31 agosto, 2019

Os emigrantes pt2 - A chegada

Os carros começam a chegar com o sol de agosto que abraça a aldeia nos dias da Festa de Nossa Senhora. É o milagre do reencontro há tanto tempo esperado, não há famílias em que não se aguarde e se as há, estão felizes pelas novidades e pela felicidade dos outros.

Os velhos riem de alegria ao ver o automóvel subir a estrada. O pai apressa-se a dar instruções, pára aqui, como se o filho não soubesse onde parar desde que saiu de Bordéus, mas é o nervoso, já não consegue estar quieto, bate com as mãos nas pernas. A mãe torce os dedos ao peito e chora de alegria e sucedem-se os carinhos, ai a minha mãe, minha filha do coração e ao mesmo tempo queria dizer minha filha amada, e abraça também o filho que diz ó minha mãe olhe que me sufoca e ri-se. Chega a vez do pai, anda cá rapaz, como está isso? Como vai meu pai? Queriam falar de amor e saudade, mas isso não é conversa de homens.

Os abraços, os beijos e os apertos de mão não têm fim. Vão chegando outros e a estrada tem finalmente uso. Os casais divididos abraçam-se e beijam-se ao de leve nos lábios, outros tempos, mas os mais jovens agarram-se e beijam-se como deve ser e ouve-se por todo o lado, meu pai, minha mãe, minha filha, meu filho, meu homem, minha mulher, minha amiga, meu amigo e parece que qualquer coisa embriaga o ar. 

Com eles vêm miúdos que estranham aquilo, aquela gente, e outros mais graúdos que fazem de conta que ainda não chegaram. A mãe diz venham dar um beijinho aos avós e à avó sai-lhe que menina bonita que tu estás, valha-me Deus, e enche-a de beijos, e o avô estica a mão ao neto, deste um grande salto rapaz, e depois abraça-o, e tiram do bolso um rebuçado que lhes dão às escondidas como um segredo. Também há homens que procuram os filhos pequenos que nunca conheceram e é a vez da mãe dizer anda ao teu pai e o miúdo vê-se agarrado por aquele homem grande que o abraça, meu filho.

Os de cá vêm neles a abundância, os homem com barriga e as mulheres com os vestidos garridos, a última moda em Paris contam depois às primas. Vêm com dinheiro para gastar e mostram com orgulho o BM em que chegaram e contam histórias da viagem e das horas em Vilar Formoso e do cansaço de conduzir sem parar, e que para o ano, se Deus quiser, já não vão dar trabalho aos pais, já têm um terreno apalavrado para construir uma casa e os pais se os ouvem ficam muito contentes e muito tristes, porque parece que vão perdê-los uma segunda vez. 

Não dizem que têm o carro só para a viagem, nem da enxerga onde vivem em Paris ou em Lausana ou dos trabalhos onde mal ganham para viver e os sacrifícios que passam para juntar aquele dinheiro, os dias em que pouco se come como na aldeia, e que os franceses e alemães os tratam mal, mas de quem não se queixam, só dizem que são diferentes, não sabem viver.

E passada uma semana o João Maria, que esteve toda a noite na taberna a beber copos de bagaço para arranjar coragem, diz à mulher, já viste o Sabino, como ele se deu bem na França... Ela não responde, parece adivinhar o que aí vem, parece que as mulheres têm um sexto sentido, e ele continua, disse-me para ir com ele, que tem lá trabalho para mim. Agora ela roga e chora, não faças isso que me fazes falta, tanta falta homem, só te tenho a ti, aqui sozinha com os nossos filhos nesta escuridão, mas ele com a voz rija e rouca responde mas venho rico mulher e assim acaba a conversa. 


Foto: Georges Dussaud





29 agosto, 2019

Os emigrantes pt1 - A saudade

Na aldeia branca as mulheres apressam-se pelas lajes escorregadias. A Igreja gela como o tempo, mas é a única certeza numa vida adiada. O que é o frio comparado com o calor da fé na Virgem e no Senhor, que as aquece todo o caminho até ao coração? Vêm rezar pelos filhos que andam emigrados, a ganhar a vida por terras estranhas e vão voltar para a Festa de Nossa Senhora. Todos os dias repetem as promessas para que cheguem bem e de saúde, que isso é que é importante, se Deus quiser. As saudades são muitas e apertam o peito que doí até ás lágrimas. 

