Hoje é um dia para estar na praia ou à beira de um penhasco e vermos, espantados e esmagados por tal excelência, o refulgir massivo da Lua prateando o Mar até ao infinito do nosso espírito, ou então estarmos numa floresta muito a Norte, a ouvir o uivo chorado dos lobos, repetido sempre e mais alto até aos confins das alcateias e de, massacrados pela Lua, nos encolhermos cheios do medo primevo, sem saber compreender nem questionar a nossa existência.
Contexto: Hoje vamos ter a Lua mais bela do ano. Vai ser 18% maior e 30% mais brilhante. Quem não gosta e não se derrete com uma Lua assim?
19 fevereiro, 2019
16 fevereiro, 2019
O Assombro da Ermida da Encarnação
O relato que a seguir transcrevo é tão surpreendente, que me obrigo a dispensar introduções tal a convicção com que nos é exposto:
“Junto ao local da Panasqueira, na estrada que vai para Sacavém, no ano de 1725, vindo uma noite Joseph Manzone, de Lisboa, para sua casa, que era em outro lugar de Sacavém, e trazendo consigo dez mil cruzados, lhe saíram três ladrões para tirar-lhe o dinheiro, e invocando o patrocínio de Nossa Senhora da Encarnação, instantaneamente se achou a porta da sua casa, sem saber como, nem pelo caminho por onde foi: por cujo benefício logo fez levantar um nicho no mesmo lugar com a imagem de Nossa Senhora (…)”.
Este relato é do Padre Cura Pedro de Oliveira, do lugar da Charneca, e foi tomado das Memórias Paroquiais de 1755. A narrativa prossegue com a notícia de que o prodígio motivou os fiéis e que a ermida, durante alguns anos alvo de peregrinações, foi destruída pelo terramoto de 1755 e deixada ao abandono.
Que “a fé move montanhas” já o sabíamos, é ditado popular de cunho religioso, que como tantos outros se obriga a estabelecer a ponte entre o senso comum e o credo de tradições e crenças. Que a mesma fé possibilite a tele-transporte de matéria entra no campo do maravilhoso fantástico, e necessariamente que nisso crer carece de uma contextualização social e temporal, que penso não ser este o lugar adequado para prosseguir.
Hoje em dia, físicas quânticas e outras usurparam o espaço do divino, procurando explicá-lo repetindo-o em ambientes acondicionados e estéreis, em suma, sem gente. Mas qual o português que, confrontado com a adversidade, nunca pensou ou rangeu entre dentes um esperançoso "Ai meu Deus, Deus me ajude, Deus me acuda”?
Notas
14 fevereiro, 2019
Namorava todos os dias e sabia a tudo!!!
Tinha os lábios carnudos, os olhos negros, curvas por toda ela, bela como o pecado. Sim, lembro-me bem.
Encontrei-a em casa de um amigo que a tinha trazido da noite. Enlouqueci.
Fui mau amigo, dei-lhe a mão e ela saiu comigo e a partir desse dia fomos namorados.
Ela era chocante, vestia cores fortes e roupa agarrada às curvas onde eu me enrolava, enamorado da sua voz rouca, profunda e ousada
Um dia, puxou-me para o quarto ao lado e ao som da viola que atravessava a parede ali me perdi onde nunca me tinha perdido e onde a partir daí, sempre me quis perder. Minutos que foram crescendo para desejos a todas as horas.
Beijávamos-nos desvairados. Empurrávamos-nos às paredes e os dedos escorriam em sítios profanos. Depois, rolávamos em relvados escuros e todas as noites eram estrelas.
Uma vez, numa ardente tarde apinhada, amamos-nos sedentos de amor numa barraca de praia até rirmos sem sentido, enquanto lá fora se vendiam gelados e se faziam castelos no ar.
Depois dormimos na areia gelada e vivemos do nosso calor, amarrados como um nó.
Éramos loucos. Também um pelo outro.
Largámos-nos sem mais nem porquê, talvez num dia dos namorados de um ano qualquer.
