18 maio, 2019

De frente para o Passado e de costas para o Futuro

Vivemos de costas para o Futuro e de frente para o Passado. De frente para o que conhecemos, de costas para o que desconhecemos. A teoria não é minha, mas até faz sentido. Vou aqui aplicá-la àqueles ditos que gostamos de atirar uns aos outros. Perdoem desde já a confusão do texto, porque nem eu percebo muito bem o que estou a escrever. É um raciocínio fútil num papel digital.

"Tens o Futuro todo à tua frente".
Isto é dito e sublinhado ao jovem e impede-o de viver plenamente o Presente, que é o único espaço em que o Passado e o Futuro se confundem. Na verdade, o que se está a dizer é para se viver o Presente, quando se tiver mais Passado. Mas se o fizermos, só estaremos a acumular Passado irrelevante à nossa frente. Porquê? Tirania inconsequente.

“Ainda tens o Futuro à tua frente”.
Do nada, esta aparece pela boca de alguém e aceitamo-la, porque estamos moldados mentalmente para que o futuro esteja à nossa frente, embora para efeitos deste texto seja o contrário. A adição da palavra "ainda" tem várias implicações. A primeira é que algo falhou no passado e é necessário acreditar que, algo que desconhecemos e para o qual estamos de costas, a irá resolver. A segunda poderá ser condescendência, mas pensem vocês nisso.

"Tens todo um Passado atrás de ti".
Mais uma incorretice pois vivemos virados para ele. É uma frase de reforço de auto-estima e de orgulho, por vezes soberba ou ironia, mas é inócua, é apenas uma mentira banal. Estamos virados para o Passado, por isso sabemos bem o que ele foi, o que não sabemos é o que está nas nossas costas, o Futuro. A verdade é que andamos para trás para o Futuro, que só então nos aparece à frente como Passado...

Por último, chega-nos “Põe o Passado para trás das costas" ou "Esquece o Passado".
A primeira, no sentido literal corrente, nem sequer faz sentido, porque já é crença que o Passado está atrás das costas, embora não o esteja, ou então, indo à outra, como podemos esquecer algo que está à nossa frente em prol de algo desconhecido para onde andamos às arrecuas?

Viver de costas para o Passado é como apagar a luz, não há redenção. Viver de frente para o Futuro, é andar com um véu opaco.

Andamos a enganar-nos no Presente....

16 maio, 2019

Lembras-te?

Lembras-te do longo abraço que partilhámos quando cheguei à estação? Quando o mundo todo parou nesse momento, só para podermos partilhar saudade, amizade, amor e calor? De quando nos conhecemos e entrelaçámos as mãos?

Lembras-te de quando tivemos que abandonar esses momentos de fantasia e voltar para a vida real? Que voltaste comigo no comboio só para podermos partilhar mais um efémero momento de inocente paixão?

Lembras-te de quando te disse até breve? Do que sentiste quando não foi breve? De quando esse até breve se tornou em nunca mais?

Lembras-te de ver a tua vida passar, e passar a tua vida a ver esses momentos na tua cabeça? Lembras-te do arrependimento que sentiste perder todas e mais uma oportunidade de conseguir voltar-te a ver?

Lembras-te da angústia que sentiste por todos os erros que cometeste na tua vida, que impossibilitaram o reencontro? Da eterna busca que fizeste para voltar a encontrar um calor igual ao que sentiste quando nos unimos? Do que sofreste por nunca mais nos podermos tocar?

Eu lembro-me…

Foste testemunha e cúmplice.
Foste quem sofri sem sequer saberes.
Foste quem do meu lado negro protegi.
Foste o maior erro que nunca cometi.

14 maio, 2019

Filosofia F**K THEM

O que andamos por aqui a fazer... Ora bem, esta é a pergunta primeira de qualquer filosofia que se preze. Para mim, talvez fosse mais importante o que fazemos enquanto cá andamos, vincando o "talvez".

No fundo acredito que nada é importante. Nada interessa. Se temos muito, se temos pouco, se fazemos por isso ou não, se não limpamos a boca ao guardanapo, se comemos o frango com o mindinho esticado para cima, se gostamos de música pimba e de piqueniques do Modelo, ou se vamos ao Lux, ou a festivais de Verão. És assim, gostas e ages, dá-te prazer. Não incomodas os outros. Acabou. O resto não interessa. Para nada. 

Não andamos cá para provar nada a ninguém. Quero lá saber se me dizem que devia fazer isto ou não fazer aquilo, ser mais isto ou ser menos aquilo.  Sorrir ou chorar.  Trabalhar ou mendigar. Correr ou parar. Santo António ou Marquês de Sade. Que se lixe, isso são intromissões e eu não ando cá para viver pelas medidas dos outros. F**K THEM. Faço assim, ou não faço e acabou, porque gosto de o fazer assim, quero-o fazer assim e posso-o fazer assim. É isto que me dá prazer. 