À Igreja os homens não se apresentam, ficam nos campos por necessidade ou vício de semear, ver nascer e crescer. A chuva castiga os ossos e a enxada nas mãos que são um calo, os rins. Essa coisa dos santos e santinhos é para as mulheres e o Padre, a quem descobrem a cabeça a caminho da taberna, não desperta confiança. Porque é que o Senhor lhes fez a vida tão dura, tão sofrida? Mas pensam nos filhos e vêm a sua silhueta nos campos nos dias de neblina. Rezam para dentro enquanto descarregam a sacho na terra, para que cheguem bem e de saúde, se Deus quiser, que isso é que é importante. As saudades são muitas.

Olham a estrada do alcatrão, mas na ponte da ribeira nada passa. A Festa teima em não chegar e a estrada mantém-se vazia.

28 agosto, 2019

De volta


O nosso EGO esteve de férias. No entretanto temos partilhado textos antigos que achámos merecedores de uma nova leitura. Voltamos com textos novos e o primeiro chegará amanhã. Contamos continuar a merecer a vossa atenção e o vosso apoio. 


Teclas, teclas, o texto esboça-se e se a musa ajudar, constrói-se. Parecendo que nada fica, fica sempre um prazer nosso. Escrever, escrever sempre. Tudo é Amor!

13 julho, 2019

O número fascinante

O texto abaixo é belo e incomum. Já o reli vezes sem fim e deixa-me sempre a ponderar no que é o óbvio. Seguem-se algumas considerações após uma tradução livre do inglês.


"Qual é o meu número favorito? Nunca nisso pensei, mas, a fazê-lo, a minha resposta terá que ser o 3. O número 1 é o mais importante. Serve de prova que algo existe. Por outro lado, o zero é a descoberta mais sensacional, o conceito da não existência é prova da civilização humana. Depois do 1 vem o 2 em ordem de importância. O número 2 permite-nos dividir as coisas e ordenar os números. Estes três números (0, 1 e 2) seriam suficientes. Como número, o 3 é fascinante. Foi concebido embora não fosse necessário. Talvez nascesse de pura criatividade?"
Naoki Higashida

O que é a criatividade? É fazer algo pela primeira vez enquanto humano? É fazer algo pela primeira vez enquanto sujeito? É Arte? Tem que ser consciente? Ou poderá ser o movimento que criei quando o meu braço se estende para pegar a chávena do café?

Procurar responder a estes pensamentos e dúvidas que o meu cérebro criou será um acto criativo, apesar de alguém já o poder ter feito?

Creio que a excelência desse acto é o ser, não na acepção divina ou filosófica, mas na animal, na do corpo que todos os infinitésimos de segundo cria e se recria apenas para criar as batidas do coração, e de como este satisfeito o recompensa criando vida.

Texto original:

What’s your favorite number? I’ve never really thought about my favorite, but if pushed, my answer would be 3. The number 1 is the most important. It feels like proof that something is there. Then again, zero is the most amazing discovery. The concept of nothingness is proof of human civilization. After 1 comes 2 in order of importance. The number 2 lets us divide things and put numbers in order. These three numbers (0, 1 and 2) would have been sufficient. As a number, 3 is enchanting. It was created even though it wasn’t needed. Perhaps it was born out of creativity? 

11 julho, 2019

O Rei da Montanha



Por decreto real no topo desta montanha anunciaremos o veredicto final.
Que todos a nosso redor sejam testemunhas e juizes.
Perante nós testemunhas e juizes, acusamos-te dos seguintes crimes.

Acusamos-te de invasão.
Acusamos-te de subterfúgio.
Acusamos-te de usurpação.
Acusamos-te de vandalismo.

Por deliberação, tendo em conta testemunhos e provas, chegámos a uma decisão mútua. Perante nós testemunhas e juízes, vemos, testemunhamos, e julgamos o acusado.

O veredicto é culpa.

Invadiste o mais sagrado de alguém.
Escondeste as tuas intenções.
Roubaste empatia do trono.
Destruiste esperança.

Pela natureza hedionda dos crimes, decretamos a sentença máxima:
Duelo até à morte com a vida.

Que o tempo tenha misericórdia pela tua alma.