Encontrei-a em casa de um amigo que a tinha trazido da noite. Enlouqueci.
Fui mau amigo, dei-lhe a mão e ela saiu comigo e a partir desse dia fomos namorados.
Ela era chocante, vestia cores fortes e roupa agarrada às curvas onde eu me enrolava, enamorado da sua voz rouca, profunda e ousada
Um dia, puxou-me para o quarto ao lado e ao som da viola que atravessava a parede ali me perdi onde nunca me tinha perdido e onde a partir daí, sempre me quis perder. Minutos que foram crescendo para desejos a todas as horas.
Beijávamos-nos desvairados. Empurrávamos-nos às paredes e os dedos escorriam em sítios profanos. Depois, rolávamos em relvados escuros e todas as noites eram estrelas.
Uma vez, numa ardente tarde apinhada, amamos-nos sedentos de amor numa barraca de praia até rirmos sem sentido, enquanto lá fora se vendiam gelados e se faziam castelos no ar.
Depois dormimos na areia gelada e vivemos do nosso calor, amarrados como um nó.
Éramos loucos. Também um pelo outro.
Largámos-nos sem mais nem porquê, talvez num dia dos namorados de um ano qualquer.
08 fevereiro, 2019
Dá-lhes com o ritmo... e o fogo e a alma!
Fiquem-se com esta maravilha como inspiração para o fim de semana que se aproxima...
07 fevereiro, 2019
Fogo, e o Absinto, caraças!!!
Estávamos na gruta. Passávamos ali o tempo quando não havia nada que fazer, a esfumaçar, às vezes a curtir com a bébé (lê-se um primeiro bé curto e um segundo bé, açucarado e longo q.b.), sei lá, essas coisas de chavalos, a falar de filmes e música e delas, não necessariamente por esta ordem, tinha dias. A gruta era um vazado, que tinha um sítio para sentar.
O puto aparecia. Não sabíamos nada dele, só que era doido, tipo morte lenta. Para nós era o Puto B… Tinha-se chegado um dia e tinha sido adoptado, não morava por ali, mas era um curtido, sempre a arranjar e a desenrascar cenas e confusões.
Foi ele que inventou o jogo da moeda, que era atirar uma moeda ao chão e depois ver quem a apanhava no meio dos empurrões e pontapés. Era um desafio.
Bem, nesse dia chegou e disse, c@r@lho, descobri onde há absinto (a auto censura é uma coisa triste, mas já disse que prometi ao idiota do Adriano Lisboa) !!! Absinto era uma palavra mágica, tinha uma aura. Em primeiro lugar era uma bebida proibida, o que já lhe aumentava mentalmente a graduação e dizia-se que provocava alucinações e além disso era proibida (acho que já disse).
Fomos e era mesmo ao fim da rua, OMFG como se fala agora.
Era um semi-snack-bar-restaurante, com um pequeno balcão, com aqueles bancos redondos de napa. As paredes eram forradas a veludo vermelho ou coisa que o valha. Tinha umas estrelas pindéricas à porta e umas mesas que deviam ser para cavalheiros a fumar charutos, mas eram para gajos gordos a arrotar e a fumar cigarrilhas. Com as amantes, sei lá eu.
O líquido era verde, assim para o grosso. O gajo do balcão misturava aquilo com sumo de laranja de pacote. Era bom. Naquele tempo as bebidas eram todas com sumo de laranja de pacote ou coca-cola, sai um rum cola, sai um vodka laranja. Era assim. E o absinto era com laranja.
Passámos por lá uns tempos até acabar com as garrafas de absinto e o gajo do balcão, armado em barman de cinco estrelas, dizer para irmos pairar para outra banda, que estava farto de nos aturar.
Não me perguntem se alucinei com aquilo. Saíamos dali e íamos beber submarinos (um dia explico) e continuar a esfumaçar e a curtir com as bebés, por isso a alucinação fazia parte do prazer da vida.
Mas bebi... e era proibido!