Uma questão se impõe. Seria mais feliz se a minha vida fosse diferente? O segredo é este: a felicidade não existe, ninguém é feliz sempre e quem o diz mente. A felicidade, como um todo, é sobrevalorizada e é uma mentira. Existem curtos momentos de felicidade, a que não damos valor, pois naquele momento parecem a regra e não a excepção, mas é só isso que existe e quanto mais depressa o aceitarmos melhor. Aproveitemos-los e façamos o que nos dá prazer, ou se não pudermos, tiremos algum prazer do que fazemos. Ponto final parágrafo. 

12 maio, 2019

O coreto da Casa Grande

Quando o primeiro Senhor da Casa Grande, que tinha esmagado a Revolta do Sangue dos Húngaros, perguntou à Senhora o que faltava fazer no jardim, ela respondeu, um lago com cisnes, um labirinto de sebes floridas e um coreto. E assim se fez.

A Casa Grande era firme, parecia um castelo de pedra preso nos cordames de trepadeiras, trazidos das terras da Alsácia, tão grossos que a Norte não se viam as paredes. Tinha dezasseis quartos, oito salões, duas salas de fumo, duas salas de leitura, duas cozinhas e duas casas de banho, uma delas com duas banheiras. A casa era fértil, todos os seus amos tiveram descendência. Ao fundo do jardim perdiam-se de vista as terras do Senhor da Casa Grande.

O coreto era branco, com um gradeamento arredondado na esquadria e pássaros pintados de azevinho nas bordaduras da cobertura, que parecia um suspiro apoiado em cinco colunas de ferro, entrançadas em si próprias. O piso era de madeira alisada à mão e a cave da base era a serventia do jardim. Duas escadinhas de ferro, curvadas num V que parecia um coração, davam acesso ao coreto. Não era grande, apenas o suficiente para dez casais dançarem a valsa.

No tempo do segundo Senhor da Casa Grande, que saíra vencedor da Guerra da Brasa dos Ferros, o coreto fora pátio de casamentos. Num dia de muita alegria celebrava-se o casamento da filha mais nova das doze filhas dos Senhores, quando caiu uma chuva forte, seguida de bolas de granizo. O padre abençoou os noivos e fugiu do coreto, atrás dos outros convidados que se refugiaram na casa. Um serviçal foi enviado para socorrer os noivos, mas ficou ignorado junto à escada a ensopar-se, estoicamente de braço esticado a segurar o guarda-chuva, à espera que no coreto acabassem a primeira dança.

Um jovem das Terras, a mando da Senhora do terceiro Senhor da Casa Grande, que derrotara os Hunos da Peste numa guerra sem quartel, ia lá tocar violino uma vez por semana. Sozinho no coreto, embalava os presentes até o General da Guerra dos Apeninos acordar, e com voz militar soltar um firme Bravo! O jovem deixou de ir quando a Guerra Maior rebentou, mas foi substituído pelo filho do Senhor, que não tinha talento para a música, mas que fazia soltar muitos Bravos por baixo do coreto, quando por ali rebolava na palha com alguma rapariga da casa, que por essa altura tinha 40 serviçais.

Anos passados, os dois filhos mais novos do quarto Senhor da Casa Grande, que arrasara com crueldade o motim dos Lobos Negros, pegaram numa lata com um resto da tinta amarela que servira para pintar três tectos em dois quartos, e rodaram os pincéis pelas paredes do coreto, enquanto os jardineiros sorriam das traquinices dos jovens Senhores. Depressa os moços se cansaram e o coreto ficou durante meses meio amarelo, até que um infeliz jardineiro levou com o pingalim do Senhor e o seu filho acabou de pintar o coreto.

Um dia, uma banda dos terrenos búlgaros veio tocar no jardim do quinto Senhor da Casa Grande, que os conquistara na Guerra das Sardenhas, mas o coreto era pequeno e os pífaros, que ficaram de fora, não se faziam ouvir porque as tubas e os tambores, lá de cima ribombavam tanto que abanavam as árvores. O Senhor, furioso, só lhes pagou metade do acordado e ameaçou largar-lhes os cães.

Também por lá passou, pela casa dos cordames, uma geração de sonhadores. A Senhora e o sexto Senhor da Casa Grande, que fora herói ao espezinhar a Revolta dos Cepos, deram ordens para se pôr bancos de jardim no coreto e ali ficavam perdidos a olhar o céu, à noite, e a ensinar aos pequenos o nome das estrelas. A única luz que se via era a cigarrete do Senhor, que luzia no escuro. No verão ouviam-se as rãs do lago e nas noites escuras de inverno, os veados que andavam pelos campos da Casa Grande e de dia enfrentavam as balas, eram atraídos pelo fumo, mas só deixavam ouvir os cascos no saibro do caminho.