09 julho, 2019

Escrever, escrever-me, escrever-te…

De acordo com as palavras de Virginia Woolf, “Escrever é que é o verdadeiro prazer, ser lido é um prazer superficial”. Não posso deixar de concordar.
Embora, na verdade, a escrita seja também uma questão de EGO é antes de mais uma questão de intimidade, de entrega, de secretismo. É fruição.  É até, em alguns casos, vital.
Escrever é ,antes de mais, ter coisas para dizer. Construir histórias através da combinação de palavras aliada à sintaxe e à semântica (ou sem aliados, simplesmente porque também pode acontecer contar coisas com palavras soltas!) e sacudir o mundo trazendo ao de cima sentidos mais ou menos explícitos. Sim, porque a escrita também exige esforço. Não está lá tudo, às vezes é preciso construir e desconstruir. Pensar, redigir, apagar ou queimar, arrepender-se e voltar a fazer tudo de novo. Aí reside o verdadeiro prazer da escrita: a procura constante, a exigência, a beleza das palavras, o prazer, a frustração, a inspiração ou o vazio. Paradoxalmente o vazio é inspirador. Parece coisa de gente louca, mas é assim.
Se num primeiro momento idealizei este texto para ser uma reflexão e porque a escrita é também uma anarquia e por isso mo permite, decidi mudar-lhe o rumo e continuá-lo na primeira pessoa do singular porque é assim que tenho vontade de escrever neste preciso momento. Na verdade, apetece-me dizer poucas coisas, mas escrevê-las com cores, cheiros e emoções. Ainda que pouca gente as leia, já as imortalizei numa folha branca. Pouco me importa a quantidade de olhos que vão por elas passar, são minhas… até que alguém as queira tomar também como suas.
Escrever-me tem sido uma árdua tarefa que, no entanto, tem sido possível muito devagarinho. A maior parte das vezes a preto e branco, fruto das circunstâncias, mas também gosto de tons pastel e de quando em quando lá vou colorindo algumas palavras mais felizes.
Escrever-te é bem mais fácil e prazeroso, mas é preciso ter mais cuidado na escolha dos vocábulos, já dizia o poeta “São como um cristal, as palavras. Algumas, um punhal, um incêndio”.
Procuro guardar tudo com cuidado: as palavras e as pessoas. E para que possa ficar com as pessoas, preciso de saber mexer nas palavras com mestria e precaução. E quanto mais cor lhes der, melhor.
Sílabas presas num nó da garganta, expressões que habitam o coração ou palavras que nos esmurram o estômago, tudo merece a devida transcrição.
É preciso é que não se escreva só com palavras, mas com a pessoa inteira.

 Assim...Escrevo, escrevo-me, escrevo-te…


05 julho, 2019

Pontos de vista narrativos, homodiegese, heterodiegese, polifonia, um exercício


HOMODIEGESE
Saí de casa à hora do costume. Gostava de chegar cedo ao trabalho, aproveitar para pôr alguma coisa em ordem enquanto não começava a confusão. Pus as mãos nos bolsos, a brisa ensopada de orvalho gelava-as. Atravessei a rua com cuidado, era larga e prestava-se a velocidades exageradas.
Entrei no café, o da esplanada, onde à tarde via os do bairro velho a beber meios-uísques e cerveja, e os do bairro novo a beber café, a comer bolos e a comprar pão. - Bom dia! - Bom dia! Respondeu ela com o sorriso do costume, enquanto me tirava a bica. O aroma do café despertou-me, era o primeiro prazer do dia, acompanhado pelas palavras de circunstância que sempre trocávamos - Está frio! - Pois está, dão dez graus para hoje... - Assim não dá para ir à praia! - E sorrimos.
Entrei no carro, fiz marcha atrás, depois segui em frente até à rotunda e cruzei os vários sinais até virar à esquerda e depois logo à direita. Entrei pelo portão do jardim, seguindo o caminho estreito de saibro, até ao pequeno parque nas traseiras. O edifício estava frio, as lareiras estavam apagadas há séculos. Pensava sempre nisto quando ali chegava. Era já uma rotina. Liguei o aquecedor da sala, depois o computador e sorri enquanto ligava a máquina do café, antecipando o segundo prazer do dia.

