros do Império de Sua Majestade encaravam os outros homens. Também eu, só por isso, lhe teria dado uma bengalada .

Quanto às nossas mulheres, Lisboa presta-lhes homenagem nas curvas luminosas das suas colinas, pelas quais deixamos deslizar o olhar como um toque, um cheiro, um desvario.