Outro ano ainda, o doutor, homem pacato que nunca guerreara, mas que cortejava a herdeira da casa há dois anos, numa noite iluminada ajoelhou-se no coreto e pediu-a em casamento. A menina gritou sim e puxou-o, agarrou-o e beijou-o com força, enquanto lhe apertava as nádegas. O doutor, habituado a só ver eczemas, inventou uma viagem súbita e fugiu. O sétimo Senhor da Casa Grande, que vencera com glória a Guerra da Mão Beijada, ficou feliz por ver desaparecer tal cobarde. O homem não voltou às Terras. A menina chorou dias a fio, até que um primo lhe deu um colar de ouro, pilhado na Guerra do Sul, e enquanto cheirava rapé africano lhe mostrou que havia quem gostasse de moças fogosas. Partiu para o Equador para combater na Guerra Menor, mas regressou sem glória à Casa Grande, sem ter lutado uma única batalha. A herdeira já casara e o casamento fora no coreto.

O coreto deixou de ter serventia quando morreu de parto a Senhora do oitavo Senhor da Casa Grande, que o deixou com oito filhos, uma melancolia crónica e uma guerra interior. Um jardineiro cortava as ervas que iam crescendo, mas o chão de madeira estava corroído do bicho e nas ferragens brancas viam-se manchas vermelhas, onde a ferrugem rasgava a tinta.


10 maio, 2019

As paredes também falam


Faz tempo que não durmo como deve ser. Entre um pensamento e outro, somam-se as noites mal dormidas. Os olhos fecham-se, a cabeça, essa, não para. As paredes que me cercam têm assistido a este desatino. Há já alguns dias que estou instalado num canto deste prédio devoluto, palco de prazeres clandestinos e testemunha de atos proibidos. Sinto-me bem aqui, gosto de me sentar na escada em caracol durante longos períodos a olhar para as paredes que me cercam. À minha frente, desfilam desenhos de cores berrantes, mensagens de amor, rabiscos e  alguns impropérios na língua de sua Majestade.

Desde a imagem de um Pessoa com óculos tridimensionais a VOTA PCP, passando por FUCKING ASSHOLE! Tudo aqui é permitido. Parece que até o Ribas sorri já numa das paredes da cidade. Nem esquecido, nem censurado!

Gosto desta linguagem intencional com aroma de transgressão, destas manifestações artísticas a que chamam arte urbana e que fazem da cidade uma galeria a céu aberto.
No meio de toda aquela explosão de cores e significados, destaca-se um miúdo de boné enfiado nos olhos que segura um cartaz onde se pode ler Quando for grande quero ser feliz.

Quem não?

08 maio, 2019

Os riscos do disco no gira-discos

Os discos giravam no gira-discos, os discos tinham riscos, era um gira-discos, uma aparelhagem, o gira-discos tinha um braço, o braço tinha uma agulha, tirava música dos discos, giravam no gira-discos, uma aparelhagem, fazia riscos, era aquela música do disco, do álbum, hoje é vinil, pouco se usa, o disco riscado pela agulha do gira-discos, a agulha era fina, era aquela música do disco, nem sempre era a música, eram três notas que arrepiavam, duas palavras cantadas, e eu levantava o braço do gira-discos, apontava a agulha aquele risco do disco, o risco de onde saia a música, aquela música, aquelas notas, aquelas palavras, valiam mais um risco no disco que girava no gira-discos, largava a agulha, o disco reclamava, não tinha pontaria, dzzzzzzzzzzz, mais um risco a juntar aos do disco, o disco girava, quando as guitarras disparavam, sempre a subir, a subir como deve ser, aquela parte que vocês sabem, voltava atrás e para a frente, no disco, repetia mil riscos, saltava no quarto, partia o candeeiro do tecto, a música, sempre a música, cinco segundos só, tantos riscos no disco do gira-discos, havia sempre aquela música, começava num risco, aquela nota em cada música, a voz, a alma, onde deixava cair a agulha, no sítio onde via o risco, que tocava o disco, o disco reclamava, fazia dzzzzzzzzzzzz, não era ali, eram três milímetros à frente, três segundos atrás, levantava a agulha do gira-discos onde tocavam os riscos do disco, mais um risco, era ali, o prazer do risco mil vezes, o momento, o prazer associado ao risco, um excesso de riscos, riscava a alma do disco, mas quando era a Patti Smith, mas quando era o Horses, mas quando a Patti Smith girava na agulha do disco que girava no gira-discos, mas quando o gira-discos rodava o disco da Patti Smith, cheio de riscos, mas quando chegava ao "Land" no disco riscado, a agulha mergulhava, gastava-se de girar, voltar a girar, sempre a girar, eu sonhava sonhos longínquos, eu sonhava sonhos inquietos, a agulha riscava o disco no gira-discos.
Era um pesadelo acordar do sonho, 9:26 depois, para ir fazer outro risco, no disco que girava no gira-discos.
"go Rimbaud, go Rimbaud, go Rimbaud"




