22 abril, 2019

Raul tinha ciumes

Raul tinha ciúmes, não dormia. Torcia-se, não encontrava posição. Contava carneirinhos e em noites de desespero atirava a almofada à parede. Pensava nela, sempre nela. Por vezes chorava, com os olhos verdes de ciúme a raiar na escuridão. Tramava vinganças terríveis. Hoje negar-lhe-ia o pão. Amanhã a água.

Na noite em que perdeu o sono, Raul fora mais uma vez, à socapa, como um intruso envergonhado, espiar-lhe a página facebookiana. Entre outras sem história, três fotos passavam testemunho do beijo obsceno em que ela, resplandecente, se entregava a um ordinário qualquer, um palhaço. Raul acordou de dor.

Desde então, entre suores e calafrios, Raul recordava apenas a loucura do amor passado. O cheiro a gata. As peles a roçar. A voz ocarina. Os fartos cabelos de fogo. As festas nas costas. A língua acerejada. A brasa das coxas. O derreter da fenda.

Raul pensava o "Cântico dos Cânticos" mas odiava Salomão. Amava um sonho, vivia um pesadelo.


20 abril, 2019

Harmonia e Honra

Perdido no nevoeiro da minha adolescência, numa pausa entre Kafka e quejandos, recordo-me deliciosamente de ter lido Xogun de James Clavell. Para este conseguido romance, o cunho de best-seller e a adaptação televisiva estavam no adro.

O livro conta-nos as aventuras e desventuras do (pseudo) primeiro europeu que viveu no Japão, por alturas do Xogunato, imperialismo clássico, onde a defesa da honra e o respeito pela harmonia do outro se equilibravam. Dele retive um episódio:

"O senhor James, inglês, (não me recordo do nome das personagens), é hospede de uma família japonesa, numa casa de paredes de papel, como manda a tradição anti-sísmica das ilhas em causa. A meio da noite apercebe-se que o senhor da casa, chamemos-lhe senhor Hiroshi, samurai dos mais temidos do Japão, perito em golpes finos de espada, desrespeitava a sua esposa, fina flor oriental, a senhora Hiroko. 
James, que não sabia o que era tomar banho, mas era empenhado na arte do cavalheirismo, irrompeu pela porta ou pela parede (afinal era de papel), apanha Hiroshi de surpresa e lança-o para fora de casa, ralhando com ele em inglês, o que para o caso podia ser chinês. 
A tensão aumenta, Hiroshi está no terreiro com a mão no punho da sua espada, James está nas escadas a aguardar o golpe que se afigura mortal e Hiroko está de prantos. 
Ao fim de uns minutos Hiroshi avança, espada na mão, James treme mas não arreda pé e Hiroko continua de prantos. 
Final da história, Hiroshi lança-se aos pés de James, que por acaso tinham sido lavados gentilmente por Nanako, bonita moça, mas que não é chamada para esta história, e oferecendo-lhe a espada, oferece-lhe também a vida, porque mais importante que a sua honra (o que ele não diz, mas que se conclui do episódio) é o ter perturbado a harmonia do seu hóspede."

A reacção do japonês é inesperada para o inglês, que se sentiu incomodado não com o efeito, mas com a causa. Como poderia a sua harmonia, coisa a que não dava valor, valer a vida de um outro homem? 

Pouco nos preocupamos em preservar, em honrar, a harmonia dos outros. Quantos de nós reagiríamos como o senhor de guerra japonês, habituado ao corte do fio da espada,  mas culpando-se por ter perturbado o sono de um bárbaro? Trata-se apenas de um romance dirão e o fato desencadeador não é propriamente edificante para o Sr. Hiroshi.

No entanto, penso que o que está aqui em causa é mais que uma banalidade, que um fait-divers, que uma diferença mínima entre duas civilizações. Defensor dos seus códigos, Bushido e outros, o japonês aceita-se no silêncio e é aí que se aceita nos outros. Para o ocidental o silêncio é dúbio, é sinal de secretismo, indiferença, e como tal deve ser combatido. E se a palavra cria, o silêncio não cria, o silêncio apenas preenche a maior criação da história do mundo, o Homem.