HETERODIEGESE
Saía de casa sempre à mesma hora. Gostava de ir cedo para avançar algum trabalho antes dos colegas chegarem. Naquele dia, aqueceu as mãos nos bolsos, a aragem de Outubro já cortava, os carros escorriam orvalho. A rua larga era perigosa e requeria a sua atenção ao atravessar, a velocidade dos que por ali passavam era exagerada. O balcão do café estava ainda vazio, à espera dos vizinhos do bairro novo, que pediam uma bica e comiam um bolo. À tarde, os homens do bairro velho bebiam meios-uísques e cerveja na esplanada. - Um café, senhor?- ele gostava daquela empregada, que cheirava a pão fresco e o cumprimentava sempre com um sorriso, antecipando o prazer do aroma divinal e milagroso do café. - Está frio! - Pois está, dão dez graus para hoje...! - Assim não dá para ir à praia! - Após as palavras de circunstância, saiu a sorrir.
Entrou no carro, alheado das rotundas e dos sinais que tinha pela frente, até que, após uma curva mais apertada, fez pisca à direita e entrou por um portão de jardim, quase enferrujado. Era o roteiro do seu dia-a-dia. Um estreito caminho de pedra levou-o até ao pequeno parque nas traseiras, onde parou o carro. O edifício estava gelado, era antigo, pensava ele enquanto passava por salas com lareiras que nunca se acendiam, apressando-se para a sua, para ligar o aquecedor e o computador. Depois, antecipando um prazer renovado, ligou a máquina do café e sentou-se a sorrir para ela.

POLIFONIA
"Este frio gela-me as mãos" - pensava ao atravessar a rua, enquanto as recolhia nos bolsos. "Espero que não esteja lá ninguém ainda, o Ramiro com a treta da bola, não se consegue fazer nada."
O condutor abrandou contrafeito, já a pensar na lomba mais à frente - "Estes gajos, sempre descuidados, não devem ter pressa para chegar ao trabalho". 
"Olha lá vem ele, tem a mania que é engatatão". Ela sorriu-se enquanto se chegava ao forno. Eléctrico claro, mas mesmo assim aquecia.
 - Um café senhor?
- Pois, o costume. Está frio, nunca mais vamos à praia! - Piscou-lhe o olho.
"Deves estar a sonhar, pá". - Pois é, ainda ontem o meu namorado me disse o mesmo. É surfista.- Riu-se ao ver a cara que ele fez.
A miúda cheirava a pão e a cama. Bebeu o café ainda com mais prazer e à saída disparou - Fico sempre mais quente quando aqui entro, deve ser do seu forno.
Riram-se os dois.
“Que gelo neste carro. O volante está gelado, deixa-me calçar as luvas”. Acelerou. Os sinais ou diziam vermelho ou verde. O amarelo dizia sempre verde. Voltou à direita e entrou pelo portão do antigo edifício, onde trabalhava. “Raios, este portão qualquer dia cai…, está mesmo ferrugento” Acelerou mais uma vez, derrapando no saibro do caminho. Estacionou nas traseiras.
Resmungava enquanto atravessava os corredores, enregelado, “…as lareiras não se acendem sozinhas, não há dinheiro para nada, isto cada vez está pior”.
- Bom dia pá. Viste o Sporting? Aquele árbitro é um mafioso do caraças.
"Merda, já cá está o Ramiro ". Olhou para a máquina do café, procurando consolo...




03 julho, 2019

Os Capotes brigantes do Bairro Alto


A História truculenta do Bairro Alto, ideada em tempos absolutos de leis do mais forte, desvenda-se no pequeno trecho que transcrevo das Peregrinações em Lisboa, de Norberto de Araújo. Acrescento que a parte final da história, já a tinha lido no Memorial do Convento, do nosso Saramago, que também gostava de ler livros.