06 maio, 2019

Algodão doce e shots de vodka


Embora me tivesse confessado Um dia, hei de escrever-me, não o fez. Eu sabia que queria muito, mas as palavras às vezes são difíceis e teimam em não sair. Tomei então a decisão de ser eu a fazê-lo, mas não lhe disse nada, é um segredo.
Alguém disse um dia (já não me lembro quem) que as raparigas demasiado bonitas causam tristezas. Devia saber o que estava a dizer. Aqui não era o caso. A rapariga sobre quem escrevo tem aquilo a que se chama uma beleza selvagem e a mim só me trouxe alegria.
É uma alma sensível e rebelde ao mesmo tempo. A irreverência e a cortesia num mesmo ser. Um festival de antagonismos!
Usa o cabelo escuro num corte irregular. Gosta de o prender com um lápis de uma forma desarrumada. Os olhos castanhos esverdeados adquirem uma tonalidade mais clara nos dias de sol como que a querer celebrar a luz. É uma rapariga de sorriso fácil. Diz-me muitas vezes que, numa mulher, o sorriso é tão ou mais importante do que a maquilhagem. E é bem mais saudável. Quando não sorri, o que é raro, a sua tez torna-se opaca e adquire uma lividez assustadora. É sinal de tristeza ou de adversidade. Transfigura-se. Quem a está a ver, percebe logo que há ali algo de errado, ainda que não a conheça no absoluto.
Gosta de falar, mas precisa de momentos de silêncios. Muitos, mas curtos. Depois desse intervalo, retoma a habitual tagarelice e tudo volta à normalidade.
Teima em não largar os jeitos de miúda apesar da idade já ter manifestado os seus sinais. Não tenho medo de envelhecer diz tenho é medo de morrer. À velhice dá-se lhe a volta. Quanto à morte, essa é que nos dá a volta a nós. Sem lugar para reclamações! End of story!
Jeans rasgados e ténis num dia, vestido mais formal no outro. A roupagem escolhida fica por conta do estado de espírito.
Se gosta, gosta muito. Se não gosta, não odeia; ignora.
Passam pessoas por mim, mas nunca ficam por muito tempo. Esta entrou na minha vida há muito e não quero que saía dela enquanto quiser cá ficar.
Lembro-me de lhe perguntar uma vez Quem és tu quando ninguém está a ver?
Na altura, riu-se e respondeu-me Não sei, diz-me tu! Quem está a ver é que saberá responder!

05 maio, 2019

Mãe


Desejou-me.

Combateu nas minhas batalhas.
Superou as minhas guerras.

É feliz por eu existir.

03 maio, 2019

Cicatrizes


A mesa de trabalho era uma permanente desordem. Debaixo de pilhas de papéis e de livros, podiam encontrar-se cigarros amachucados, mortalhas e fósforos queimados. Gostava do ritual do fumo, desde o ato de escolher até o enrolar o tabaco nas mortalhas lisas antes de o fumar. Um vício que o acompanhava desde a adolescência, mas que continuava a ser um prazer. Não gostava da ideia dos cigarros industrializados, iguais, arrumadinhos numa caixinha de cartão duro. Havia como que um glamour naquela preparação artesanal, naquelas nuvens de fumo denso e azulado. Se em tempos era visto como uma coisa de velhos, dava-lhe agora ares de modernidade.

O álcool era, havia já muito, um velho aliado. Dada a natureza solitária do seu trabalho e as dores da vida que experimentara, encontrara nele o antídoto para a timidez e para a produção de lampejos criativos. Antissocial assumido, bebia sozinho e de forma descontrolada. Na sua relação íntima com a bebida, vivia num perpétuo estado de letargia. Nos seus raros momentos de sobriedade, chegamos a trocar impressões sobre o romantismo sombrio de Poe, o simbolismo de Rimbaud e o decadentismo de Álvaro de Campos. Conversas de haxixe e de absinto, melhor dizendo! De resto, era homem dado a poucas falas, pouco preocupado com a complexidade humana que outrora deixara algumas cicatrizes no seu império interior. 

Não preciso de ninguém dizia tenho o que me faz falta. Vivo muito bem assim com os meus livros e o meu silêncio.