18 abril, 2019

Fantasia


Do alto dos meus "entas", revivi ontem uma fantasia de juventude: uma mulher a banhar-se é um dos mais doces mistérios que a Natureza reservou ao homem. Mas já não para mim. 

Costuma-se dizer que a idade traz a sabedoria, mas a sabedoria é perder a magia e o mistério das coisas, é perder sensualidade na imaginação. É um desalento saber quase tudo e no entanto não servir para quase nada.

Excepto quando ela nos chama e diz: Carinho, anda esfregar-me as costas!


Imagem: Woman in bath. Degas

16 abril, 2019

Sentidos

Espanta-te que ainda aqui continue? Fico aqui o tempo que for preciso.
Não bates bem da cabeça, daqui a pouco anoitece e está sempre muito frio neste lugar. Vamos embora, deixa-te de teimosias!
Vim para aqui porque queria escapar dos outros sítios. Gosto desta zona da cidade, deste lugar vazio. Isto aqui é de quem cá chega, é de todos e não é de ninguém. Neste preciso momento, é meu. Tenho a certeza que aqui se fazem coisas estranhas e proibidas, mas isso não me diz respeito. Só quero ficar sentada nestes degraus sossegada e decidir se vou subi-los ou não. Passei muitas noites sem dormir a remexer pensamentos adversos. Aqui, ainda que esteja a morrer de cansaço, encontro tranquilidade e conforto.
Ao menos sobe, parva, lá em cima ficas mais abrigada! Despacha-te que vem aí chuva!
Não me chateies! Não se passa assim do chão para o último degrau. A escada é longa, é preciso pensar cada passo que damos, cada degrau que subimos.
Ok, tu é que sabes, eu vou andando. Faz o que quiseres!
É isso… faço mesmo.

09 abril, 2019

Sol a dois

Gostava de caminhar. Ao fim da tarde, os restos do Sol sacudiam o frio miudinho, que entrava nos ossos, mas refrescava o pensamento. Ia até à baía, umas vezes só, outras acompanhada.

Acompanhada, falava da vida. Gostava de falar, estava nela. Parava muitas vezes quando ia só, para  observar o borbulhar que as leves flutuações do rio traziam à areia da margem.

Gostava de fotos, afinal diziam que uma foto valia mil palavras, mas também gostava das palavras, afinal havia palavras que valiam mil fotos. Palavras doces e amargas. Será que alguma delas, fotos ou palavras, tinham a força de um gesto? Será que tal fora estudado? Era tarde para inventar novos provérbios, já os havia muitos, antigos e usados.

Por trás do horizonte o Sol caía, teimando em deixar um cobre polido que agitava as silhuetas.
Na ponta do novo cais, onde não paravam os barcos por falta de hábito, destacava-se uma sombra a dois.

Tantas vezes os vira. Seria o seu andar uma desculpa para os ver? Tantas vezes se perguntara quem eram, o que ali faziam todos os dias ao escorregar do Sol, aquela perseverança em ver o belo, as palavras sussurradas talvez de paixão, talvez de mais ainda, e o gesto dos ombros que se encostavam a meio caminho e se apertavam tanto. Pareciam duvidar que o Sol nascesse e por isso o desafiavam ao cair a noite.

O pensamento não pára, pensou ela, e tirou a foto que valia mil palavras, completa.

Voltou então, um pouco mais quente. Desceu à areia, para aproveitar os últimos raios. Seguiu lentamente, imaginando os passos que iam ficando, e aqui e ali olhava para trás, curiosa se também o cobre neles tinha ficado.

07 abril, 2019

Enquanto não vêm as palavras...


Enquanto não vêm as palavras... ficam as de Eugénio de Andrade.
Cabe ao leitor o papel de intérprete das mesmas, do seu significado, de acordo com o seu modo de sentir.

(Enquanto isso, pode ser que a inspiração bata à porta...)

São como um cristal
as palavras.
Algumas, um punhal, um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.