Norberto de Araújo chega à Rua da Vinha e fala-nos à porta do nº 20:
"Repara [NA dirige-se na sua obra a um interlocutor a que chama Dilecto], nesta espécie de largo, o pórtico da entrada, em arco de cantaria; (…) É uma adega e carvoaria sombria mas típica, antiquíssima, destas que remontam, escondidas e sem aura, ao século XVII, tempo em que seriam estalagens e casa de comidas. (…)

Segundo a tradição oral já recolhida em romances populares, e que certos indícios parecem confirmar, aqui se reuniam os Capotes Pretos do Infante D. Francisco, irmão de D. João V, bando que se travava de brigas nocturnas frequentes com os Capotes Brancos de Sebastião José de Carvalho e Melo, quando este, moço volteiro, não sonhava ainda ascender à diplomacia, que nele precedeu a actividade política de Secretário de Estado. (…)”

Agora pela Rua da Rosa:

“Aqui neste prédio nºs 148-154, está uma velha estalagem de recolha de saloias lavadeiras. (…) Ora segundo a tradição oral, foi aqui a taverna «estalajadeira», por onde nos começos do século XVIII Sebastião José, mais o bando de sequazes de brigas bairristas – nos quais o popular e o fidalgo se misturavam – tinham a sede nocturna dos Capotes Brancos, grupo, ao jeito do tempo, rival dos Capotes Pretos capitaneado pelo truculento Infante D. Francisco, Duque de Beja, senhor de trinta e sete vilas, e de onze alcaidarias, estoura-vergas e cruel, que certa vez para experimentar a sua pontaria alvejou e atirou ao mar um pobre marujo tranquilo na sua faina na verga do navio. (…)”

O Bairro Alto, local de emoções fortes, possuiu sempre uma aura de transgressão e de quebra de regras, e de perigos assomando das suas antigas estalagens, baiucas e tabernas, travestidas hoje em bares e mini-discos onde a juventude despeja shots, e em ruas por onde bebe litradas, na ânsia sôfrega de percorrer rapidamente o caminho entre a felicidade efémera e a insolvência física.



José Mário Branco cantou os capotes. Aqui está a letra.
Foto: Rua da Vinha ©terezinhabasso

01 julho, 2019

Cronos

És um ladrão!
Um gatuno!
Um canalha!

Estás à volta de tudo o que está à tua volta,
e tudo o que consegues alcançar, roubas.

Roubas um copo de vinho por dia, para roubares o dizer “Saúde!”
Roubas o que está na ponta da língua, para roubares a memória de ideias.
Roubas o que tanto trabalhei para obter, para roubares a sua utilidade.
Roubas amigos que por perto gostava de ter, para roubares a sua amizade.

Roubas a nossa força, a nossa saúde, o nosso bem estar.
Roubas porque sim e roubas porque não.

E no fim roubas-te a ti próprio, para roubar qualquer oportunidade de te roubar de volta.

28 junho, 2019

O dia em que pedi um pedido


Um dos meus primeiros trabalhos, quer dizer, era mais um emprego, foi tirar passaportes no GC. Anos 80, havia a CEE, mas os portugas precisavam de passaporte e de visto para tudo que era sítio, mesmo na Europa. Éramos uns pelintras.

Lá no GC tínhamos um guiché só para nós, onde umas mulheres ou homens de mal com a vida não nos batiam porque não podiam, era só um guiché. Falo em nós porque éramos quase todos uns putos da mesma idade, tipo fugidos da escola e que trabalhávamos para empresas parecidas.

Entregávamos os papéis, ele era azul de 25 linhas, selado, assinaturas reconhecidas, carimbos e fotos à la minuta, sei lá, o pacote completo. Depois era rapidíssimo, um mês para o normal e sete dias úteis para a urgência. Os "dias úteis" é como nos preços, está escrito 9.99, nós dizemos que é 9, mas é 10.

Há sempre uma primeira vez em que o lirismo do sistema, bem à tona naqueles anos, nos encurrala num sítio qualquer. Um gajo precisou de um passaporte urgentíssimozissimo. Tipo de um dia para o outro. E eu à toa, lixado. E o patrão, trate disso, então, anda aqui a fazer o quê? E eu continuava à toa.

Cheguei ao GC com a papelada e estava lá o meu amigo, gajo d'Alfama, de bigodinho, que falava a cantar o fado e sempre a rir. E eu, porra, já viste esta cena, como é que desenrasco esta merd@, meu? E o gajo, é fácil, fogo, nunca pedistes um pedido? Anda comigo. O gajo era batido, era d'Alfama. Era também um baril.

Mas, porra, que raio, pedir um pedido? Atravessámos a rua para o prédio em frente onde se levantavam os passaportes num balcão, num primeiro andar. E o gajo disse, entra aí. Era uma porta do lado esquerdo do balcão. Estavam lá meia dúzia de putos que eu conhecia, alguns com muitos papéis, mas todos caladinhos. Tinha uma porta em frente. Quando chegou a minha vez, entrei.