Eu, que já o conhecia havia muitos anos, sabia que era mentira. Desejava ouvir vozes, barulhos e sentir cheiros à sua volta. Optara, no entanto, por renunciar a todos eles, cobiçando-os apenas em segredo. Apresentava uma tristeza no rosto e nos modos, um semblante duro onde o sorriso se tinha desvanecido havia demasiado tempo. A doçura habitara um dia nos seus olhos de um azul-acinzentado que se mostravam agora apagados e descrentes. Não nos víamos muitas vezes. Ele, que insistia naquele retiro decadente, não gostava de receber visitas. Éramos amigos ou tínhamos sido um dia. Afligia-me o seu estado de tristeza profunda.

 És mesma parva ralhava ele Quem é que anda triste aqui? Nunca estive tão satisfeito na puta da vida.

Se estás assim tão bem, para que é essa merda toda que enfias pela goela abaixo? inquiria, furiosa, apontando para as inúmeras caixas de comprimidos que guardava numa das gavetas da secretária.

És como todas as outras, uma chata com a mania que sabe tudo. Mais a merda! Um gajo não pode tomar uns comprimidos para as dores, que é logo drogado ou está com depressão. Têm todas a mania que são espertas! Sabes o que andas a fazer , tu? És um modelo de perfeição! Põe-te a andar daqui para fora, quero ficar sozinho. Não me apareças mais pela frente!

Assim que a razão dava lugar àquela fúria desmedida, saía porta fora, deixando-o a proferir imprecações contra tudo e contra todos.

Passaram-se muitos meses até que tornasse a vê-lo. Demasiados. Ao longo de um decadente processo de lentificação motora e do pensamento, perdera-se da pessoa que tinha sido. A loucura apoderara-se do Pedro que jurava que os via todos, agora com a maior clareza, que nunca se tinha sentido tão completo.

Os gajos finalmente saíram de lá de dentro e falam comigo. Contam-me tudo! murmurava baixinho apontando para os livros que tinha na cabeceira. Envolto naquela alienação, sorrira, puxara-me para ele e segredara-me ao ouvido: Dizem que estou todo baralhado! Tretas, nunca estive tão lúcido na puta da vida!

Naquele momento, tive a certeza que nos perderíamos um do outro e não faltaria muito tempo. De facto, passaram-se apenas três dias para que me despedisse de Pedro na semi-obscuridade do quarto de onde se ouvia o vento levar para longe o grito de uma gaivota.


01 maio, 2019

Devaneio sobre o devaneio

"O tempo é um ser difícil. Ainda no outro dia era primavera e já aí vem o outono. Tenho de tirar da gaveta a roupa de inverno, as camisolas de gola alta. As botas também. A manhã está fria mas não corre vento. Ainda bem, senão era um gelo ."

Ela seguia pela rua, ia apanhar o autocarro. Os seus pensamentos cruzavam-se, sabemos como eles são, quando estamos a pensar numa coisa, já estamos a pensar outra. Naquele dia, pensava mais no tempo, esquecendo-se por momentos do essencial, do amor que a acompanhava.

"Está tudo molhado, será que choveu de noite? Deve ser o orvalho. Ainda corre naquelas folhas. Tenho que regar o jasmim. Os coentros rebentaram, mas a salsa não quer crescer, alguma coisa correu mal, vou perguntar ao jardineiro.

Que falta me fazem as flores nas árvores, as cores todas, as sardinheiras nas varandas. Não tarda caem as folhas, com este tempo todo baralhado. Gosto do cair das folhas, parece ouro, mas traz-me melancolia. Estou farta do calor, nunca mais passa para me dar algum descanso.

As nuvens estão mesmo cerradas, ainda vem aí chuva, mas na meteorologia não disseram nada.  Não gosto de trovoada, assusta-me. Será que tenho o guarda-chuva pequeno na mala, deixa ver. Não está, tenho que me lembrar de o pôr.

Olha ali um raio de sol a querer furar, que bom, um pouco de calor nesta manhã fria. Tenho as mãos geladas. Passa pelo meio das nuvens, tão brilhante, só pode ser esperança e alegria para o futuro. Mesmo por cima desta árvore, é estranho, um raio tão luminoso e tão fino.

Está alguma coisa a cair da árvore, vem aí a flutuar, vai pousar na minha mão. É a primeira folha de outono, que alegria, já tem em si todos os cheiros e cores do mundo. Prenda divina, vou guardá-la num livro e será o meu segredo, só meu e e do raio de luz.

Espero que haja lugar no autocarro, doem-me as costas. Olha o Sr. José, dá-me sempre o lugar. Obrigado Sr. José."

Pousou as mãos no ventre, amparando-o, e em vez do pontapé costumeiro, sentiu um calor como se as outras mãos encontrassem as suas, num elo de felicidade e prazer.

