O fim do ano foi em casa da Alice e do Willy. A Alice era uma portuguesinha de olhos verdes e nariz empinado de simpatia, era linda de morrer. O Willy era holandês, alto e magro, de cabelo espetado. Não sabia português, tomava conta da casa e do filho e tocava guitarra. Ela adorava o trabalho. Eram fixes e felizes.
Os convidados conheciam-se há muito e faziam parte daquela seita de casais com filhos pequenos, cúmplice e impenetrável,
em que os homens falam dos filhos e das coisas dos filhos e as mulheres
falam dos filhos e das coisas dos filhos. De bem com a vida, iam-se juntando
aqui e ali, empurravam os baloiços aos putos, aturavam-lhes as birras, e fumavam
um de vez em quando. Andavam pela sala a falar, a bebericar e a depenicar.
Os putos estavam no quarto do lado, ocupados a enfiar os dedos na baba de camelo, a partir os brinquedos
e a arrancar as pernas das Barbies.
O Willy trouxe um bolo já fatiado, assim tipo bolo de
aniversário, mas sem velas, nem cremes, nem recheio. O raio do bolo era bom, dava
ares de pistacho e todos quiseram provar.
O holandês, que estava muito sério, ria agora que nem um perdido, it´s fucking space cake man, you gonna love it. O gajo é apanhado, pensaram os outros, mas a Alice, linda de
morrer, confirmava, é verdade, e brincava, estão lixados. Ninguém acreditou.
Passada meia hora estavam todos arregalados, os olhos pareciam
buzinas vermelhas e falavam ainda mais e grisavam-se todos. Ia-se aproximando o
final do ano, a festa continuava, as garrafas estavam quase vazias e pouco
havia para comer na mesa. Alguém contava e recontava as passas, como se disso
dependesse a vida.
Uma rapariga abanava um caído num sofá, acorda pá, olha que perdes a passagem
de ano, mas ele só grunhia, caraças mais ao gajo. A amiga dela dizia,
deixa-o aí, vamos ao karaoke, e riam e o gajo no sofá, com a saliva seca aos
cantos da boca, grunhiu outra vez. O homem da amiga estava a despejar as entranhas
na casa de banho, mas as raparigas abraçaram-se, como só as mulheres sabem
fazer, e sentaram-se no outro sofá a falar, a beber, a fumar e a achar piada aquilo
tudo.
À janela da marquise, um casal trocado olhava as estrelas e a
arder de desejo, comeram-se ali mesmo em dois minutos, tal era a fome.
O Willy, de olhos fechados, abanava a cabeça ao som do Hendrix
e a Alice, linda de morrer, olhava para ele como para um deus nórdico.
Era amor e space cake.
No quarto ao lado, os putos começaram a escavacar a mobília.