Numa secretária pequenina, estava um homem enorme todo encurvado, de óculos embaciados, com pilhas de passaportes e papéis por tudo o que era tampo e não só. Não levantou a cabeça, só lhe via o cabelo empastado e o suor a escorrer para o fato dos Fanqueiros.

Fiquei parado à espera. Ao fim de uma eternidade perguntou, o que quer? e eu sem saber bem o que se passava ali, disse, vinha pedir um... pedido! E o homem disse, enfronhado na papelada, deixe aí e venha levantar amanhã. E assim fiz.

Foi uma das primeiras vezes que este país me pôs a mão por baixo.

26 junho, 2019

Escritos de sal

Sedenta de renovação e libertação, atirou os escritos à água. Origem de todas as coisas e para onde tudo retorna, a prima matéria haveria de saber que destino teriam todas aquelas estórias. Escrevera tantas vezes, sentada na areia, com o bloco no colo e o horizonte como pano de fundo. Não havia como não devolver às águas o que em tempos elas lhe tinham oferecido. Quanto mais olhava para aquela imensidão azul, mais vulnerável se sentia… uma embarcação frágil … um barco feito de um qualquer matutino esquecido num banco de jardim.
Ali, onde tantos tinham perdido a vida e desaparecido para junto de criaturas fantasiosas, outros tinham cruzado as águas com coragem e ousadia. Palco de cruéis piratas, intrépidos navegadores e esconderijo de conchas e peixes coloridos, o mar levava-lhe agora as palavras (umas put@s, outras pérolas). Deixou-se estar a vê-las partir, até que anoitecesse. Talvez alguma sereia se apoderasse delas e as transformasse num canto mágico.
Era hora. Descalçou-se, mas não se despiu. Entrou na água até que a espuma branca a cobrisse. Assim como as suas estórias, aquele era o seu Fado.

23 junho, 2019

100 posts é um número redondo e faz bem ao EGO


O blogue EGO Magazine tem tido um enorme sucesso, principalmente junto dos seus criadores e colaboradores, porque junto de leitores, mais para menos do que para mais, ok, a culpa é de haver muitos conteúdos na Internet, blá, blá, blá, ou seja, apesar de sermos bons nisto estamos um pouquinho aquém dos 2.000.000 de leitores, que pensávamos que já teríamos alcançado.

Considerando o acima escrito e o que se segue, julga-se importante sublinhar que o editor do espaço, Adriano Lisboa, na plena posse das suas faculdades mentais, espirituais e outras, decidiu realizar uma mudança radical no blogue, girá-lo 360º, e irá reagir como é seu costume, com intensa curiosidade ou renovado desinteresse, às inúmeras reclamações que se avizinham, devidas ao efeito que esta volta completa irá ter na vida dos leitores.

Bem, mas falando sério, mesmo sério, quero agradecer a todos os que me têm acompanhado, colaborado e incentivado nesta jornada, Lady Marian, As Mãos, Tarte, Arroz Doce e principalmente, em nome da equipa EGO-cêntrica, quero deixar aqui um grande obrigado a todos os que nos apoiam e seguem e aos outros que certamente virão.

Bem hajam e até ao post 101.

20 junho, 2019

Desaparição ou antes que morram as palavras

Pedi-te uma ideia emprestada. Acedeste na condição de que eu a devolvesse. Prometi fazê-lo, mas não cumpri e guardei-a para mim (era boa demais!). Escondi-a num lugar secreto e não a voltei a pôr no lugar. Assim que a tive comigo, vivi um instante de plenitude, um fascínio delirante. Sou uma ladra. Já o disse antes. Tiro aos outros e não devolvo nada. Sou uma artista decadente, mas ninguém precisa de saber. Faço decalques. Finjo que faço. Vivo num desequilíbrio vertiginoso temendo a queda final. É quase obscena esta abstinência de esforço mental. Este desapego à ação chega a ser prazeroso. Delícia este desmembrar de obrigações e de cansaços! Para quê viver num tumulto, se posso ter o deleite de graça? Até me arrepio com a ideia. Mais valem eufemismos desviados do que hipérboles vindas de mentes insanas.     
…
F***-se! (Que digo eu?) Mas que raio de conversa é esta?
A exaustão faz-me perder o tino. As obscenidades sobrepõem-se à doçura. A decadência afoga-me a lucidez. O tormento trespassa-me a alma, tolhe-me o pensamento. Regressem a harmonia e os murmúrios levados pelo vento. Dissipe-se o espesso nevoeiro, apazigúem-se as convulsões, feche-se a dor exposta. É hora de lamber as feridas, preciso de me recompor, escrever tudo numa letra pequenina para não deixar fugir nada, ninguém me roubar as palavras. Temo que as flores murchem e que esmoreçam as estrofes sôfregas de olhares curiosos e impressões.
Acalme-se a tempestade. Solte-se a brisa suave.