O puto aparecia. Não sabíamos nada dele, só que era doido, tipo morte lenta. Para nós era o Puto B… Tinha-se chegado um dia e tinha sido adoptado, não morava por ali, mas era um curtido, sempre a arranjar e a desenrascar cenas e confusões.
Foi ele que inventou o jogo da moeda, que era atirar uma moeda ao chão e depois ver quem a apanhava no meio dos empurrões e pontapés. Era um desafio.
Bem, nesse dia chegou e disse, c@r@lho, descobri onde há absinto (a auto censura é uma coisa triste, mas já disse que prometi ao idiota do Adriano Lisboa) !!! Absinto era uma palavra mágica, tinha uma aura. Em primeiro lugar era uma bebida proibida, o que já lhe aumentava mentalmente a graduação e dizia-se que provocava alucinações e além disso era proibida (acho que já disse).
Fomos e era mesmo ao fim da rua, OMFG como se fala agora.
Era um semi-snack-bar-restaurante, com um pequeno balcão, com aqueles bancos redondos de napa. As paredes eram forradas a veludo vermelho ou coisa que o valha. Tinha umas estrelas pindéricas à porta e umas mesas que deviam ser para cavalheiros a fumar charutos, mas eram para gajos gordos a arrotar e a fumar cigarrilhas. Com as amantes, sei lá eu.
O líquido era verde, assim para o grosso. O gajo do balcão misturava aquilo com sumo de laranja de pacote. Era bom. Naquele tempo as bebidas eram todas com sumo de laranja de pacote ou coca-cola, sai um rum cola, sai um vodka laranja. Era assim. E o absinto era com laranja.
Passámos por lá uns tempos até acabar com as garrafas de absinto e o gajo do balcão, armado em barman de cinco estrelas, dizer para irmos pairar para outra banda, que estava farto de nos aturar.
Não me perguntem se alucinei com aquilo. Saíamos dali e íamos beber submarinos (um dia explico) e continuar a esfumaçar e a curtir com as bebés, por isso a alucinação fazia parte do prazer da vida.
Mas bebi... e era proibido!
03 fevereiro, 2019
O Mostrengo
O Adamastor, monstro dos nossos medos e horrores, está acorrentado no Alto de Santa Catarina, de onde mira Lisboa. Enfraquecido pela beleza ribeirinha que se espraia à sua frente, pelos telhados do casario, pelo azul que do céu desliza e tinge as águas rutilantes do rio, o monstro mergulha em sonhos de ópio e esquece-se de nos assombrar.
Vários poetas cantaram o Adamastor. Camões, que lhe deu a forma, horrendo e lacrimoso, pintou-o assim. Pessoa dobrou o mostrengo à vontade de D. João II, pela mão do homem do leme, a quem os Xutos também recorreram para o torcer, e assim, remar contra a maré.
Percam 2 minutos a ler os poemas, vale a pena…
31 janeiro, 2019
Desafetos
Engasgara-se com uma sílaba tónica aquando de uma leitura tardia. Ficara com um nó na garganta que a obrigava a uma mudez involuntária. Ardiam-lhe as palavras, porém nenhum som se soltava.
Sufocava.
Os fonemas recusavam à sintaxe e à semântica, permanecendo imóveis em torno da sílaba cativa.
A rigidez a que estava sujeita tolhia-lhe a alma. Nem a mão trémula obedecia à caneta que nem chegara a riscar a folha que permanecia imaculada sedenta de sentidos. Havia dias em que tivera de apertar os lábios para não deixar sair palavras em excesso.
Hoje... uma elipse da voz suave e fresca. Na sala reinava um silêncio feminino.
29 janeiro, 2019
Vou-te contar...
E foi com esta melodia do mestre António Carlos Jobim, cantada aqui pela estonteante Elis Regina, que me apaixonei pela música brasileira e pelo Brasil!
O original de Jobim é instrumental e conta-se que pediu a Chique Buarque que lhe compusesse uma letra. Intimidado pelo pedido, ao fim de um mês o jovem Chico só tinha escrevinhado um verso "Vou-te contar...". Foi inspiração suficiente para Jobim, que a terminou e ...