Secretas vêm cheias de memória.
Inseguras navegam:
barcos ou beijos,
as águas estremecem.
Desamparadas, inocentes,
Leves.
tecidas são de luz
e são a noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.

Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
Nas suas conchas puras?

Eugénio de Andrade, As Palavras




30 março, 2019

A dor de viver sem ser

Chegara alguns minutos antes da hora marcada. Tinha-lhe pedido que não se atrasasse, que chegava às oito em ponto. Entrou no café e varreu rapidamente o interior à espera de o encontrar ali sentado, mas o Rui ainda não tinha chegado. Sentou-se a uma mesa no fundo e pediu um café cheio dentro do qual despejou meio pacote de açúcar. Espreitou o telemóvel na esperança de algum sinal. Nada. Ainda estava escuro lá fora, mas obrigou-se a olhar pela janela para calar a impaciência. Pessoas apressadas para o trabalho, uma fila de carros. Mais nada.

Prometera que dali em diante tudo seria diferente, todos saberiam. E ali continuava com a vida na mochila à espera. Pediu um segundo café que bebeu agora amargo. O relógio do telefone marcava agora oito horas e cinquenta e dois minutos. Nenhum sinal de chamada ou de mensagem. Nada. Deixou uma moeda de dois euros em cima da mesa, levantou-se e, ao dirigir-se para a saída, deu um encontrão num homem alto engravatado. “Acorda! Que merda, logo de manhã a levar com gente desta!”. O corpo trémulo e os olhos marejados de lágrimas desceu as escadas do metro.

Ficou algum tempo na plataforma, imóvel. Deu um passo em frente e pisou a linha amarela. Minutos depois, lia-se no painel eletrónico “Por motivos alheios ao metropolitano, a circulação encontra-se interrompida. Lamentamos os incómodos causados.”
Chamava-se João…

28 março, 2019

Quem é o pai da criança


Estou aqui no trabalho a olhar pela janela. Vejo árvores e uns prédios amarelos lá ao fundo. No passeio uma multidão cruza-se, pessoas que passam para lá e outras que vêm para cá.

Ponho-me a pensar, se as que vêm para cá e as que vão para lá, adiantassem um passo, gerava-se aqui uma grande confusão. Isso sim, era uma coisa que merecia ser vista e ouvida, aqui da janela:

Desculpe..., Veja por onde anda..., Pisou-me o pé..., Deu-me uma cabeçada..., Quer sair de cima de mim..., Tome lá um murro..., Tome lá uma estalada..., Que raio de confusão é esta..., Será isto o fim do mundo..., Quer tirar os seus lábios dos meus?

E ao fim de nove meses: Boa tarde, desculpe , lembra-se do dia do "passo em frente", em que chocámos um com o outro?... Sim, lembro!... Pois, este bebé é seu.

25 março, 2019

Fábula do homem encantado


Para o homem encantado tudo é noite. A felicidade é como o âmbar que envolve o inseto, não o deixando mover nem sequer respirar, mas conservando-o no seu esplendor.

O sol, já sem luz, num capricho apaga-se. Na planície azul escapa-se o dia. Pequenas ondas de novelos alisam o cabelo, ventos do manto de nevoeiro branco, grosso e quente, que abafam o escuro. Procura o calor, que vem aos poucos e se perde em nada. O corpo treme e retoma o caminho sem sentido, sem fim sempre que começa, com o fim com que sempre acaba. Tudo o que é vivo é magia e toda a vida é ilusão.

Não pede, recebe o que há. Na gruta sem teto, onde se enleia no calor e nos medos, ela não vem e quando vem, está, perdeu-a na memória tanta vez. A neblina e a paisagem azul consomem-no, mas é tudo imaginação, não fosse mais disso o que fica, os abismos dos passos, as cores cinzentas das flores, os cheiros nos gostos e todas as lembranças que passam e nele ficam e não interessam.