18 junho, 2019

O sol que me ilumina

silhouette of plant during sunset
Durante a noite caminhámos percorrendo o longo percurso,

aguentando a dor e a chuva e o calor.
Pelo caminho seguia-nos uma colónia de coelhos,
curiosos pela nossa peregrinação de dor.

Abriram-nos a porta no abrigo e deram promessas de paz e conforto.
Era mentira. A dor continuou, certeira, como um relógio.

A chuva não parava de cair lá fora e pouco conforto sentiamos cá dentro.
A noite passou sem praticamente conseguirmos dormir.
A dor não perdoou e ficou insuportável.
Os nossos anfitriões vieram em socorro,

estiveram connosco até ao fim.
E a dor acabou por atenuar.

Deixaste de ter vontade de estar dentro e quiseste sentir a chuva lá fora.
Mas estavas inerte, adormecido.
Ao veres que conseguias respirar acordaste.

Acordaste com um choro, que mais parecia um coro de uma sinfonia celestial.
O teu choro libertou lágrimas em faces há muito dormentes.
O teu choro acordou essas faces há muito dormentes.

A chuva parou quando nasceste.
A vida faz sentido quando a irradias,
porque és o sol que me ilumina.

16 junho, 2019

Sopro de vida...Sopro de morte


Corvos e pombos pousam nas pedras tumulares do jardim cujos bancos cobertos de musgo aguardam há muito o descanso dos amantes. Um demónio de pedra lança um olhar perverso ao anjo de mármore alvo, guardião de memórias em farrapos. Na sombra dos arbustos e das folhagens, perdem-se duas sombras em gozos e loucuras sensuais, no silêncio soturno daquele jardim de morte. Um aroma tenebroso paira no ar cerrado e quente. Debaixo da densa treva e das suas cintilações, caminha descalça e altiva. Os longos cabelos negros baloiçam escondendo as costas nuas que o veludo do vestido não cobre.
Segura vai embriagada de escuridão, carregada de dor e tristeza, um punhal na mão.
Nas veias o sangue pulsa forte, no peito a cadência dispara, acelerada. Frágil e bela prossegue imperturbável, tendo como cúmplice o feitiço da lua. Amo intensamente a palidez do seu semblante, a figura esbelta e recatada, o peito imaculado onde anseio repousar dos desgostos e dos gumes afiados. 
Pudesse eu deitá-la no mármore frio, tomá-la nos braços e devolver-lhe num beijo o sopro de vida quase extinto. Pudesse eu adormecer no seu regaço e abandonar-me para sempre com ela num abraço.


14 junho, 2019

Gotas de Saudade

Pequenas gotas voam no mar,
sobre o oceano para lá
e sobre a linha que se curva um pouco, para cá.

São de um vapor pequenino,
e a aventura da água é uma distância recta,
entre o céu e o mar e duas terras.

Seguem destinos opostos,
a pressa é tanta,
a corda que as prende estica, mas não rompe.

Puras, voam em molhos, 

são azedas sem risos,
só ânsias e recordações e desejos.

Puxadas a vento deslizam nas ondas
quando o vento levanta uma espuma branca,
e como um rio rolam no mar.

Buscam-se e sem nunca se ver,
chegam às pontas da infinita recta
tão curva que baralha a vista.

Mais uma gota de suor quente que desliza no peito,
mais uma gota de suor frio que gela a espinha.
Saudade.

12 junho, 2019

O retrato

Um dia, pedi-te que fizesses o meu retrato. Lembras-te? Lançaste-me um daqueles olhares interrogativos, mas não pronunciaste uma palavra.