"Se for menina há-de ser Inês, se for menino será Pedro", e lembrando-se do raio de sol e da primeira folha de outono, riu para dentro e pensou "... ou Jesus."

29 abril, 2019

Hoje ou amanhã ou nunca

Éramos putos da noite, não parávamos em casa. Ele era trabalho, dar uma volta, ir jantar e basar logo. Saíamos sem destino, quer dizer, que não fosse o café ou a cervejaria da esquina ou a gruta.

Mas isto pouco vem ao caso, vamos à história que é para isso que me pagam e esta até é bem triste. Se não fosse hoje, amanhã não a escrevia, nem nunca.

Eu e o puto R. passávamos à noite no meu antigo liceu, a meter conversa com as miúdas que lá andavam. Foi uma fase.

Havia uma que me partia a cabeça. Tinha um ar misterioso e só falava por monossílabos e às vezes dissílabos.  Lembro-me da franja quase a tapar os olhos, como se usava, e das pestanas também. Era um conjunto muito agradável para fazer olhinhos.

Ela era um flirt total, sorria mas não ria. Eu ia aumentando o nível de treta, pois estava a ficar para trás, que o puto R já andava com a amiga. Esta coisa dos pares dava sempre jeito, mas quando um se safava e o outro ficava apeado era uma treta.

Depois de muito penar, quase uma semana, estávamos os dois sentados numas escadas do pátio, eu na treta, canção do bandido e tal, e ela a pestanejar muito lentamente. Parecia que estava a dizer sim. Inclinei-me para a beijar e ela retraiu-se. Pensei que era acanhamento. Meio a brincar perguntei - Hoje não? Ela não respondeu. Continuei, já a fazer beicinho - Amanhã? E ela a rir pela primeira vez, na minha cara e da minha cara, soltou um impiedoso - Nunca!!!

Toma lá, vai apanhar Arroz Doce, tinhas a mania e foste gozado na maior. Fiquei lixado e desapareci dali algum tempo. Hoje lembro-me do muito que gostava dos dissílabos dela.

Devia ser aquela coisa das hormonas vocais.

27 abril, 2019

As manas Picoas

Quis o destino e os meus pais que também eu nascesse na Maternidade Alfredo da Costa, ali às Picoas, topónimo popular de origem curiosa.

Conta-nos José Pedro Machado, no seu Dicionário Onomástico Etimológico, que havia por ali uma quinta que tinha como proprietárias duas senhoras, talvez irmãs, talvez solteironas. O seu pai era Picão de apelido e o povo, por graça ou por maldade, chamou-lhes «as Picoas» de onde ficou o topónimo.

Nas Memórias Paroquiais de 1758, o sítio das Picoas aparece integrado na freguesia de São Sebastião da Pedreira, entretanto banalizada para Avenidas Novas. Ao cimo da colina, junto à Igreja de São Sebastião, a meio do caminho que ligava o antigo Chafariz de Andaluz a Palhavã, que hoje é mais ou menos onde fica a António Augusto de Aguiar, gozavam-se os ares aprazíveis e lavados pelo vento.

Vivi nas Picoas muito tempo. Só saí para conhecer mundo e voltei com o mundo um pouco mais conhecido, e com saudades das mercearias e das drogarias, dos snack-bares e do ardina que só tinha um braço e que vendia jornais num vazado, onde em pequeno eu ia comprar o Diário Popular.

Em frente à minha porta, havia uma taberna, das antigas. Não era uma taverna das novas, vendia penaltis e copos de 3, e tinha uma fila de pipas sempre a esvaziar. Havia também uma esquadra, ao pé da praça, mais ao menos onde é o Fórum Picoas. A praça era muito grande, as gentes acotovelavam-se de um lado para o outro no meio dos legumes, das frutas e das gaiolas das galinhas e dos coelhos.

Lembro-me da abertura do primeiro centro comercial em Portugal, o Imaviz, que sobrevive moribundo na Rua Tomás Ribeiro, junto ao metro das Picoas. Quando abriu, os casais deslumbrados entravam para passear e ver as montras, um pouco como ainda se faz por rotina noutros sítios.

As Picoas modernizaram-se, encheram-se de escritórios e de lojas e os seus filhos foram-nas abandonando. Hoje as Picoas já não existem, são um amontoado de hotéis e turistas e restaurantes vegan, paleo e afins.

As avenidas estão novas por fora e vazias por dentro.


Imagem: Planta da cidade, 1856/58, Filipe Folque - http://lxi.cm-lisboa.pt/lxi



25 abril, 2019

Legados de Abril

Este blogue é apolítico por natureza, mas como não há regra sem exceção, o 25 de Abril, pela sua dimensão humana, é a exceção à regra.