Numa dessas noites sem sol, mas quente, chega. Não a acompanha bem, no fundo da sua gruta sem teto tudo é confuso, portas e caras que falam sem mexerem os lábios ou então, em silêncio, chamam alguém num manto branco que baralha os sentidos do homem encantado. O sentimento é ansiedade, um querer imediato, cortante, como aquele que deseja o calor e o vermelho do seu sangue, que escorre pintando desenhos coloridos por onde passa, espraiando-se naquilo que foi antes a vida e que hoje é desejo intenso, entre sofás brilhantes.

Ao olhar do homem encantado tudo é luz, encandeia. O manto dos seus cabelos envolve-o, a calda é doce, tão doce, embala-me no teu regaço, dá-me ternura e o desejo arde e entre a névoa o tempo torna-se real e curto, mas forte. Naquele momento está feliz, mas tudo é prazer e angústia e sem se aperceber anda à roda do sulco do mesmo caminho.

Ela desfaz-se no lado escuro da gruta e ele num poço, onde as luzes lentamente ofuscam e morrem e na mesa nada está, nada, nem a memória do seu peito que tão bem se encaixa. A confusão torna-se impotência e o desespero bate como o sino do campanário da planície azul e cerra os olhos no escuro do poço, pesados pela névoa dos sonhos de ópio. O mar continua salgado e escuro e entre almofadas nuas, lembra-se do que noutros dias esquece.

Para o homem encantado tudo é difuso e irreal. A felicidade é como o âmbar que envolve o inseto, não o deixando mover nem sequer respirar, mas conservando-o no seu esplendor.


23 março, 2019

Os dois marmelos

Fui ao PD fazer a minha compra semanal de tequila e torresmos. 
Tinham marmelos, trouxe dois, acompanham bem com tudo.
A miúda da caixa olha para aquilo, depois olha para a caixa e por fim olha para mim e muito baixinho pergunta - isto é fruta? e eu com uma cara de surpreendido - sim, são marmelos... não conhece marmelos? e ela com uma cara enfiadita - não... e eu com uma cara muito séria - mas marmelada conhece? e ela a olhar sem saber se eu estava a gozar ou não - sim... e eu com a mesma cara séria - é daqui que sai a marmelada. 
Paguei a conta e acho que a deixei mais baralhada.

20 março, 2019

Terror medieval

No ano de 1551, Cristóvão Rodrigues de Oliveira, guarda-roupa de Dom Fernando, arcebispo de Lisboa, escreveu para o seu amo um Sumário da cidade, onde apontava ofícios da época, entre outras curiosidades. Aqui ficam alguns, em jeito de história: 
“O atafoneiro, que berrava desesperado com dores, gritou pelo seu mariola, a quem dava pão escuro, muito trabalho e uma zurzidela diária, além de o mandar de três em três anos ao calceteiro. O mariola saiu esbaforido da atafona à procura do saca-molas, que andava desaparecido fazia três dias.
Desceu o caminho e já na planura o vento trouxe-lhe o fedor dos tanques dos surradores. Benzeu-se três vezes e deu Graças pela sua vida fácil de mariola. Já perto da capela da Nossa Senhora da Luz, o cheiro o sebo cozido das velas enchia o ar junto ao beco dos cereeiros, e mais adiante, o pó da farinha crua parecia pairar sobre as hóstias ainda por abençoar. A mulher do obrieiro perguntou-lhe ao que vinha. Torceu o nariz quando ouviu falar do saca-molas. Não é homem de Deus, resmungou. Encostada à empena da capela uma merceeira benzia-se e entoava uma ladainha. 
Finalmente encontrou o saca-molas, bêbado de três dias, tombado num poial, e arrastou-o até à atafona. O mariola e mais dois agarraram rijamente o atafoneiro enquanto o saca-molas, em equilíbrio precário, com uns ganchos enferrujados que trazia sempre pendurados ao pescoço, lhe desbastava as gengivas e sacava cá para fora o último dos molares. Pois é, o saca-molas era dentista e naquele tempo não havia anestesias. 


17 março, 2019

O Café na vida e na fé


É Domingo de manhã e como não me lembro de nada especial para pensar, divago. Vem-me à memória uma cena de uns desses desenhos animados que por aí andam, tipo Simpsons, mas mais estúpidos:

O pai anda desesperado pela cozinha, abre caixas e desvia garrafas, bate com as portas dos armários, vê no frigorífico e na máquina de lavar, debaixo da mesa e por aí adiante, e com os cabelos em pé, liberta um grito de terror - acabou-se o café, acabou-se o café!!!