...que resista sempre no "País Irmão" o espírito de Liberdade, Amor e Respeito pelo próximo, que a Bossa Nova e a MPB, tão bem a nós, portugueses, ajudou a entender!
28 janeiro, 2019
Olhar a dois
Ela,
Não olhou ou pareceu não olhar,
O olhar das mulheres é estranho,
Olham mas não olham,
Escondem o olhar,
Ele,
Olhou ou pareceu olhar,
O olhar dos homens é estranho,
Não olham mas olham,
Perdem-se a olhar.
O olhar dos homens é estranho,
Não olham mas olham,
Perdem-se a olhar.
26 janeiro, 2019
O odiado Sábado!!!
"6ª feira é a espera do Levante que nunca mais chega para nos aquecer o mar,
é uma bússola que aponta sempre uma fonte e nós com sede e cansados de andar."
(uma coisita pretensiosa para começar)
Esqueçam a imagem, foi o que se arranjou. Existe uma hierarquia nos dias da semana. Sim, existe sim!
Comecemos por baixo, pela vil 2ª feira, dia de ressaca, em que o tempo se arrasta e não passa. Nasceu para ser esquecida, mas no fundo não tem culpa de ter que existir.
Seguem-se a terça e a quarta. São dias sem história, não existem. São dias de arrasto, nem doces nem azedos, que se atravessam sem pensar. São o que são.
Quinta já começa a ter história, é o dia do "ainda", "ainda é 5ª feira", mas já dá perfumes a sexta.
A 6ª feira por si só não é nada, mas é tudo porque anuncia o fim de semana. É um dia impróprio para ansiosos. Goza-se por antecipação e fazem-se planos. Aliás a sexta é quase fim de semana, pois é noite de jantarada. Pica-se com o Domingo, mas ganha quando grita, eu quero o sábado, que está logo ali e o domingo grita, eu quero o sábado, que está ainda tão longe.
Entremos no Top Três (se estiveram a contar parece que já só faltam dois, mas como o sábado são dois dias, por isso faltam três):
3 O Sábado de manhã é o dia das compras, limpezas, tomar banho e essas coisas necessárias. Torna-se aborrecido, cansativo e por vezes deprimente. Mas já é fim de semana, por isso que se lixe.
2 O Domingo é o Patriarca dos dias, faz-se amor de manhã, antes que os putos acordem, vai-se à missa, comem-se almoçaradas em família, tosta-se na praia, passeia-se e vê-se o Netflix. Dorme-se a sesta. É um dia vaya com dios.
1 O Sábado à noite, como suspeitavam se leram até aqui, está no topo. É um dia sem responsabilidades, que sabe a álcool e cheira a fumos e a suores, em que se respira música e se enrolam corpos desconhecidos por vontade. É o dia do Uber para o desconhecido.
O Sábado à noite é o Carnaval misturado com o Santo António e deve ser tão invejado e odiado pelos outros dias, a ansiosa 6ª feira, o relaxado Domingo, a odiada 2ª feira e os outros tontos, que nem imagino.
é uma bússola que aponta sempre uma fonte e nós com sede e cansados de andar."
(uma coisita pretensiosa para começar)
Esqueçam a imagem, foi o que se arranjou. Existe uma hierarquia nos dias da semana. Sim, existe sim!
Comecemos por baixo, pela vil 2ª feira, dia de ressaca, em que o tempo se arrasta e não passa. Nasceu para ser esquecida, mas no fundo não tem culpa de ter que existir.
Seguem-se a terça e a quarta. São dias sem história, não existem. São dias de arrasto, nem doces nem azedos, que se atravessam sem pensar. São o que são.
Quinta já começa a ter história, é o dia do "ainda", "ainda é 5ª feira", mas já dá perfumes a sexta.