Já muito se escreveu sobre a data, por isso limito-me a contar uma história…

O ano era 2000 e o Presidente da República, Jorge Sampaio.
Estávamos numa cerimónia pública, no exterior, alusiva a um amigo do Presidente, falecido recentemente, a que este fizera questão de comparecer.

A umas centenas de metros localizava-se uma escola, que estava a passar por um período conturbado, penso que a nível de financiamento, infraestruturas, sinceramente não me lembro bem.

Foram-se aproximando do local duas ou três dezenas de alunos, adolescentes, a princípio receosos, mas que acabaram por se sentar em grupo no chão junto aos presentes, segurando folhas de papel escritas a marcador, onde alertavam para os problemas da escola.

Naturalmente, a guarda do Presidente, quando se apercebeu do que estava a ocorrer, imediatamente se dirigiu aos estudantes para retirá-los do local.

Jorge Sampaio, que então falava, interrompeu o discurso e de cima do palco, com a lágrima no olho, clamou:

PAREM, FOI PARA ISTO QUE FIZEMOS O 25 DE ABRIL!

Assisti, comoveu-me, marcou-me e ficou-me, assim como me ficará no coração, enquanto viver, a Revolução dos Cravos.

22 abril, 2019

Raul tinha ciumes

Raul tinha ciúmes, não dormia. Torcia-se, não encontrava posição. Contava carneirinhos e em noites de desespero atirava a almofada à parede. Pensava nela, sempre nela. Por vezes chorava, com os olhos verdes de ciúme a raiar na escuridão. Tramava vinganças terríveis. Hoje negar-lhe-ia o pão. Amanhã a água.

Na noite em que perdeu o sono, Raul fora mais uma vez, à socapa, como um intruso envergonhado, espiar-lhe a página facebookiana. Entre outras sem história, três fotos passavam testemunho do beijo obsceno em que ela, resplandecente, se entregava a um ordinário qualquer, um palhaço. Raul acordou de dor.

Desde então, entre suores e calafrios, Raul recordava apenas a loucura do amor passado. O cheiro a gata. As peles a roçar. A voz ocarina. Os fartos cabelos de fogo. As festas nas costas. A língua acerejada. A brasa das coxas. O derreter da fenda.

Raul pensava o "Cântico dos Cânticos" mas odiava Salomão. Amava um sonho, vivia um pesadelo.


20 abril, 2019

Harmonia e Honra

Perdido no nevoeiro da minha adolescência, numa pausa entre Kafka e quejandos, recordo-me deliciosamente de ter lido Xogun de James Clavell. Para este conseguido romance, o cunho de best-seller e a adaptação televisiva estavam no adro.

O livro conta-nos as aventuras e desventuras do (pseudo) primeiro europeu que viveu no Japão, por alturas do Xogunato, imperialismo clássico, onde a defesa da honra e o respeito pela harmonia do outro se equilibravam. Dele retive um episódio:

"O senhor James, inglês, (não me recordo do nome das personagens), é hospede de uma família japonesa, numa casa de paredes de papel, como manda a tradição anti-sísmica das ilhas em causa. A meio da noite apercebe-se que o senhor da casa, chamemos-lhe senhor Hiroshi, samurai dos mais temidos do Japão, perito em golpes finos de espada, desrespeitava a sua esposa, fina flor oriental, a senhora Hiroko. 
James, que não sabia o que era tomar banho, mas era empenhado na arte do cavalheirismo, irrompeu pela porta ou pela parede (afinal era de papel), apanha Hiroshi de surpresa e lança-o para fora de casa, ralhando com ele em inglês, o que para o caso podia ser chinês. 
A tensão aumenta, Hiroshi está no terreiro com a mão no punho da sua espada, James está nas escadas a aguardar o golpe que se afigura mortal e Hiroko está de prantos. 
Ao fim de uns minutos Hiroshi avança, espada na mão, James treme mas não arreda pé e Hiroko continua de prantos. 
Final da história, Hiroshi lança-se aos pés de James, que por acaso tinham sido lavados gentilmente por Nanako, bonita moça, mas que não é chamada para esta história, e oferecendo-lhe a espada, oferece-lhe também a vida, porque mais importante que a sua honra (o que ele não diz, mas que se conclui do episódio) é o ter perturbado a harmonia do seu hóspede."

A reacção do japonês é inesperada para o inglês, que se sentiu incomodado não com o efeito, mas com a causa. Como poderia a sua harmonia, coisa a que não dava valor, valer a vida de um outro homem? 

Pouco nos preocupamos em preservar, em honrar, a harmonia dos outros. Quantos de nós reagiríamos como o senhor de guerra japonês, habituado ao corte do fio da espada,  mas culpando-se por ter perturbado o sono de um bárbaro? Trata-se apenas de um romance dirão e o fato desencadeador não é propriamente edificante para o Sr. Hiroshi.