O filho está ali ao lado e pergunta - ó pai porquê esse stress com o café? ao que o pai responde - CALA-TE, tu tens a juventude!!!

Adoro café.

Para este texto não ficar muito curto, porque recebo à palavra, fica aqui a história (ficção ou realidade, não sei) de como o café por cá ficou:

A corte papal estava reunida com aquela imponência que se adivinha, e entra um descobridor, espanhol ou português não interessa para esta história, e cheio de vénias verbais, oferece, como se fosse um tesouro, uns grãos negros ao Papa.

Logo ali se prepara uma beberagem fumegante e aromática, embora negra como carvão. A corte papal insurge-se e reclama que uma bebida daquela cor só pode ser obra do mafarrico.

O Papa pensa, pensa, pensa e prova, era um papa destemido como o que temos hoje, e diz - uma bebida destas só pode ser criação dos Céus...

Abençoado Papa.

15 março, 2019

Bolas de sabão


Na sua leveza parecem carregar o mundo inteiro.
Delicadas, levam dentro delas arcos-íris efémeros que, no azul do céu, desaparecem numa explosão silenciosa.
Exalam serenidade e canções de embalar.
Evocam o regresso aos bancos da escola, as tardes mornas de primavera, as brincadeiras sem limites.
São o resgate dos joelhos esfolados, dos berlindes e do jogo da macaca.
Cheiram a maresia, a relva acabada de cortar e a bolacha maria com manteiga.
Trazem-me de volta a bicicleta ferrugenta, os carrinhos de rolamentos, as corridas de pé descalço.
Ainda hoje, sem ninguém à espreita, me sento no baloiço a soprá-las com a mesma tranquilidade. Fico depois a olhá-las subir devagarinho empurradas pelo vento.
Ingénuas…

07 março, 2019

O importante é a MÚSICA, pá


Olhava-os em vídeos datados e filmes estranhos, onde via uns meninos, de corte à tigela, que cantavam encurralados por multidões femininas num êxtase de gritos desalmados e desmaios compulsivos.

Além disso, já tinham acabado e ainda vendiam milhões, pelo que nunca poderiam ser um segredo indie só meu e de alguns eleitos. Ignorei-os muito tempo. Desdenhei-os.

Estúpido.


05 março, 2019

Ouça lá, você leva aí droga?


Tive mil empregos, só queria curtir. Uma altura conduzia uma carrinha, fazia recados para o aeroporto, e um dia calhou-me ir levar uma mala extraviada a uma terriola algures no Portugal profundo.
Estava sempre a acontecer, todos os dias chegava um cabaz de malas portugas, que tinham que ser entregues aos donos, que já só se lembravam da viagem porque a mala tinha sido extraviada. Isto foi há trinta anos, imagino agora.
Bem, vamos ao que interessa. A mala era tipo rija e estava cintada com aquela fita branca lixada de cortar e uma presilha do aeroporto. Se tinham gamado alguma coisa fora antes.
Ia eu muito bem, algures num caminho no meio do deserto rural, quando a seguir a uma curva e atrás de uma moita, deparo-me com todo o exército do mundo. Ele era polícia de intervenção ou o raio, fardas, capacetes, metralhadores, pistolas, carrinhas de assalto, sei lá, parecia que vinha ali a invasão marroquina. Isto no meio de um deserto, atrás de uma moita.
Eram uns vinte e fizeram-me sinal para parar e sair, o que fiz. Fora educado a ter respeitinho à polícia e também tinha dez metralhadores a fazer mira. Só me aguentei porque não tinha fralda.
Olhavam para mim e eu para o horizonte, quando, lá do meio dos furgões anti-motim, saiu um sujeito baixote à paisana, todo suado e a precisar de ginásio e tónico capilar. Aproximou-se  e com autoridade disse para eu abrir a mala do carro. As metralhadoras acompanharam a voz e chegaram-se à minha cabeça, se me baixasse matavam-se uns aos outros. Abri o porta bagagens e o que lá estava? a raio da mala do aeroporto.
O gajo olhou para mim e o esquadrão sanguinolento tirou a patilha de segurança das armas, preparando-se para uma baixa casual. Levou a mão ao queixo e meditou uma eternidade, até que de repente me perguntou:
Ouça lá, você leva aí droga?
Naquele momento senti-me aniquilado, como se toda a idiotice do mundo me tivesse esmagado de repente. O quê, isso pergunta-se? Respondi a verdade, quando não sabes o que dizer, responde a verdade, senão inventa, uma invenção é mais imaginação que mentira.
Não sei, vou só entregar esta mala do aeroporto, não faço a mínima ideia.
O homem com o fato barato e a suar em bica olhou duas vezes para a mala e duas vezes para mim e disse:
Siga.
Ainda hoje não sei o que se passava ali atrás daquela moita, mas andei uma semana a meditar no surrealismo...