A 6ª feira por si só não é nada, mas é tudo porque anuncia o fim de semana. É um dia impróprio para ansiosos. Goza-se por antecipação e fazem-se planos. Aliás a sexta é quase fim de semana, pois é noite de jantarada. Pica-se com o Domingo, mas ganha quando grita, eu quero o sábado, que está logo ali e o domingo grita, eu quero o sábado, que está ainda tão longe.
Entremos no Top Três (se estiveram a contar parece que já só faltam dois, mas como o sábado são dois dias, por isso faltam três):
3 O Sábado de manhã é o dia das compras, limpezas, tomar banho e essas coisas necessárias. Torna-se aborrecido, cansativo e por vezes deprimente. Mas já é fim de semana, por isso que se lixe.
2 O Domingo é o Patriarca dos dias, faz-se amor de manhã, antes que os putos acordem, vai-se à missa, comem-se almoçaradas em família, tosta-se na praia, passeia-se e vê-se o Netflix. Dorme-se a sesta. É um dia vaya com dios.
1 O Sábado à noite, como suspeitavam se leram até aqui, está no topo. É um dia sem responsabilidades, que sabe a álcool e cheira a fumos e a suores, em que se respira música e se enrolam corpos desconhecidos por vontade. É o dia do Uber para o desconhecido.
O Sábado à noite é o Carnaval misturado com o Santo António e deve ser tão invejado e odiado pelos outros dias, a ansiosa 6ª feira, o relaxado Domingo, a odiada 2ª feira e os outros tontos, que nem imagino.
24 janeiro, 2019
"When you fit me, as sunday's frozen pitch fits the thermos flask"
Cover pura, por Claudia Jardine, de "Too much to ask", original da minha banda, Arctic Monkeys.
Alex Turner, poeta do impossível, compõe aqui um dos mais deliciosos e tristes versos que já me deram o prazer de sentir...
22 janeiro, 2019
O Vermelho das Amoras ou quando a Lua se fez Sangue
Na noite do eclipse a lua cheia escondia as estrelas, inundando os campos de uma luz vermelha.
Perturbados, os sobreiros dos cabeços entrelaçavam as raízes nas oliveiras e pelos matos as estevas e as giestas chegavam-se aos alecrins.
Os jovens seguiam calados pelo caminho, entorpecidos pelo rilhar das cigarras e dos grilos.
Olha, amoras, apontou a rapariga e adiantou-se gulosa. As bagas, de um negro escuro carnudo, estavam ali á mão, e desfaziam-se em licor avermelhando os dedos e os cantos da boca. Partilhando a delícia, sorriram quando a lua lhes juntou as sombras.
Piquei-me, suspirou ela. No dedo aflorou uma pinta de sangue. Deixa-me ver, disse ele. Agarrando a mão, lentamente roçou o dedo pela palma como quem lê o futuro. A lua brilhou um pouco mais, tudo ficou mais vermelho. O futuro não estava escrito, apenas o destino.
O coração batia-lhe descompassado e o sangue fluía de desejo. Acompanhando-o, os olhos dela eram calor e os lábios vermelhos, ainda mais vermelhos do suco das amoras, murmuraram qualquer coisa que ele não ouviu. Enrolou-a nos braços e olhou a lua, que afogueada concedeu.
E com um rosnar cego, uma ânsia, uma fúria, cravou os dentes na veia que latejava cheia de vida. Sentiu-a estremecer, ouviu-lhe o grito de pavor que se converteu em suspiro, e sôfrego, sugou. Parou saciado, com os olhos raiados e os dentes tintos do sangue.
Perdido na beleza de mármore, rasgou a carne e pinga a pinga deixou o seu líquido escarlate fluir-lhe ao coração, acorrentando-a à noite. Seguiram felizes até que o sol, apanhando a lua distraída, os separou.
21 janeiro, 2019
A Ilha dos Amores de Fausto
Veio à baila esta bela música do Fausto e aqui fica, não só por isso, mas também porque "Andamos nus e descalços, amantes, sedentos, Se o véu da noite se deita na curva do tempo." é muita poesia, muita arte, muito talento!