Desenha-me, tenho medo que se esqueçam de mim quando já cá não estiver. Nem precisas de me fazer bela, apenas quero continuar viva aos olhos daqueles que me olharem. Fá-lo com giz branco numa grande folha negra, sem muitas expressões faciais, uma silhueta ou talvez uma figura em sombra chinesa. Não uses cores e não fixes a minha alma.

O retrato é o espelho da alma. O traço é a revelação da tua personalidade. Por que razão queres tu baralhar as pistas? Pretendes que te guardem na memória ou que te questionem quando já cá não estiveres para responderes. Que raio de delírio é esse?

Quero que me voltem a construir, depois que me desvendem e por fim que me voltem a amar.
Quero permanecer…

10 junho, 2019

10 de Junho, Portugal, Portugal


(...)
O Tejo tem grandes navios
E navega nele ainda,
Para aqueles que vêem em tudo o que lá não está,
A memória das naus.
(...)


in Poemas de Alberto Caeiro, 

Ática, 1993

08 junho, 2019

Alucinações da madrugada

Sinto-me a ausentar-me.
O meu corpo continua enjaulado. O peso de uma sombra abate-se sobre mim e isola-me cada vez mais do resto do mundo.
Sou um ser noturno. Cresce uma dor incontrolável dentro de mim, preciso de outra menos intensa para aguentar a primeira. Sinto-me febril. Tenho o rosto lívido, transparente como os mortos têm. Parece que me vou apagando aos poucos.
Arrefeceu durante a noite. O frio era tanto que abri a janela toda para que entrasse e me penetrasse nos ossos. Não consegui pregar olho durante a noite. Insónia a insónia, vou memorizando as imagens que forram as paredes do quarto. Há fotografias, desenhos e esboços por todo o lado. Decidi deixar de pintar, mas nunca cheguei a arrumar nada. Continua tudo espalhado. As tintas estão secas, os pincéis duros e as telas amareladas.
O silêncio é angustiante na minha caverna urbana, mas é nele que me consigo encontrar. É na ausência de ruído que me vou metamorfoseando. A vertigem do silêncio dilatado sacode-me e obriga-me a pensar.
Penso tanto em algumas pessoas que sou tomada pelo nevoeiro da memória, os traços vão se esbatendo e aos poucos vou-me esquecendo delas. As imagens vão desfilando, no entanto surgem cada vez mais desfocadas. Pela janela aberta, entra um vento frio e salgado. Arrepio-me. Há já muito que ninguém me telefona ou me visita. Vou passando aqui as noites monótonas e iguais, escrevinhando coisas que acabo por queimar.
Tenho os lábios gretados e os olhos inchados. Dói-me o corpo todo, o peito principalmente. Era bom que, definitivamente, o sono me entorpecesse e me fizesse desmaiar numa dormência profunda que me apagasse da cabeça coisas até agora indeléveis.
Queria embriagar-me de álcool, de erva e de paixão. Passo a língua pelos lábios e afasto o cabelo dos olhos. Enrosco-me sobre mim mesma e estremeço à espera da manhã longínqua. Ainda faltam umas horas até o manto escuro de pontos luminosos se desvanecer. Fiz café que vou bebendo a escaldar de uma caneca branca. Acendo um cigarro que saboreio até o filtro quente me queimar os lábios já feridos. Tornei-me uma ladra. Roubo os outros, mas não me deixo roubar. Apodero-me das suas histórias, desconstruo-as e com elas produzo linguagens. Tenho de desprender o torpor das mãos. Lembro-me do puto que vi cair do quarto andar, estendido no chão, uma multidão à volta. Destroços de vida.
Encho a caneca de novo, o café sabe-me bem. Reúno os fragmentos de memória, dou-lhes um nome e faço-os reféns de uma folha de papel branca.
Acontece olhar-me no grande espelho do quarto durante longos minutos. Miro-me da cabeça aos pés a ver se algo mudou de um dia para o outro. Uma noite destas, refletiu-se um homem seminu, sem rosto. Vestia apenas uma camisa branca igual àquela que trago vestida agora. Quis tocar-lhe, mas ao toque dos dedos no espelho frio, desapareceu. Mais uma partida do álcool, de certeza!  Que pena, queria ter-lhe descoberto o rosto, a identidade. Sinto que volta. Temos coisas para dizer.
Amanhece.