02 março, 2019

O Ingês, apaixonado pelas nossas mulheres e varapauzado pelos nossos homens


Nos idos de 1780, viajava por cá um tal Richard Croker, capitão de infantaria inglês, que, en passant, escreveu umas coisas sobre as nossas mulheres e homens.

No primeiro texto, é notório que o capitão se apaixonara por uma bela portuguesa, porventura de olhos negros, algures pelas estradas de Sintra. No segundo é evidente que, depois de brincar com o fogo, terá pago a honra a alguém, varapauzado e cheio de negras, como tantas vezes Sancho Pança o foi por simples má sorte e destino.

Das mulheres, perdido de amores (assumpção minha)::

“Era impossível não reparar, nas cidades em que passámos ultimamente, na diferença entre as mulheres de Portugal e as de Espanha.
As mulheres portuguesas são agradáveis, elegantes no vestir, com lindos olhos e dentes e belo cabelo muito abundante: nos seus penteados misturam fitas e flores com muito bom gosto e isto mesmo mulheres de classes baixas, pois não nos foi dado ver outras.
Em resumo, tem que se admitir que há mulheres mais bonitas e melhores mulas (sic) em Portugal que na Andaluzia.”
Já em Lisboa: “Um espectáculo que quase me esquecia de mencionar: refiro-me às senhoras portuguesas às janelas. (...) Como não se vêem mulheres nenhumas na rua, senão as de baixa condição, elas devem com certeza estar fechadas em casa e dizem que os maridos portugueses são extremamente ciumentos.”

Dos homens, depois de um encosto mais viril (assumpção minha):

“Os homens portugueses são, sem dúvida, a raça mais feia da Europa. Bem podem eles considerar a denominação de ombre blanco como uma distinção. Os portugueses descendem de uma mistura de Judeus, Mouros, Negros e Franceses, pela sua aparência e qualidade perecem ter reservado para si as piores partes de cada um destes povos.
Tal como os Judeus, são mesquinhos, enganadores e avarentos. Dos Mouros são ciumentos, cruéis e vingativos. Tal como os povos de cor são servis, pouco dóceis e falsos e parecem-se com os Franceses na vaidade, artifício e gabarolice. (…)
Os homens são notoriamente ciumentos e, se pode haver uma desculpa para esta paixão, deve ser que onde as mulheres são dignas de ser amadas e os homens tão opostos, surgem crimes privados e assassínios.”

Ora, a pena do capitão tingiu-se na soberba com que os membros do Império de Sua Majestade encaravam os outros homens. Também eu, só por isso, lhe teria dado uma bengalada .

Quanto às nossas mulheres, Lisboa presta-lhes homenagem nas curvas luminosas das suas colinas, pelas quais deixamos deslizar o olhar como um toque, um cheiro, um desvario.