No entanto, penso que o que está aqui em causa é mais que uma banalidade, que um fait-divers, que uma diferença mínima entre duas civilizações. Defensor dos seus códigos, Bushido e outros, o japonês aceita-se no silêncio e é aí que se aceita nos outros. Para o ocidental o silêncio é dúbio, é sinal de secretismo, indiferença, e como tal deve ser combatido. E se a palavra cria, o silêncio não cria, o silêncio apenas preenche a maior criação da história do mundo, o Homem.


18 abril, 2019

Fantasia


Do alto dos meus "entas", revivi ontem uma fantasia de juventude: uma mulher a banhar-se é um dos mais doces mistérios que a Natureza reservou ao homem. Mas já não para mim. 

Costuma-se dizer que a idade traz a sabedoria, mas a sabedoria é perder a magia e o mistério das coisas, é perder sensualidade na imaginação. É um desalento saber quase tudo e no entanto não servir para quase nada.

Excepto quando ela nos chama e diz: Carinho, anda esfregar-me as costas!


Imagem: Woman in bath. Degas

16 abril, 2019

Sentidos

Espanta-te que ainda aqui continue? Fico aqui o tempo que for preciso.
Não bates bem da cabeça, daqui a pouco anoitece e está sempre muito frio neste lugar. Vamos embora, deixa-te de teimosias!
Vim para aqui porque queria escapar dos outros sítios. Gosto desta zona da cidade, deste lugar vazio. Isto aqui é de quem cá chega, é de todos e não é de ninguém. Neste preciso momento, é meu. Tenho a certeza que aqui se fazem coisas estranhas e proibidas, mas isso não me diz respeito. Só quero ficar sentada nestes degraus sossegada e decidir se vou subi-los ou não. Passei muitas noites sem dormir a remexer pensamentos adversos. Aqui, ainda que esteja a morrer de cansaço, encontro tranquilidade e conforto.
Ao menos sobe, parva, lá em cima ficas mais abrigada! Despacha-te que vem aí chuva!
Não me chateies! Não se passa assim do chão para o último degrau. A escada é longa, é preciso pensar cada passo que damos, cada degrau que subimos.
Ok, tu é que sabes, eu vou andando. Faz o que quiseres!
É isso… faço mesmo.

09 abril, 2019

Sol a dois

Gostava de caminhar. Ao fim da tarde, os restos do Sol sacudiam o frio miudinho, que entrava nos ossos, mas refrescava o pensamento. Ia até à baía, umas vezes só, outras acompanhada.

Acompanhada, falava da vida. Gostava de falar, estava nela. Parava muitas vezes quando ia só, para  observar o borbulhar que as leves flutuações do rio traziam à areia da margem.

Gostava de fotos, afinal diziam que uma foto valia mil palavras, mas também gostava das palavras, afinal havia palavras que valiam mil fotos. Palavras doces e amargas. Será que alguma delas, fotos ou palavras, tinham a força de um gesto? Será que tal fora estudado? Era tarde para inventar novos provérbios, já os havia muitos, antigos e usados.

Por trás do horizonte o Sol caía, teimando em deixar um cobre polido que agitava as silhuetas.
Na ponta do novo cais, onde não paravam os barcos por falta de hábito, destacava-se uma sombra a dois.

Tantas vezes os vira. Seria o seu andar uma desculpa para os ver? Tantas vezes se perguntara quem eram, o que ali faziam todos os dias ao escorregar do Sol, aquela perseverança em ver o belo, as palavras sussurradas talvez de paixão, talvez de mais ainda, e o gesto dos ombros que se encostavam a meio caminho e se apertavam tanto. Pareciam duvidar que o Sol nascesse e por isso o desafiavam ao cair a noite.

O pensamento não pára, pensou ela, e tirou a foto que valia mil palavras, completa.

Voltou então, um pouco mais quente. Desceu à areia, para aproveitar os últimos raios. Seguiu lentamente, imaginando os passos que iam ficando, e aqui e ali olhava para trás, curiosa se também o cobre neles tinha ficado.

07 abril, 2019

Enquanto não vêm as palavras...


Enquanto não vêm as palavras... ficam as de Eugénio de Andrade.
Cabe ao leitor o papel de intérprete das mesmas, do seu significado, de acordo com o seu modo de sentir.

(Enquanto isso, pode ser que a inspiração bata à porta...)

São como um cristal
as palavras.
Algumas, um punhal, um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.

Secretas vêm cheias de memória.
Inseguras navegam:
barcos ou beijos,
as águas estremecem.
Desamparadas, inocentes,
Leves.
tecidas são de luz
e são a noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.

Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
Nas suas conchas puras?

Eugénio de Andrade, As Palavras