20 janeiro, 2019
A Lisboa de Eugénio de Andrade
Esta cidade está em alta, não há top que aguente.
Range à chegada dos turistas enlatados e chora à partida dos alfacinhas aos molhos.
Transforma-se...
Mas Lisboa não é o que é, é o que penso que é.
Amo-a sem sentido, como se ama num sonho.
Eugénio de Andrade também a amava...
Alguém diz com lentidão:
“Lisboa, sabes…”
Eu sei. É uma rapariga
descalça e leve,
um vento súbito e claro
nos cabelos,
algumas rugas finas
a espreitar-lhe os olhos,
a solidão aberta
nos lábios e nos dedos,
descendo degraus
e degraus
e degraus até ao rio.
Eu sei. E tu, sabias?
18 janeiro, 2019
Quanto barulho cabe no silêncio?
As palavras haviam de ser aladas
e levantar voo quando fosse preciso. Ou então ficar quietas. Podiam ainda ser
escritas numa letra miudinha que mal se conseguisse ler. Quem sabe até numa
língua morta há muito esquecida.
Agora… remetê-las ao silêncio?!
Desprovê-las de barulho… de
vida?!
Metralhar-lhes a essência?!
Isso é que não!!!
(... e arde-me a cabeça de vos querer cantar com um excesso / De expressão de todas as minhas sensações... Álvaro de Campos, Ode Triunfal)
(... e arde-me a cabeça de vos querer cantar com um excesso / De expressão de todas as minhas sensações... Álvaro de Campos, Ode Triunfal)
16 janeiro, 2019
O Jardim dos Enamorados
Este texto encerra "O Jardim dos Suicidas", publicado a 19 de Dezembro do ano findo.
Com o jardim tudo se muda e continua Pastor de Macedo:
“(...) E o passeio de S. Pedro de Alcântara, como então se dizia, desembaraçado das sombras dos suicidas que por largo tempo sobre ele pairavam (...) passou a ser o Paraíso dos enamorados talvez por causa de um labirinto que ali existia e que teve de ser demolido justamente para evitar certas cenas que ali se davam e que o leitor facilmente adivinha.
E assim como o labirinto foi destruído em nome da moral alfacinha, também o zelo da autoridade, em nome dessa mesma moral que a muitos parecerá ridícula, pegou num guarda municipal (…) e colocou-o na parte inferior da escada de pedra que faz a comunicação entre os dois tabuleiros, para não deixar qualquer homem, fosse qual fosse, levantar os olhos quando alguma senhora descesse. (...)”
Desculpem-me o sorriso…
“(...) E o passeio de S. Pedro de Alcântara, como então se dizia, desembaraçado das sombras dos suicidas que por largo tempo sobre ele pairavam (...) passou a ser o Paraíso dos enamorados talvez por causa de um labirinto que ali existia e que teve de ser demolido justamente para evitar certas cenas que ali se davam e que o leitor facilmente adivinha.
E assim como o labirinto foi destruído em nome da moral alfacinha, também o zelo da autoridade, em nome dessa mesma moral que a muitos parecerá ridícula, pegou num guarda municipal (…) e colocou-o na parte inferior da escada de pedra que faz a comunicação entre os dois tabuleiros, para não deixar qualquer homem, fosse qual fosse, levantar os olhos quando alguma senhora descesse. (...)”
Desculpem-me o sorriso…
08 janeiro, 2019
Metamorfose
Depois de tanto tempo, não a reconheci. Tinha crescido . Havia como que um prolongamento artificial da pessoa que já tinha sido. Desde o discurso pejorativo, carregado de ironias e polissemias, até ao total despojo de sentimentos, tudo nela era mutação.
Não havia margem para dúvidas, tinha filtrado o coração. Deitara fora os pedaços de afeto, a saudade, o amor. Tudo aquilo lhe tinha parecido uma armadilha perigosa da qual tivera de se desfazer. Tudo se tinha tornado insuportável.