28 fevereiro, 2019

Estrelas, ferrugem e ervas daninhas


Apesar da previsão de tempestade, o céu permanecia azul e o vento amainara. Cheirava a Primavera.
Dei por ti sentada num raio de sol, encostada à parede suja, de olhos fechados a saborear o calor da tarde. Os cabelos em desordem escondiam-te os olhos que eu sabia fechados. Mastigavas pastilha de menta, se bem me lembro. Fiquei um bom bocado a olhar-te do outro lado do passeio até que me decidi a ir ter contigo. Atravessei a rua e sentei-me no chão ao teu lado.
Gostávamos daquele lugar sórdido de fábricas abandonadas, prédios com paredes sujas que nunca tinham sido pintadas, ferrugem e ervas daninhas.
Assim que me sentiste, encostaste a cabeça no meu ombro. Deixamo-nos ficar assim num silêncio grande, sem mais. Não era preciso nada. (Às vezes é preciso parar para depois poder continuar.)
Parecia que a vida nos oferecia aquele momento de perfeição absoluta e nos envolvia numa poeira celeste como se suspeitasse que aquela seria uma das últimas horas de cumplicidade.
Quebraste o silêncio enquanto partilhávamos mais um de tantos cigarros clandestinos." Ontem à noite vi uma estrela cadente. Dizem que se pensarmos num desejo, ele realiza-se". Não te respondi, achava aquilo uma treta. Hoje teria dito que sim, que acreditava com muita força. Acredito que temos de nos agarrar a alguma coisa.
Já era tarde. Tínhamos de voltar para casa. Despedimo-nos e cada uma foi para o seu lado.
Durante a viagem de volta, repetia para comigo que ia voltar a ver-te em breve. Tinha a boca seca, a sensação de que se pronunciasse uma palavra que fosse, algo de mau iria acontecer. Sentia como que um punhado de cubos de gelos a invadir-me o corpo. 
Quando cheguei a casa, sentei-me sozinha no escuro da cozinha para apreciar o silêncio. O sol já há muito se tinha posto, levando-te com ele num dos seus raios.
Não podiam ter chegado de outra maneira... as palavras. Não havia forma de as adocicar. Entraram por mim adentro como punhais.Ouvi como que um barulho de vidro a quebrar e caí de joelhos.Ainda espreitei o céu à procura de uma estrela cadente, mas já não havia nada para ver.
Devia ter-te dito que sim, que acreditava nas estrelas com muita força.

I´ve seen it all, I´ve seen the dark
I´ve seen the brightness in one little spark
I´ve seen what I chose and I´ve seen what I need
And that is enough to want more would be greed
I´ve seen what I was and I know what I´ll be
I´ve seen it all- there is no more to see

(Bjork, I´ve seen it all)

26 fevereiro, 2019

O beijo de Helena e João

Por este andar não chego a tempo, pensou Helena preocupada com o trânsito. Será que ele espera? Claro que vai esperar, respondeu a si mesma, confiante. Ansiava vê-lo, mas era um desespero, a fila nunca mais se mexia.

João tinha passado dez minutos encalhado no túnel do metro. Estava nervoso, não se queria atrasar no primeiro encontro. Todo este tempo para arranjar coragem e agora isto. Sentia-se um pássaro engaiolado. 

Helena lembrou-se da primeira vez que o vira, na biblioteca da escola. Tão amoroso, tão genuíno no seu blusão de ganga. Bonito. Batia-se por um livro e ela saltou em seu socorro. Era assim, impulsiva. Ele olhou para ela como se fosse o que lhe faltava. Talvez tenha sido amor à primeira vista, pensou Helena, abrindo o sorriso quando o carro à frente avançou.

João lembrava-se bem quando conhecera Helena, o seu ataque em sua defesa. Naquele momento qualquer coisa se abrira dentro dele, quisera beijá-la. Não o fez. Anos e anos de sentimentos reprimidos, pensou. Bem, hoje é o dia, se eu sair deste maldito metro. Aproximava-se a estação junto ao rio. Olhou distraído para uma rapariga sentada à sua frente. Era naturalmente bonita da mesma forma que Helena era naturalmente deslumbrante. Olhou pela janela, para a escuridão, pensando em belos olhos escuros.

Agora que o trânsito parecia andar, Helena acalmara um pouco. Faltavam cinco para as nove e contava chegar com dez minutos de atraso. Era aceitável, pensou. Ele é tão tímido. Lembrou-se de tê-lo visto mais tarde naquele dia, no refeitório. Sorrira para ela e rapidamente sentara-se no outro lado da sala. Trocaram olhares pelo reflexo de um espelho. Se não me tivesse sentado à mesa dele no dia seguinte, pensou Helena, ainda estaríamos a olhar-nos no espelho. Os Strokes interromperam os seus pensamentos e aumentou o volume do rádio, sentindo que não se movera nos últimos cinco minutos. Começou novamente a sentir-se nervosa.

João recordava bem aquele dia e as palavras mágicas de Helena, Olá, este lugar está ocupado? A voz de Helena soara tão doce…, mas ele só conseguira murmurar em resposta. Qualquer coisa brilhara e tinham aproveitado cada segundo da conversa. Passaram a encontrar-se todos os dias na faculdade e ele sentia a falta dela nos fins-de-semana. Duas semanas depois, decidiu que tinha que ir mais longe e numa tarde de Sol convidou-a para sair. O metro chegara finalmente. Subiu apressadamente as escadas e comprou três rosas vermelhas para dar sorte ao Amor. Apressou-se, rezando para que ela lá estivesse. Já eram nove e quinze.

Helena soubera que sentia algo por ele no primeiro domingo em que acordou triste. Os seus encontros na escola começaram a ser um prazer e uma tortura. Ele parecia sempre tão distante, até que do nada, numa tarde de Sol, convidara-a a sair. Eram nove e vinte e cinco, estava a ficar exasperada. Já perto, viu uma luz branca e acelerou para o lugar, mas perdeu-o.

João olhou o relógio. Eram novo e trinta e cinco. Ela já não vem, pensou, sentindo-se frustrado, mas principalmente triste. Ela não vem, repetiu para si próprio e lentamente, sem vontade, caminhou para a paragem do autocarro.

Helena conseguira estacionar o carro a dois quarteirões de distância. Apressou-se. Meu Deus, isto não está a acontecer, pensou.

O autocarro aproximava-se e João olhou uma vez mais, mas ela não estava. Entrou, sentindo-se amargurado e prometendo a si mesmo que nunca mais cairia na armadilha do amor. O autocarro iniciou a marcha quando, pelo canto do olho, viu o passo apressado de Helena. Pare o autocarro, gritou em voz alta, mas o motorista olhou-o pelo retrovisor e ignorou-o.

Helena chegou. Estava ofegante. Ele não está, pensou, poderia ter esperado um pouco… ou talvez não tivesse vindo? Sentiu o coração a quebrar-se. Olhou para o relógio. Eram nove e quarenta e cinco.

Dentro do autocarro, João pensou rápido. Puxou a alavanca de segurança. As portas do autocarro abriram-se e o motorista travou a fundo. Os passageiros queixaram-se, o motorista protestou, mas João pulou para a rua, alheio a tudo.

Helena estava parada. Não sabia o que fazer. Não queria ir para casa, só o queria ao seu lado. "Helena". Reconheceu a voz e virou-se. João olhava-a e sorria. Ela sorriu de volta e pegou a sua mão estendida.

Beijaram-se.



21 fevereiro, 2019

Kit de sobrevivência

Bom dia!... Olá!...Como está?... Tudo bem contigo?... Como tem passado?...Essa saúde, vai andando?...
Bom dia de trabalho!... Uma semana em grande!...Bom fim de semana!... Bom descanso!...Boa sorte!...
Tudo a correr bem!...Precisando de alguma coisa, estou ao dispor...Se precisares de ajuda, apita!...
Posso fazer alguma coisa por si?...Agradeço...Obrigado(a)!...Se faz favor!...Por favor!... Pleeeaaase!...Importas-te?...Não me importo nada, é um prazer!...Sem stress, é para já!...Parabéns!...Excelente trabalho!...Grande evolução... Deixa lá isso, amanhã será melhor!...Desculpa...Se me permite!... Com licença...

(A adquirir com urgência antes da rutura de stock).