Exaustão ...Cansaço...Inquietação
A recusa obrigara a um disfarce, aos despojos e à opacidade.
A beleza natural dera lugar ao artifício, a fragilidade à frieza, a transparência à metamorfose de um corpo fechado.
Tinha-lhe passado a vontade de viver uma vida arrumada. Despira as certezas como quem despe um vestido num só movimento e o deixa cair no chão frio.
Era tão legítimo viver rodeada de bruma, num cenário de permanente mudez e quietude, quanto ansiar por uma euforia desmedida num ambiente bucólico.
Era só abrir a janela...
05 janeiro, 2019
Como se estraga uma bonita história de sexo!
Passávamos o tempo a descobrir pontos erógenos. Ainda não havia Google para dizer onde eram. Era giro, passava-se bem o tempo.
Os dela eram mais difíceis de encontrar. Eu esforçava-me, tocava aqui, esfregava ali, trincava acolá. Não deixava nada para trás. Ela deixou-me um mês depois por um marujo de barba rija.
Isto foi para meter o sexo na história, senão não vende. Naquela altura até se lia sobre um gajo que acordara gafanhoto. Agora é diferente, tem que ter sexo e sangue.
Adiante, vamos ao que interessa.
Havia um cesto de palhinha, para os necessaire. Papel higiénico, sabonete e shampoo. Preservativos. Mas é mesmo do papel que trata a história.
Passou-se uma manhã, deviam ser duas da tarde, ela foi lá fazer a higiene dela. Ouvi uma voz em crescendo: Arroz Doce, andaste a esfiar o papel higiénico, fogo!!! És tarado ou quê?
Meio a dormir pensei, esfiar o papel higiénico? Já tinha esfiado bacalhau e pato. Mas papel higiénico? O sexo em demasia dera-lhe cabo da mioleira.
Era verdade, o cesto estava cheio de papelitos. Mas que raio, caraças, que merda é esta? Debruçamo-nos e o papel fez rrrrrrrr!!!
Saltou de lá uma rata, tamanho 49, e nós fugimos e a rata atrás de nós e nós sempre a correr e a rata não nos largou e chegamos ao cais do Sado e a rata coladinha e fizemos aquele número de saltar para o lado e a rata não travou a tempo e caiu na água e foi com a maré.
Voltámos mais tarde, armados com uma catana e um cacete. Descarregámos a fúria no cesto. Estraçalhámos o resto do papel higiénico. Fomos embora, pois eu não tenho cá vida para andar a ser comido por uma rata. Nem ela.
Arruinou-se ali uma bela história de sexo.
03 janeiro, 2019
O meu silêncio (2005)
Sou péssimo a preencher o silêncio dos outros, por isso ser observado com desconfiança. Neste mundo que privilegia a repetição de palavras de comunicação oca, o silêncio é sinal de maleita, é como estar amarelo de icterícia.
Odeio o artificialismo, odeio chats, onde a solidão que é o silêncio se vê distraída mas não preenchida. Odeio que o vento assobie na minha chaminé quando tento dormir.
Desespero quando o meu filho me chama a meio da noite, por um copo de água. Mas fico depois languidamente a observá-lo, meio a dormir, preenchendo com a sua imagem o meu silêncio, à luz de uma fraca luz de presença, a qual preenche o seu silêncio, ainda muito igual aos seus medos e incertezas.
No feminino amo o calor e o odor dela, os quais tornam o meu silêncio obsoleto, quando cruza as suas pernas nas minhas e levemente respira de satisfação como um gato muito festejado. Vivo para estes dois parágrafos, para o que se segue, e pouco mais.
Amo os livros. Creio ser este um amor desproporcionado, de parte a parte. São eles que fizeram da minha vida esta epopeia perdida pelos sofás. Mas são eles também que mais profundamente preenchem o meu silêncio e me fazem compreender, entender, reconhecer, amar e odiar a dimensão humana onde inevitavelmente me perco.
Amo os livros e o meu silêncio...
02 janeiro, 2019
You make me feel so young...
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